Famosos da periferia de SP pedem justiça por Thawanna: “Parem de nos matar”
O rapper Emicida, o MC Salvador da Rima e artista Eduardo Taddeo se pronunciaram nas redes sociais após mulher ser morta baleada por PM
atualizado
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Famosos ligados à periferia de São Paulo usaram as redes sociais para pedir justiça por Thawanna da Silva Salmázio, mãe de cinco filhos, que estava desarmada quando foi morta baleada pela policial militar Yasmin Cursino, na noite de 3 de abril, na zona leste da capital.
O rapper Emicida publicou nessa quinta-feira (9/4) um desabafo sobre o caso, criticando a letalidade policial e a falta de segurança pública nas periferias. O cantor aproveitou para prestar apoio à família de Thawanna e ironizou: “A viatura quase te atropela, você reclama e a policial (que pode usar arma, mas não pode usar câmera???) volta e mata você”.
“Enquanto isso, a população vai perdendo a conta dos casos isolados”, lamentou Emicida no post.
Outro que se pronunciou sobre o caso foi o MC Salvador da Rima. Por meio do seu perfil no Instagram, Salvador pediu paz e afirmou “não aguentamos mais tanta violência em nossas favelas, em nossos bairros”.
“Peço, por favor, que parem de nos matar. Pois, se não sobrar nenhum de nós, não terá ninguém para colocar comida no prato de vocês”, desabafou o MC.
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O artista também cobrou respostas do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do secretário da Segurança Pública, Oswaldo Nico.
Relembre o caso
Thawanna estava desarmada quando foi morta na frente do marido, na Rua Edimundo Audran, no bairro Cidade Tiradentes. A câmera corporal de um dos policiais militares envolvidos na ocorrência mostra que tudo começou após uma viatura da PM bater com o retrovisor no braço do marido da vítima.
A versão policial, contudo, é de que o pedestre foi quem acertou a viatura, o que motivou a abordagem. Segundo a polícia, o casal começou a discutir com os agentes e Thawanna teria agredido a PM Yasmin Cursino, o que seria o motivo para o disparo.
Nessa quarta-feira (8/4), apesar de não citar o caso de Thawanne, o rapper Eduardo Taddeo, um dos líderes do grupo Facção Central, também usou o Instagram para denunciar casos de violência policial.
Taddeo afirmou que a postura da polícia faz parte de uma política de extermínio, “que tem alvo, tem CEP e cor determinada”. O ativista exigiu punição severa para policiais responsáveis por mortes e por fraudes processuais.
“A gente tem que exigir punição severa para o policial assassino que comete fraude processual, que mente no boletim de ocorrência”, disparou.
Policial estava em período de estágio
A soldado Yasmin Cursino Ferreira ainda estava em período de estágio na corporação. Ela tomou posse como policial há pouco mais de um ano. Depois do caso em que atirou contra a mulher, no último dia 3 de abril, a agente foi afastada de suas funções.
Yasmin foi aprovada no concurso para soldado em novembro de 2024 e tomou posse em janeiro de 2025. Segundo a PM, o curso dura dois anos e inclui seis meses de formação básica, seis meses de formação específica cumprida em unidades operacionais, e mais 12 meses de estágio supervisionado, “atuando nas ruas, cidades, estradas, matas, litoral e céus de São Paulo”.
Ela estava na parte do estágio supervisionado. No momento em que atirou contra Thawanna, a policial não estava usando a câmera corporal.
Câmera corporal de outro policial mostra abordagem
Nas imagens da câmera corporal de um policial militar, publicadas pela TV Globo, é possível ver o momento em que os policiais dirigem pela Rua Edimundo Audran e batem o retrovisor no braço do marido de Thawanna, Luciano dos Santos.
Os policiais retornam com a viatura e começam a discutir com o rapaz, quando a policial militar Yasmin Cursino Ferreira desembarca do carro e começa a discutir com a mulher, enquanto o outro agente briga com o homem.
Posteriormente, a agente atira contra a mulher. O policial aciona o resgate e começa a questionar a colega sobre o que havia acontecido: “Você atirou nela?”. A PM diz que Thawanna bateu no rosto dela.
Depois de alguns minutos outros policiais chegam na cena do crime e nada do resgate. Os agentes envolvidos na ocorrência chegam a cobrar a presença do socorro pelo menos duas vezes. Thawanna ficou agonizando no chão por cerca de 30 minutos.
Polícia investiga marido da vítima
A Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar o companheiro de Thawanna, o servente de pedreiro Luciano Gonçalves dos Santos. Ele vai responder por resistência. Enquanto isso, a policial que atirou contra Thawanna, Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, consta como vítima.
Segundo os PMs, Luciano teria desobedecido ordens e gritado contra a equipe policial. A versão oficial não coincide com o depoimento do servente, que disse não ter havido qualquer tipo de abordagem e que a PM desceu da viatura atirando. O companheiro de Thawanna afirmou que a viatura passou em alta velocidade pela rua, quase atingindo o casal. A mulher teria se assustado e “proferido palavras de insatisfação”, conforme consta no registro da ocorrência.
Nesse momento, disse Luciano, a policial atirou contra sua companheira. Inicialmente, ele teria pensado que o disparo foi de munição não letal e passou a colaborar com os PMs, colocando no chão uma bolsa e a blusa que estava vestindo, segundo ele, com o objetivo de demonstrar que não oferecia risco. Ainda assim, os policiais teriam usado spray de pimenta.
Em depoimento, a PM Yasmin, autora do disparo, afirma que o casal estaria discutindo no meio da rua quando a viatura passou pelo local. Segundo ela, Luciano teria “esbarrado o braço” no veículo, e o casal teria então começado a gritar. A policial afirma que os dois tinham sinais de embriaguez e que o homem precisou ser contido pela equipe, porque estaria “gesticulando de forma agressiva”. A PM diz que, enquanto isso, Thawanna teria começado a apontar o dedo na direção do seu rosto e a agredi-la.
Protesto após morte
- Moradores fizeram um protesto na Rua Alexandre Davidenko após a morte de Thawanna.
- Eles montaram uma barricada e atearam fogo em objetos.
- O Corpo de Bombeiros foi acionado e equipes do Choque foram encaminhadas para o local.
- Houve confronto entre os policiais e os manifestantes e uso de bombas de gás lacrimogêneo.
- Também ocorreu uma tentativa de atear fogo em um ônibus.
- Ninguém foi preso ou ficou ferido.
- Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que as imagens das câmeras corporais usadas pelos agentes serão analisadas.
- Os policiais foram colocados em funções administrativas até o fim da investigação.
- O caso foi registrado no 49º Distrito Policial (São Mateus) como resistência.
























