Acervo Café é um dos melhores cantinhos do Guará

A casa cria ambiente de intimidade. E o melhor: serve deliciosas bebidas

Guilherme Lobão/Metrópoles

atualizado 12/05/2018 13:11

Um cafezinho, há muito tempo, deixou de significar aquela bebida amarga, sem padrão, com borra ao fundo e extraída do coador de pano, não raro improvisado com meia-calça. Hoje, tomar a bebida pode significar uma experiência sensorial mais complexa, com a assimilação de novos (ou mesmo antigos, porém redescobertos) métodos de seleção, torra, extração e degustação.

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Um dos espaços internos do Acervo Café, no Guará: charme e bom gosto na decoração rústico-industrial

 

No contexto do imaginário da metrópole, um café também significa ambiente: locação para estudos e trabalho, aconchego, informalidade, momentos de conversa fiada, horas a fio diante de um livro ou arrastando o dedo no celular. Seria um bar avesso à boemia, mas igualmente comprometido com o acalentar da alma.

Não me importo de ter girado três vezes pelos blocos H, I e P da QE 40 do Guará para encontrar um lugar assim: de preços justos, muito conforto e isolamento dos problemas da vida. Eis como cheguei ao Acervo Café, funcionando há menos de um ano no sobrado de um prédio comercial. Negócio de família, como orgulhou-se em notar a matriarca Conceição Lins, há décadas tocando uma malharia que funciona no andar de cima.

Sobre a academia gerenciada por outro filho de Conceição, atravessando uma escada estreita, com pistas espalhadas pelas ruelas, chega-se ao aparentemente diminuto, porém espaçoso, Acervo Café, sob o comando do neto Paulo Henrique e da mãe dele, Abigail.

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Abigail é a dona das receitas. Paulo, do conceito, do bom cuidado com a extração da bebida principal da casa. Com uma equipe pequenina, apenas dois funcionários, o atendimento pode parecer um tanto amador, mas a dupla função de barista e garçom dos atendentes traz ao cliente profissionais de bom conhecimento dos produtos e métodos oferecidos.

No menu de café, não há espressos e derivados (macchiato, capuccino…). Trabalha-se exclusivamente com métodos de côa, mais precisamente seis opções:

Chemex (mais leve, de tripla filtragem); kalita (técnica japonesa que resulta em café mais encorpado com líquido homogêneo); aeropress (equipamento com a função de preservar os óleos essenciais, retidos normalmente pelo filtro); clever (método “inteligente” no qual o café é imerso em água e depois extraído sob o controle de uma válvula); hario v60 (clássico processo japonês, originalmente feito com uma peça de cerâmica) e cold brew (extração a frio).

Os grãos da Ahá Cafés alimentam apenas o cold brew (já pronto com antecedência, naturalmente). Refrescante com acidez regulada, fica uma delícia na combinação de limão-siciliano e água de coco (R$ 15). Da próxima vez, pretendo me aventurar nas lágrimas de unicórnio (com leite, amora, gengibre e baunilha).

Dos métodos quentes, provei os extremos: do mais adocicado e suave (chemex) ao mais robusto (kalita). Os preços variam de R$ 8 a R$ 20 a depender da quantidade e do microlote. Costuma haver três opções. Da última vez, figuravam no menu dois grãos do tipo catuaí vermelho de produtores do Espírito Santo e um blend catuaí mais acauã da Chapada Diamantina (BA). O cardápio ainda oferece informações sobre os tipos de torra, além de notas acerca das qualidades de cada.

Guilherme Lobão/Metrópoles
Chemex, kalita, hario v60, clever, cold brew ou aeropress são as opções de extração

 

Pela proposta em si, o Acervo Café se destaca na ascensão profissional do serviço de barismo no Distrito Federal. Num mercado tão aquecido, a casa encontrou uma peculiaridade significativa e explorou uma região com pouquíssima oferta.

Porém, a relação entre a família e o café teria começado há 18 anos, quando Abigail não encontrou leite para fazer um bolo de chocolate. No lugar do laticínio, acrescentou – por que não? – café na receita. O resultado de foro íntimo agora está à disposição da clientela.

Ora, intimidade é tudo para o Acervo. Não à toa, estamos em um salão dividido em cômodos mais e menos reservados, como se estivéssemos na casa do anfitrião. Sente-se no sofá ou sobre a manta de pele do banco de madeira, puxe um tamborete, pegue um livro na escada-estante, acomode-se próximo à janela… e peça um café com pão de queijo. O quitute, entretanto, não é das maiores virtudes da cafeteria. Servido quentinho, falta-lhe a pujança do queijo meia-cura, um miolo mais aerado e sabor mais pronunciado como deve ser.

Prefiro orbitar pelo menu de doces. Um bom cookie com gotas de chocolate (R$ 5), uma torta de banana com doce de leite, que se aproxima de uma banoffee e apresenta muita densidade na massa (R$ 12), e o alento da estrela da casa: coffeecake (R$ 12). Esse sim, um bolo de muito equilíbrio, inclusive no dulçor, de massa leve com cobertura e recheio um tanto exagerados de ganache. Na companhia de um belo copo de catuaí vermelho capixaba, fica incrível.

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Na playlist, nada de obviedades. Aliás, esse tem sido um traço das cafeterias mais descoladas da cidade. Pode chamar de tendência. Embora seja um fator a provocar ruído na sensação de intimidade gerada pela ambientação, não recepcionar a clientela com one hit wonders da vida e apostar no efeito de descoberta estimula os sentidos e eleva o espírito.

Entendo, ao fim da minha visita à cafeteria, porque o Acervo Café não abre de dia. O crepúsculo fugidio, escalando as janelas do sobrado, anuncia o fim do expediente, uma hora feliz a conferir boas vindas a uma boemia incidental, regada a ótimas bebidas e uma sensação de conforto.

Acervo Café
Na QE 40, Bloco H, piso superior, Guará II. Tel: (61) 99665-5588. De terça à sexta, das 16h às 22h; sábado, a partir das 14h; domingo, das 14h às 20h. Wi-fi. Ambiente interno. Aberto em 2017

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