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São Paulo

Alunos relatam pressão para cortar cabelo em escola cívico-militar

Secretaria da Educação de SP diz que descumprimento de regras sobre aparência “não impede a frequência às aulas"

18/06/2026 02:15
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Lara Abreu / Arte Metrópoles
imagem colorida mostra ilustração com duas pessoas. elas estão contra a luz, de modo que vemos apenas suas silhuetas. uma delas parece ser um homem de boné, ele tem o dedo levantado. a outra é um menino. ao fundo temos uma lousa com o brasão escrito escola cívico-militar são paulo. tambem há texto sobre regras de aparência para os alunos

Estudantes da Escola Estadual Lourenço Filho, no Planalto Paulista, zona sul de São Paulo, afirmam que têm sido pressionados a mudar seus cabelos desde que a unidade adotou o modelo cívico-militar. A Lourenço Filho, uma das 100 escolas do estado que aderiram ao sistema em 2026, conclui este mês o primeiro semestre do ano letivo.

Na unidade, a regra sobre cabelos tem afetado estudantes negros que não se sentem confortáveis, por exemplo, para usar o corte no estilo black power.

“Eles não deixam a gente ter a nossa própria personalidade. A escola falava desde o 6º ano que temos que ser protagonistas na nossa vida, mas agora não deixam a gente ser quem a gente é”, disse o aluno Dennis, do 8º ano, ao Metrópoles – para preservar a identidade dos estudantes, a reportagem vai utilizar nomes fictícios para todos os entrevistados.

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Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
Alunos de escolas cívico-militares têm que bater continência
Escolas cívico-militares em São Paulo têm policiais militares atuando como monitores
Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
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Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar

Reprodução/Facebook E.E. Prof. Loureço Filho
Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
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Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar

Reprodução/Google Street View
Alunos de escolas cívico-militares têm que bater continência
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Alunos de escolas cívico-militares têm que bater continência

Divulgação / Secretaria da Educação de SP
Escolas cívico-militares em São Paulo têm policiais militares atuando como monitores
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Escolas cívico-militares em São Paulo têm policiais militares atuando como monitores

Divulgação / Secretaria da Educação de SP
Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
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Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar

Jéssica Bernardo/Metrópoles
Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar
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Fachada da Escola Estadual Prof. Lourenço Filho, no Planalto Paulista, que adotou o modelo cívico-militar

Reprodução/Google Street View
Implantação de modelo cívico-militar na rede estadual foi marcada por batalhas judiciais. STF ainda analisa ADI contra formato
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Implantação de modelo cívico-militar na rede estadual foi marcada por batalhas judiciais. STF ainda analisa ADI contra formato

Divulgação / Secretaria da Educação de SP
Tarcísio enviou projeto das escolas cívico-militares à Alesp em março de 2024
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Tarcísio enviou projeto das escolas cívico-militares à Alesp em março de 2024

Divulgação / Governo de SP
Governador Tarcísio de Freitas discursa durante cerimônia de lançamento da Frente Parlamentar das Escolas Cívico-Militares
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Vinícius Schmidt/Metrópoles
Implementação de Programa Escola Cívico-Militar em São Paulo começou em 2026 com 100 unidades
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Implementação de Programa Escola Cívico-Militar em São Paulo começou em 2026 com 100 unidades

Divulgação / Secretaria da Educação de SP
Policial escreve "descançar" e "continêcia" em lousa no primeiro dia de aulas em escola cívico-militar
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Policial escreve "descançar" e "continêcia" em lousa no primeiro dia de aulas em escola cívico-militar

Reprodução

Os alunos contam que os monitores têm chamado a atenção dos meninos com cabelos longos e das garotas com mechas coloridas. “Tem uma menina que desde o começo do ano está sendo pressionada [por ter cabelo rosa]. Ela acabou pintando de preto”, conta Dennis.

O estudante, que é negro, relata que dois colegas com cabelo black power foram avisados pela direção da escola, ainda no ano passado, que teriam que mudar o corte quando a unidade se tornasse cívico-militar. Os jovens não abriram mão do penteado, mas outros alunos têm desistido do estilo black.

É o caso de Vanderlei. Também aluno do 8º ano, ele cortou os cachos ao entrar na escola no início deste ano, após a mãe se mostrar preocupada com a regra da unidade.

“Eu tinha um cabelo longo. Minha mãe pediu para eu deixar mais baixo porque a escola era rígida com isso”, diz ele, contando que ficou desconfortável com a mudança.

Nathalie, do 7º ano, diz que já viu os monitores cobrando colegas para manterem o cabelo curto.

“Tem um amigo meu que tem o cabelo grande e teve que cortar, mas ele não queria”, afirma.

Quais são as regras?


Pais de estudantes ouvidos pela reportagem disseram que, em uma reunião recente, a escola informou que este primeiro semestre foi de adaptação, mas que as regras serão mais rígidas a partir de agosto.

No dia em que esteve em frente à unidade, na última semana, o Metrópoles viu várias meninas com cabelos soltos, apesar de o regimento orientar para que todas prendam os fios. “Eles não estão pegando no pé em relação a isso”, afirma um pai.

Práticas discriminatórias

As regras sobre a aparência dos alunos das escolas cívico-militares chegaram a ser suspensas liminarmente por uma juíza do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) em fevereiro deste ano.

Na decisão, a magistrada Paula Narimatu de Almeida, da 13ª Vara da Fazenda Pública, disse que é particularmente grave “o potencial discriminatório dessas normas contra alunos que integram grupos minoritários”, e afirma que a elaboração do regimento contraria a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

“Expressões culturais afro-brasileiras, como penteados tradicionais, tranças específicas ou cortes característicos da cultura, podem ser indiretamente proibidos pela exigência de ‘cores naturais’ e ‘tonalidades discretas’, bem como pela vedação de ‘adereços do estilo tererê, entre outros’”, cita a juíza, dizendo que o Estatuto da Igualdade Racial e a Constituição Federal protegem as manifestações culturais afro-brasileiras e tornam essas restrições “potencialmente inconstitucionais”.

A liminar, no entanto, foi derrubada em segunda instância, após o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) entrar com recurso.

Em outra ação, desta vez em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes também declarou que existem “práticas discriminatórias” nos padrões estéticos impostos em escolas cívico-militares.

“Não é necessário muito esforço para demonstrar que essa prática viola a Constituição Federal”, afirmou Gilmar. O ministro sugeriu que as regras de escolas cívico-militares contemplem “manifestações culturais e religiosas brasileiras, inclusive de seus segmentos minoritários”.

Gilmar é relator da ação que questiona se a lei que criou o programa cívico-militar em São Paulo é ou não constitucional. No julgamento virtual sobre o tema, iniciado em 22 de junho, ele votou a favor da lei paulista.

O que diz o governo?

O Metrópoles questionou o governo Tarcísio sobre os relatos dos estudantes. Em nota, a Secretaria da Educação disse que o descumprimento das orientações previstas no regimento das escolas cívico-militares “não impede a frequência às aulas nem a participação nas atividades escolares”.

“As recomendações têm caráter orientativo e buscam contribuir para a organização do ambiente escolar e o fortalecimento da convivência entre os estudantes”, diz a nota.

Segundo a pasta, as diretrizes do programa são “continuamente avaliadas”. A secretaria afirmou, ainda, que tem “compromisso com o respeito aos direitos dos estudantes, à diversidade e à promoção de um ambiente escolar acolhedor, inclusivo e livre de qualquer forma de discriminação”.

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