Como foi o assédio a médica em jogo do Paulistão: “Vem me examinar”
Jogo entre Comercial e Nacional foi paralisado após torcedor gritar termos de cunho sexual e fazer gesto obsceno à médica do time visitante
atualizado
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A partida entre Comercial de Ribeirão Preto e Nacional, tradicional equipe da Barra Funda, foi interrompida no último sábado (7/3), véspera do Dia Internacional da Mulher, após torcedores do time do interior de São Paulo assediarem sexualmente a médica da equipe visitante.
O jogo, válido pela Série A4 do Campeonato Paulista, foi paralisado após um torcedor gritar palavras de cunho sexual e fazer gestos obscenos para a profissional. “Ele fazia comentários do tipo: ‘Doutora gostosa, doutora linda, vem aqui me examinar’, ‘Trabalha para mim no particular, eu vou pagar seu salário’, e apontava para as partes íntimas”, relatou a médica Bianca Francelino, ao Metrópoles. Era a primeira vez que ela trabalhava no futebol.
Segundo a médica, a denúncia para a arbitragem foi feita pelos jogadores e demais integrantes do Nacional, que se incomodaram e foram pedir respeito ao torcedor. “Eu estava tentando evitar ao máximo essa situação, por mais constrangedor que estivesse. Avistaram que ele realmente estava ameaçando chegar no ponto de tirar para fora o membro mesmo”.
Nesse momento, começou um bate-boca próximo ao alambrado do estádio Francisco de Palma Travassos, casa do Comercial. O namorado da médica estava na arquibancada e tentou intervir, mas o torcedor reagiu de forma hostil, segundo o relato. Policiais militares foram acionados para controlar a briga.
Após a confusão, a árbitra do jogo aplicou o protocolo de assédio para paralisar a partida. “Me perguntaram se aquilo realmente tinha acontecido, e eu confirmei. Perguntaram se eu tinha condições de continuar o jogo, eu falei que sim, até porque eu estava lá para exercer o meu trabalho”, afirmou Bianca.
“Mesmo assim, ele não foi retirado de campo. Não levaram ele embora. Ainda continuou desferindo alguns comentários. Depois de um tempo, se afastou. Só que outros torcedores, que meio que tomaram as dores dele, continuaram: ‘Doutora gostosa, te amo doutora, me adiciona no WhatsApp, me chama no Instagram’. Começaram comentários do tipo: ‘Se não quer ouvir brincadeirinha, não vem no campo’, ‘Não traz o namorado da próxima vez’”, disse.
Bianca não quis registrar boletim de ocorrência por causa do medo. “Eu não queria essa exposição, esse constrangimento. Então a gente segue com o medo, da perseguição, dos comentários, dos julgamentos. Isso só mostra a vulnerabilidade mesmo.”
A médica afirmou que o episódio, no entanto, não a desanimou em seguir trabalhando no futebol. “De forma alguma atrapalha nos meus planos, nos meus objetivos, ou no meu amor ao esporte, no meu amor à profissão. Muito pelo contrário, a gente tem que usar esse tipo de situação como incentivo, como alavanca mesmo.”
Clubes e Federação Paulista
Em nota, o Nacional repudiou o episódio, que classificou como “lamentável”. “Repudiamos veementemente o assédio sofrido pela Dra. Bianca Francelino, médica dedicada ao atendimento de nossos atletas, que foi atacada de forma dolosa durante a partida contra o Comercial.”
“À Dra. Bianca, nossa total solidariedade e admiração pela força demonstrada ao continuar no jogo apesar do ocorrido. Que episódios como esse sirvam para unir todos na luta contra qualquer forma de violência e desrespeito”, completou.
Em nota, a Federação Paulista de Futebol diz que “repudia mais um lamentável episódio de assédio, desta vez de torcedores do Comercial à médica do Nacional, em partida válida pelo Paulistão A4 Rivalo”.
Segundo a FPF, ao ser informada do assédio, a árbitra do jogo, Ana Caroline Carvalho, acionou o protocolo previsto no Tratado pela Diversidade e Contra a Intolerância no Futebol Paulista, paralisando a partida. “A equipe da FPF na partida ofereceu todo apoio à médica vítima do assédio”.
A FPF prometeu enviar o caso às autoridades competentes, para que os “responsáveis pelo ato criminoso sejam identificados e punidos de forma rigorosa”.
“O Futebol Paulista não é palco para assédio, preconceito ou qualquer tipo de discriminação e importunação. Seguiremos atentos para coibir que situações como essa se repitam”, finaliza o texto.
O Metrópoles também tentou contato por telefone com o Comercial, sem sucesso. O espaço segue aberto para manifestações.










