Caso Thawanna: “Íamos casar”, disse companheiro de mulher morta por PM
Luciano dos Santos e Thawanna Solmázio planejavam se casar quando ela foi morta pela PM Yasmin Cursino Ferreira, no dia 3 de abril
atualizado
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Luciano Gonçalves dos Santos, companheiro de Thawanna da Silva Solmázio, morta aos 31 anos por uma policial militar na madrugada de 3 de abril em Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, contou que os dois estavam planejando se casar. Juntos há três anos, o casal esperava a emissão da segunda via da certidão de nascimento dela para oficializar a união.
Naquela madrugada, Luciano e Thawanna estavam celebrando. Em 31 de março, eles haviam completado três anos de namoro e, em 8 de abril, ela completaria 32 anos. “A gente tava com planos. Naquela noite, saímos pra trocar umas ideias, fazer planos. Aquela noite era um momento ilustre, um momento de felicidade da gente”, disse Luciano ao Metrópoles.
A emissão da certidão era mais um desafio cotidiano a ser superado pelo servente de pedreiro e pela ajudante-geral. “Tudo o que era difícil se tornou fácil pra nós, e a gente se encheu de esperança [com o casamento]”, disse.
O plano, no entanto, foi interrompido. Thawanna foi baleada no tórax pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, durante uma discussão. A militar, que ainda estava em período de estágio na corporação, justifica o tiro alegando que foi agredida com um tapa no rosto. Ela não portava bodycam. A vítima deixou cinco filhos.
Luciano contou que está de coração partido. Ele se lembrou dos esforços que o casal estava fazendo para juntar R$ 500 para fazer uma lua de mel na Praia Grande, no litoral sul de São Paulo. “[Era] pra fazer só um bate e volta, porque sou trabalhador, ganho pouco, mas é um lazer”, disse.
“Infelizmente, roubaram a gente. Minha mulher foi arrancada dos meus braços”, lamentou o servente.
Companheiro prestou depoimento
Luciano foi até o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), onde a morte da companheira é investigada, para prestar depoimento, na tarde desta sexta-feira (3/4). Ele estava acompanhado do advogado, do pastor da igreja a qual frequenta e de mais duas testemunhas oculares do homicídio.
O advogado Wilson Ferreira, que representa o servente, falou com a imprensa na saída da delegacia. Veja:
Soldado ainda estava em estágio
Yasmin Cursino Ferreira ainda estava em período de estágio na Polícia Militar quando atirou contra Thawanna. A soldado sequer havia cumprido os requisitos burocráticos necessários para portar uma câmera corporal. Por isso, ela estava sem o equipamento. Depois do episódio, a soldado foi afastada da corporação.
A agente tomou posse como policial há pouco mais de um ano. Yasmin foi aprovada no concurso para soldado em novembro de 2024 e tomou posse em janeiro de 2025. Segundo a Polícia Militar (PM), o curso dura dois anos e inclui seis meses de formação básica, seis meses de formação específica cumprida em unidades operacionais, e mais 12 meses de estágio supervisionado, “atuando nas ruas, cidades, estradas, matas, litoral e céus de São Paulo”.
Ela estava na parte do estágio supervisionado. No momento em que atirou contra Thawanna, a policial não estava usando a câmera corporal.
Imagens de câmeras corporais
Nas imagens acima, publicadas pela TV Globo, é possível ver o momento em que uma dupla de policiais em uma viatura passam pela Rua Edimundo Audran e batem o retrovisor da viatura — no lado do motorista — no braço do marido de Thawanna, Luciano dos Santos.
O PM que está na direção do veículo dá ré e começa a discutir com o rapaz. Enquanto isso, a policial militar Yasmin Cursino Ferreira desembarca do carro e também começa a discutir com a mulher. Por volta das 3h, a agente atira em Thawanna.
Depois de alguns minutos, outros policiais chegam na cena do crime, mas o resgate não aparece. Os agentes envolvidos na ocorrência cobram a presença do socorro pelo menos duas vezes. Ferida, Thawanna ficou no chão a espera de atendimento por cerca de 30 minutos, mesmo com o Hospital Municipal Cidade Tiradentes estando a menos de quatro quilômetros do local.
Polícia investiga marido da vítima
A Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar o companheiro de Thawanna, o servente de pedreiro Luciano Gonçalves dos Santos. Ele vai responder por resistência. A policial Yasmin, de 21 anos, consta como vítima.
Segundo os PMs, Luciano teria desobedecido ordens e gritado contra a equipe policial. A versão oficial não coincide com o depoimento do servente, que disse não ter havido qualquer tipo de abordagem e que a PM desceu da viatura atirando. O companheiro de Thawanna afirmou que a viatura passou em alta velocidade pela rua, quase atingindo o casal com o retrovisor do veículo. A mulher teria se assustado e “proferido palavras de insatisfação”, conforme consta no registro da ocorrência.
Nesse momento, disse Luciano, a policial atirou contra sua companheira. Inicialmente, ele teria pensado que o disparo foi de munição não letal e passou a colaborar com os PMs, colocando no chão uma bolsa e a blusa que estava vestindo, segundo ele, com o objetivo de demonstrar que não oferecia risco. Ainda assim, os policiais teriam usado spray de pimenta.
Em depoimento, a PM Yasmin, autora do disparo, afirma que o casal estaria discutindo no meio da rua quando a viatura passou pelo local. Segundo ela, Luciano teria “esbarrado o braço” no veículo, e o casal teria então começado a gritar. A policial afirma que os dois tinham sinais de embriaguez e que o homem precisou ser contido pela equipe, porque estaria “gesticulando de forma agressiva”. A PM diz que, enquanto isso, Thawanna teria começado a apontar o dedo na direção do seu rosto e a agredi-la.
Início da briga
Uma câmera de segurança registrou o diálogo entre Thawanna Salmázio e policiais militares antes de a mulher ser morta com um tiro da soldado Yasmin Cursino.
No início do vídeo, é possível ver o casal de mãos dadas, na Rua Edimundo Audran, às 2h58. Eles caminham até um ponto fora do alcance das câmeras. Logo em seguida, uma viatura da Polícia Militar passa. Mesmo fora da imagem, parte de uma discussão é registrada em áudio (assista acima).
Em um dos trechos audíveis, Thawanna diz: “com todo respeito, mas você [PM] que bateu em nós, que eu vi”. Uma voz feminina, que seria da policial, responde. A partir daí, a discussão escala para gritos. “Vai agredir? Vai agredir?”, diz Luciano. Segundos depois, ouve-se um disparo.
A policial foi afastada da corporação, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública (SSP). Yasmin Cursino Ferreira, soldado de 2ª classe de 21 anos, é alvo de um inquérito policial militar e um de um inquérito conduzido pela Polícia Civil.
“As circunstâncias são apuradas com prioridade absoluta pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias. As imagens das câmeras corporais e os laudos periciais já integram a investigação”, disse a SSP em nota.
Mulher caída
Uma testemunha registrou a sequência do momento em que Thawanna foi baleada pela policial militar. Nas imagens, é possível ver a mulher caída no meio da rua, com um sangramento na região do peitoral.
Os policiais checam a situação e um deles presta os primeiros socorros. Um dos moradores afirma que viu a ação dos PMs e chama a agente que fez o disparo de “despreparada” (assista acima).
Protesto após morte
- Moradores fizeram um protesto, no último dia 3/4, na Rua Alexandre Davidenko após a morte de Thawanna.
- Eles montaram uma barricada e atearam fogo em objetos.
- O Corpo de Bombeiros foi acionado e equipes do Choque foram encaminhadas para o local.
- Houve confronto entre os policiais e os manifestantes e uso de bombas de gás lacrimogêneo.
- Também ocorreu uma tentativa de atear fogo em um ônibus.
- Ninguém foi preso ou ficou ferido.
- Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que as imagens das câmeras corporais usadas pelos agentes serão analisadas.
- Os policiais foram colocados em funções administrativas até o fim da investigação.
- O caso foi registrado no 49º Distrito Policial (São Mateus) como resistência.


































