90 anos de Zé do Caixão: família celebra legado de José Mojica Marins
Sessão ao livre nesta sexta celebra os 90 anos do cineasta por trás do Zé do Caixão. José Mojica revolucionou o cinema de terror no país
atualizado
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José Mojica Marins – a pessoa física por trás do icônico personagem Zé do Caixão – completaria 90 anos nesta sexta-feira (13/3). Em homenagem ao “pai do terror brasileiro”, como era conhecido o cineasta, o Centro Cultural São Paulo (CCSP), na região central da capital, promove uma sessão gratuita e ao ar livre do primeiro filme em que o sádico coveiro aparece, À Meia-Noite Levarei Sua Alma (veja serviço abaixo).
O cineasta morreu em 2020, vítima de uma broncopneumonia.
O Metrópoles conversou com o mais velho dos sete filhos do ator e diretor, o professor Crounel Marins, de 63 anos. Nascido em 1962, dois anos antes do lançamento do primeiro filme do pai, ele hoje entende que legado do pai vai além do personagem de roupas pretas e unhas longas.
José Mojica, diz o primogênito, não nasceu com olhos, e sim, lentes de câmera.
“Ele tinha uma capacidade de enxergar uma cena e imaginar como ficaria depois de editada o que, para mim, era uma coisa espetacular”, contou Crounel. “Ele tinha capacidade de enxergar além do que estava sendo filmado.”
Referência no terror brasileiro, Zé do Caixão foi também precursor de uma forma fazer filmes no Brasil. “Agora, nós estamos numa crescente, com indicações mais fortes para o Oscar, por exemplo, mas nem sempre foi assim […] Eu acredito que meu pai foi uma das pessoas que mostrou que é possível fazer cinema de baixo custo e de qualidade”.
“Como é que ele conseguiu fazer isso num país como o Brasil, com recursos praticamente inexistentes? Mas conseguiu […] É uma forma de dizer que nós [os brasileiros] podemos, que nós temos que ter boa vontade e criatividade, que nós temos que andar mais juntos, temos que nos prestigiar. Eu acho que esse é o legado que ele deixou e a reflexão que ele deve causar nas pessoas, não só no meio artístico”, disse o filho.
GALERIA
O sucesso do personagem Zé do Caixão veio rapidamente. Poucos anos após o lançamento do primeiro filme, José Mojica já era uma das pessoas mais citadas na área artística. Antes dos 30 anos de idade, o cineasta já convivia com a fama.
“Ele tinha consciência da amplitude e do significado dele, porque quando a gente viajava para o exterior, a maneira como ele era recebido com muito respeito [….] Ele até dizia que, se fosse homenageado, ele gostaria de ser homenageado em vida”, lembrou o filho.
Por outro lado, também conviveu com perseguições de intelectuais que não entendiam sua obra. Sem formação específica, e nem vínculos familiares com o cinema, o sucesso de José Mojica era considerado uma excessão no meio.
Em entrevista à reportagem, Crounel revelou um segredo que poucos sabem: José Mojica usou unhas artificiais – uma das principais características do personagem – para viver Zé do Caixão em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. O ator só deixou as próprias unhas crescerem a partir de 1966.
“Eu ainda era pequeno, e a figura de pai, independentemente de como é, para uma criança, passa a ser normal. Eu acredito que eu posso até ter pensado que muitos adultos teriam unhas cumpridas”, pontuou.
O professor só teve noção da fama do pai quando começou a frequentar a escola, aos 6 anos. “Para nós, foi bastante difícil, porque havia preconceito. Havia o que hoje se chamaria de bullying, porque o Zé do Caixão era um personagem que causava alguma reação”, revelou. A reação, acredita, vinha da desconfiança por parte dos pais ou até mesmo do medo de um personagem de terror já que, naquela época, José Mojica ainda não era reconhecido como um grande cineasta, apenas pelo alter-ego.
As coisas começaram a mudar quando, aos 13 anos, os professores começaram a elogiar os filmes do pai. Com 15 anos, foi trabalhar junto com José Mojica no estúdio.
“Eu trabalhei com ele quase de forma incessante desde os 15 anos de idade, acompanhando em cursos que ele dava de teatro e cinema, os filmes que ele fazia – não os principais, e, para mim, foi uma coisa bem natural, fora a parte da infância”, admitiu.
O pai “Zé do Caixão”
José Mojica Marins era bem humorado, fazia piadas com todo mundo, “mas também tinha suas explosões”. Terror, só na televisão, quando a família assistia filmes.
As viagens profissionais e longas gravações fizeram dele um pai pouco presente, na lembrança dos filhos.
“Quando o Zé do Caixão realmente virou uma febre, surgiu uma série de oportunidades, inclusive, no cinema, ele trabalhou com vários tipos de filmes para ganhar dinheiro, porque precisava. Então, ele era contratado não só para filmes de terror, ele usava até pseudônimo, e fez até alguns filmes naquela onda da pornochanchada. Ele ficava bastante ausente, às vezes ele ficava duas, três semanas ausente de casa”, revelou.
A experiência de trabalhar junto com o pai, fez o filho ter contato não só com a criatividade fora do comum, mas também com o vício em álcool e jogos de José Mojica.
Superstições
O cineasta não tinha medo de passar debaixo da escada ou medo de gatos pretos, mas sempre que ouvia o pio de uma coruja, dizia que a morte estava presente. Ao passar na frente de igrejas, precisava se benzer ou fazer o sinal da cruz. Ele era um católico praticante.
Apesar do apelido “mórbido”, Zé do Caixão tinha medo da morte.
“A relação dele com a possibilidade de morrer nunca foi muito boa. Ele tinha medo de morrer e até dizia que o sucesso do terror é exatamente por isso, porque as pessoas têm medo de morrer e não sabem o que vão encontrar do outro lado ou se vão encontrar”, falou o filho.
Influência nos filhos e netos
Liz Marins, uma das irmãs de Crounel, desde pequena quis se dedicar às artes. Ela criou o personagem de terror Liz Vamp.
A filha é considerada sucessora artística de Zé do Caixão, Na homenagem desta sexta-feira, em São Paulo, ela fará uma performance durante a exibição no CCSP. Haverá, também, a projeção de Aparências, curta de terror roteirizado e dirigido por ela.
Já o filho, cogitou diversas carreiras. Chegou a cursar engenharia, administração e direito. Hoje é professor no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (Ifsp). No passado, deu aulas de teatro, mas nunca pensou em viver profissionalmente da arte – exatamente por causa da vida que o pai teve.
“Nós tivemos uma vida extremamente difícil no quesito material. Meu pai nunca teve nada. Nossa infância foi, eu posso dizer, bem pobre. Nós não passamos fome, mas, perto dos amigos que a gente tinha, estávamos um tanto abaixo”, contou. Durante a infância, José Mojica e os filhos moravam no Brás, na região central de São Paulo.
Apesar do sucesso de público, a carreira como cineasta não levou a família à riqueza. Além disso, admite o filho, parte dos problemas financeiros do pai eram culpa do vício em jogos.
Pai de três filhos, Crounel revelou que os meninos, mesmo não seguindo carreira artística, tiveram experiências com teatro e cinema.
“Todo mundo aqui de casa gosta de filme de terror e tem influências dos gostos do avô, com certeza. Mas isso foi uma passagem. Passou [para eles] por mim. Minha esposa, por exemplo, não gosta”, brincou.
Serviço
Homenagem aos 90 anos de José Mojica Marins, o Zé do Caixão
Onde: Centro Cultural São Paulo
Endereço: Rua Vergueiro, 1000 – Liberdade
Quando: 13 de março
Horário: 19h30
Preço: Entrada gratuita
Onde comprar: É preciso retirar ingresso na bilheteria física a partir das 17h30










