Um chamado a todos os empresários e trabalhadores do Brasil
É o momento de mobilizar o país e unir todas as forças em defesa da democracia e da soberania nacional, ameaçadas pela ação de Trump
José Dirceu
atualizado
Compartilhar notícia

Atenção, brasileiros: é hora de união e mobilização. O tarifaço aplicado unilateralmente por Donald Trump ao Brasil, assim como a relutância do governo norte-americano em negociar com nossos representantes e também as sanções danosas e injustificáveis impostas a autoridades, torna urgente e necessário um esforço mobilizador em torno do governo brasileiro. A esse chamamento estão convocados os setores empresariais do país, todos eles direta ou indiretamente atingidos pela ação trumpista, trabalhadores e aqueles que acreditam no Brasil e nos brasileiros.
Tenho insistido que é o momento de mobilizar o país e unir todas as forças em defesa da democracia e da soberania nacional, ameaçadas pela ação de Trump, incluindo o tarifaço, suas sanções e suas constantes ameaças caso as autoridades brasileiras não livrem Jair Bolsonaro do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal – o que não só seria inaceitável como também é impossível de ocorrer, ou não seríamos uma república democrática.
O bolsonarismo e a direita mais oportunista, incluindo os governadores que pretendem herdar os votos de Bolsonaro, são os únicos interessados no ataque de Trump ao Brasil.
Comecemos pelos empresários. Se você acredita no país, tem negócios e responsabilidade com o Brasil e os brasileiros, se defende a soberania e a democracia, o respeito às nossas instituições e seu aperfeiçoamento já percebeu – ou deveria ter percebido – que as ações de Trump contra nós afetarão significativamente os negócios e a economia.
Somente com essa agenda de união e mobilização nacional conseguiremos força suficiente para enfrentar e mitigar os danos causados por Trump ao Brasil. É, portanto, o momento de agir, e não apostar na desunião e na destruição que o bolsonarismo e o trumpismo representam.
É lamentável, no entanto, que essa constatação não ganhe eco uniformemente entre nossas elites. Parte delas, infelizmente, ainda repete a histórica tendência de se voltar contra os interesses nacionais para atender a seu oportunismo político e econômico.
Para essas elites, nacionalismo só serve quando lhe convém. Isso é mais real quando falamos em setores da Faria Lima, parte do agronegócio e setores da indústria, do comércio e dos serviços. Fingem desconhecer que, no projeto de Trump, a única lei internacional que conta é a lei do mais forte.
Ignoram o fato elementar que o tarifaço não só foi uma declaração de guerra comercial como também é apenas um pretexto, de Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio, para mudar o governo do Brasil e reinstalar no Palácio do Planalto a família Bolsonaro.
Esse é o atalho mais fácil para favorecer os interesses das big techs, dos produtores norte-americanos, das grandes empresas de cartão de crédito (ameaçadas de sumir frente ao Pix) e de forçar nossa submissão pelos minerais críticos.
Cúmplices do bolsonarismo
O melhor dos mundos para atender a tais interesses é a volta de Bolsonaro. Na impossibilidade disso – e é no que parece apostar parte de nossas elites –, basta imaginar os supostos benefícios trazidos pela candidatura de Tarcísio de Freitas ou um dos demais governadores cúmplices do bolsonarismo. Não perceberam, contudo, que ao optar por esse caminho, estão contratando, indiretamente, a permanência do bolsonarismo como força política no país, com todos os seus danos.
Não podemos aceitar esse silêncio comprometedor e cúmplice diante da violência contra os brasileiros que migraram para os EUA, contra turistas e estudantes humilhados na entrada do país, e agora contra os negócios de amplos os setores econômicos do Brasil.
Sabemos que muitas empresas e setores sofrerão o impacto do tarifaço trumpista. Estão na mira setores diversos da indústria e do comércio. Enquanto algumas exportações foram isentas das taxas do nível mais alto, mais da metade das exportações ainda encaram o teto tarifário imposto pelos EUA, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Entre os produtos sobretaxados estão algumas das principais exportações do Brasil para os EUA, incluindo café, madeira, carnes, pescados, frutas e equipamentos de construção civil, entre outras.
Trump também deve taxar, por exemplo, todos os produtos exportados para os EUA que não usem matéria-prima norte-americana, ou impor novas sanções se o Brasil prosseguir no comércio com mercados indesejáveis por Trump e seus aliados.
Trump quer submissão e encolhimento do Brasil
Em outras palavras, Trump está trabalhando para proteger sua economia em todos os setores, ou pelo menos os setores que são mais próximos do trumpismo – caso, por exemplo, dos produtores de algodão. E, nessa tarefa de proteger a si mesmo, vale tudo. Isso explica por que há uma convicção crescente de que Trump deseja, no fundo, submissão e encolhimento do Brasil.
Precisamos reagir a essa intenção, e a reação passa pelo esforço do governo brasileiro em oferecer respostas rápidas e adequadas, sem perder a firmeza no seu posicionamento nem o equilíbrio, a moderação e a diplomacia necessárias para negociar. Ainda que, infelizmente, a Casa Branca esteja dando todos os sinais de que não quer negociação, mas submissão, e ainda conta com o empenho da família Bolsonaro para travar qualquer diálogo.
Foi o que se viu, por exemplo, no encontro que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, teria com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, cancelado após articulação de forças da extrema-direita brasileira junto a assessores de Trump. Como disse Haddad, “não há como não ligar o cancelamento com a entrevista [dada ao jornal Financial Times] do Eduardo Bolsonaro”. Foi só Eduardo afirmar que trabalharia para evitar esse contato e a reunião acabou desmarcada.
Proteção aos trabalhadores
O pacote anunciado nos últimos dias é parte desse esforço do governo brasileiro. Inclui acesso a crédito, com taxas mais acessíveis, a benefícios tributários, prorrogação do drawback (regime aduaneiro que permite a suspensão ou isenção de tributos incidentes na aquisição de insumos empregados ou consumidos na industrialização de produtos exportados), um novo Reintegra (Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários) e programa de compras públicas.
Envolve ainda mecanismos de proteção aos trabalhadores, potencialmente afetados pelo desemprego iminente decorrente das tarifas, e um plano de ampliação e diversificação de mercados. Tudo para que seja possível contornar os impactos do achaque em forma de política comercial dos EUA.
O sucesso brasileiro nessa empreitada dependerá, em grande medida, da consolidação de uma frente nacional de defesa dos nossos interesses, nossos negócios, nossa soberania e, claro, nossa democracia – afinal, o tarifaço de Trump é uma medida econômica condicionada a um argumento político de intervenção nas nossas instituições.
Nesse esforço coletivo, empresários e trabalhadores devem estar unidos, assim como as centrais sindicais, sindicatos e movimentos sociais, e partidos políticos e demais representantes da sociedade civil organizada.
Razão pela qual são tão fundamentais os eventos convocados para o mês de setembro – depois do ato reunindo empresários, juristas e movimentos sociais na USP, em julho, há atos convocados para setembro pelas centrais sindicais (dia 7/9), por entidades ligadas à engenharia nacional (dia 1º/9) e pelo grupo suprapartidário Direitos Já! Fórum pela Democracia (dia 15/9).
É uma reação necessária de quem coloca o Brasil e os brasileiros acima de tudo, e não adotam o silêncio comprometedor que chancela e alimenta a desunião e a destruição.
José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo.
