Explosão no Buriti e a falência da segurança pública na capital

Em artigo, presidente do Sindicato dos Policiais Civis do DF critica atual gestão do GDF pela falta de investimentos na corporação

DANIEL FERREIRA/METRÓPOLESDANIEL FERREIRA/METRÓPOLES

atualizado 27/07/2018 12:29

A explosão de caixas eletrônicos nos fundos do Palácio do Buriti, onde, diariamente, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) despacha, é o episódio mais recente a retratar, de maneira inequívoca, a falência do sistema de segurança pública da capital federal.

Há muito, o Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF) vem denunciando o sucateamento da segurança pública, sobretudo da Polícia Civil. A falta de investimentos na polícia investigativa é o que tem gerado, como consequência direta, o aumento da criminalidade por meio da impunidade.

Em toda a gestão de Rodrigo Rollemberg, não houve investimento na Polícia Civil da capital do país da forma que deveria haver. Pelo contrário, o que se vê na cidade são delegacias fechadas – outro marco da gestão do socialista –, uma defasagem histórica no efetivo da corporação, o que implica, diretamente, no mau andamento das investigações. E, mais recentemente, o fim do contrato com a empresa responsável pela manutenção das viaturas pode paralisar pelo menos 40% da frota – que, em grande parte, é formada por veículos com mais de 10 anos de uso, os quais, portanto, precisam de manutenção com muita frequência.

A causa disso é que os recursos federais do Fundo Constitucional do Distrito Federal estão sendo desviados para outras áreas

É preciso destacar, ainda nesse quesito, que, nesses últimos três anos, quase não houve aquisição de viaturas para a Polícia Civil do DF. No período, o governador priorizou a aquisição de viaturas para a Polícia Militar. O uso desses veículos, comprados por R$ 110 mil cada, tem uma recomendação expressa: eles devem ficar parados em pontos de grande circulação de pessoas, mas onde quase não há incidência de crimes. A intenção seria apenas fazer os carros novos e equipados servirem como uma “vitrine”, dando a falsa impressão de investimentos recentes na segurança.

Pela primeira vez, em décadas, um governador não realiza concurso público para contratação de novos policiais. Os poucos nomeados são remanescentes de concursos abertos pelo governo passado. Os novatos não suprem nem mesmo as aposentadorias ocorridas no mesmo período.

Fica claro, portanto, que esse desprezo à Polícia Civil do DF é deliberado. Dentro da categoria é quase total o entendimento de o governador manter uma intriga pessoal com os policiais civis em razão de fatos pretéritos, antigos. O sucateamento da PCDF conta ainda com a omissão e cumplicidade da atual administração da instituição. Para muitos, os dirigentes estão mais preocupados em gerar pautas positivas para o governo, apenas com o intuito de se manterem em cargos de chefia e recebendo gordas gratificações. Cada vez mais nos transformamos em uma polícia política e de governo, e nos afastamos de ser uma polícia de Estado.

Mas, é preciso repetir: ao decidir não aplicar os recursos do Fundo Constitucional na polícia investigativa, conforme preconiza a lei, o governador permite que a criminalidade se expanda por todos os lados do Distrito Federal. Afinal de contas, se os crimes não são investigados, se os criminosos não são presos – sobretudo porque não há policiais civis em número suficiente e as condições necessárias para eles trabalharem adequadamente –, a reincidência e o aumento da criminalidade serão uma constante. E a responsabilidade disso é do Governo do Distrito Federal.

Um exemplo: nos últimos anos, a taxa de resolução de homicídios na capital federal caiu de 81% para 47%. Dos 36 mil roubos a pedestres ocorridos em 2017, menos de 4% se transformaram em inquéritos e tiveram seus autores identificados. Essa queda é uma constante no atual governo Rollemberg.

É necessário lembrar ainda que a explosão e o uso de um fuzil ocorrem na sede da Casa Militar da PMDF, que mantém cerca de 300 policiais militares no Batalhão do Buriti. Mais uma vez, há aproximadamente um mês, os policiais militares comissionados do palácio tiveram um aumento em suas gratificações. Nem assim conseguiram prevenir os riscos de se manter caixas eletrônicos sem vigilância, nas barbas de seu governador.

Nesse cenário é inevitável, portanto, que os criminosos não recuem. A tendência é que crimes graves, de grande repercussão, sejam cada vez mais frequentes

Horas antes da explosão dos caixas eletrônicos a poucos metros do gabinete do governador, um desembargador foi assaltado enquanto chegava em casa, no Lago Sul, região mais cara de Brasília. “Sinto uma absoluta insignificância pelo Governo do Distrito Federal”, declarou a vítima, expressando um sentimento de total abandono que se reflete nos cidadãos de qualquer parte da capital da República. A cidade está órfã da segurança pública.

 

Rodrigo Franco é agente de polícia, especialista pós-graduado em atividade policial e presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF)

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