Você está usando sua criança interior como desculpa para ser egoísta?
Tal comportamento tem criado uma “geração floco de neve”: pessoas mimadas, que querem tudo para si e a seu jeito, sempre com vantagens

Olha, eu tenho tomado uma certa birra dessa história de criança interior. Birra ou pena, ainda não sei. Mas ela tem me incomodado, e é bem provável que este texto incomode algumas pessoas.
Além de um negócio rentável, acolher a criança interior virou argumento para as mais variadas indulgências e para evocar na imagem infantil a realização daquilo que somos. Essa visão pueril é, muitas vezes, cultuada com o intuito de validar irresponsabilidades, descompromissos e uma dificuldade imensa de aceitar a frustração.
Crianças se frustram e têm nisso um aprendizado, pois a vida é altamente frustrante. Percebem assim que o mundo é para todos e não para si. Mas, aparentemente, isso tem se tornado um fato difícil de realizar.
Talvez isso acompanhe o raciocínio do que estão chamando de “geração floco de neve” – em suma: quem não resiste a nenhuma afetação sem se desconstruir. Pessoas egoístas, mimadas, que querem tudo para si e a seu jeito, sempre com vantagens. Daquele tipo de criança que comanda a brincadeira e se impõe contra os mais novos. E, quando desagradada, encerra o jogo.
Nesses casos, o “resgate” da criança interior não acontece porque, simplesmente, tais sujeitos dela nunca se distinguiram. O corpo emocional estacionou em algum lugar da história.
Adultecer virou um problema. Perceber o peso de cada escolha, parar de atribuir ao outro a responsabilidade de condenação ou salvação, aprender o valor do cuidado responsável. Direitos e deveres. O que gostaria e o que devo fazer. O cotidiano, muitas vezes amargo, o qual precisamos aprender a tolerar.
Atribuições personificadas na imagem do boleto bancário a vencer.
Inclusive, sobre intolerância, vemos uma resistência crescente ao diferente: a marca de quem não está pronto para lidar com aquilo que não espelha a própria imagem e, consequentemente, exigirá mais de si.
Essa é a minha birra. A parte da pena é de ver pessoas que, de fato, desenvolveram-se lapidadas a facão e nem sequer têm consciência de tudo que lhes foi negado na infância. Nessas, percebo a tal criança, no sorriso e na lágrima, quando são enxergadas, ouvidas, gratificadas, recompensadas. E também na resposta oferecida.
Ficam saciadas, gratas, satisfeitas, em vez de exigirem sempre mais e mais. Talvez por valorarem verdadeiramente aquilo que lhes foi dado, por conhecerem de perto miséria, seja a de recursos ou a de afetos.
Em vez de cristalizar essa imagem pueril como recurso às demandas, talvez nos caiba estimular o amadurecimento, acompanhar o tempo das coisas que passam. Devemos acolher também o adulto interior e perceber a importância de viver bem esta fase – apesar das contrariedades inerentes a ela.
Preparar-se para receber o ancião interior. Não o da soberba das respostas prontas, mas aquele que compreende o envelhecimento, a limitação e a perda gradual dos recursos, que culmina na finitude. Só realizamos a vida quando tratamos tais figuras com os mesmos respeito, honra e dedicação.


