Câmeras corporais não registraram 67% das mortes na Operação Escudo
Levantamento afirma que câmeras corporais estavam desligadas, sem bateria ou não foram usadas em parte das ocorrências com mortes

Grande parte das ocorrências com mortes durante as Operações Escudo e Verão, realizadas entre 2023 e 2024 na Baixada Santista, no litoral de São Paulo, não teve imagens gravadas pelas câmeras corporais dos policiais militares (PMs). É o que aponta um relatório divulgado pelo Instituto Vladimir Herzog, que também cita casos em que os equipamentos estavam desligados, sem bateria ou não foram usados.
Segundo o levantamento, 67% dos casos de mortes analisados na primeira fase da Operação Escudo não tinham qualquer gravação das câmeras corporais. Entre essas ocorrências sem imagens, 38% envolveram policiais que estavam com as câmeras desligadas, sem bateria ou que nem chegaram a utilizar o equipamento, o que, segundo o instituto, dificultou a apuração das mortes.
Além da ausência de imagens, o relatório reúne casos em que investigadores apontaram suspeitas de manipulação de provas. Um dos exemplos citados é o do capitão Marcos Corrêa de Moraes Verardino, denunciado pelo Ministério Público (MPSP) sob a acusação de apagar imagens de câmeras de segurança que registrariam uma execução. A perícia concluiu que os arquivos foram excluídos de forma proposital.
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- A Operação Escudo acontceu em julho de 2023, após a morte do policial da Rota Patrick Bastos Reis, durante uma ação no Guarujá, no litoral de São Paulo.
- A segunda fase teve início no começo de 2024, após as mortes dos policiais militares Marcelo Augusto da Silva, Samuel Wesley Cosmo e José Silveira dos Santos.
- O Governo de São Paulo informou que as operações tinham como foco localizar os responsáveis pelas mortes dos policiais e combater o tráfico de drogas e o crime organizado na Baixada Santista.
- O que aconteceu durante as ações? As operações ficaram marcadas pelo alto número de mortes em intervenções policiais e por denúncias de violações de direitos humanos.
- A Defensoria Pública de São Paulo e a Conectas Direitos Humanos denunciaram o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), alegando graves violações de direitos humanos durante as operações Escudo e Verão.

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Ver todasSuspeita de manipulação de provas
O documento também cita outras práticas que, segundo o instituto, dificultaram as investigações, como a retirada de corpos antes da chegada da perícia, a suspeita de que armas e drogas tenham sido colocadas ao lado das vítimas para sustentar versões de confronto e relatos de policiais que entraram em imóveis sem acionar as câmeras corporais.
Por outro lado, o relatório afirma que, quando as câmeras estavam ligadas, as gravações acabaram contrariando versões apresentadas inicialmente pela polícia. O documento também menciona áudios captados por câmeras corporais em que policiais aparecem comemorando mortes durante as operações.
Para o Instituto Vladimir Herzog, a falta de registros e as suspeitas de manipulação de provas dificultam a responsabilização de agentes públicos e comprometem a transparência das investigações sobre as mortes ocorridas nas operações.
Milhões em recursos públicos
As Operações Escudo e Verão consumiram cerca de R$ 350 milhões em recursos públicos, segundo estimativa apresentada pelo Instituto Vladimir Herzog. O cálculo reúne despesas com o emprego das forças de segurança, perícias, investigações, processos judiciais e a manutenção de pessoas presas após as ações realizadas na Baixada Santista.
Desse total, aproximadamente R$ 91,9 milhões foram destinados à atuação da Polícia Militar e R$ 28,3 milhões à Polícia Técnico-Científica. O estudo também estima que o processamento das 958 prisões em flagrante realizadas durante as operações gerou um custo de cerca de R$ 159,4 milhões, além de outros R$ 41,6 milhões gastos com a permanência dessas pessoas no sistema prisional até junho de 2025.
Para o Instituto Vladimir Herzog, esses números mostram que houve um alto investimento do poder público em ações de repressão e encarceramento. O relatório também destaca que, enquanto o Estado destinou milhões às operações, muitas famílias das vítimas afirmaram ter enfrentado dificuldades para custear enterros, tratamentos de saúde e lidar com a perda da principal fonte de renda após as mortes registradas durante as ações policiais.
O Metrópoles solicitou posicionamento à Polícia Militar sobre a conclusão da pesquisa realizada pelo Instituto Wladimir Herzog em relação às operações, mas não houve retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.



