2019: 33 feminicídios e 16.954 mulheres correndo perigo de vida

Há um ano, nos comprometemos a cobrir os casos de feminicídio cometidos no Distrito Federal. Hoje, fazemos um balanço do material apurado

atualizado 03/01/2020 11:14

Passado um ano desde que priorizamos a cobertura sobre os casos de feminicídio cometidos no Distrito Federal, chegamos a algumas conclusões que somente a abordagem sistemática do tema nos fez enxergar. Veja:

– Entre janeiro e 31 de dezembro de 2019, 33 mulheres foram assassinadas no DF, vítimas de feminicídio. Trata-se do maior número de casos desde que a lei que tipifica os crimes cometidos contra mulheres pelo fato de serem mulheres foi criada, em 2015.

– Três foram mortas em Santa Maria; três, na Asa Norte; outras três, em Sobradinho; e três, em Taguatinga. Ou seja, os crimes de feminicídio não estão restritos a uma região ou classe social, atingem uniformemente moradoras dos quatro cantos da capital federal.

– A vítima mais idosa (Diva Maria) tinha 69 anos. A mais nova (Joyce Oliveira), 21. Também não há faixa etária preferencial. Em qualquer idade, as mulheres são alvo.

– Uma característica comum a pelo menos 28 das 33 vítimas do DF é que guardavam alguma relação amorosa ou familiar com seus agressores.

Confira o perfil de todas as mulheres vítimas de feminicídio em 2019.

– Das 33 mulheres que morreram neste ano na capital federal, 24 foram assassinadas pelo marido, namorado ou ex-companheiro.

– Brasília entrou para a história ao se tornar cena do primeiro crime considerado como “de ódio à mulher”. Trata-se dos assassinatos de Letícia Curado e Genir Pereira. Ambas estavam em direção ao trabalho quando acabaram interceptadas por Marinésio Santos. Ele não conhecia as vítimas e matou as duas pelo desprezo à condição feminina.

– Um outro crime na capital federal também quebrou paradigmas na questão do feminicídio. Tatiana Luz foi queimada viva pela namorada Wanessa Pereira. As autoridades entenderam que, embora a relação fosse entre duas mulheres, foi configurado o crime de feminicídio, em função do sentimento de posse e subjugação da criminosa em relação à vítima.

– Todos os casos, sem exceção, são pontuados pela crueldade. Dos 33 crimes, 16 foram praticados por arma branca; seis, com arma de fogo; cinco mulheres morreram esganadas; duas, queimadas; e Cácia Regina faleceu em decorrência das complicações de um ataque com ácido sulfúrico, que lhe arrancou a língua, desfigurou o rosto e atingiu 45% do corpo.

– Outra evidência é que, das 33 mulheres atacadas, pelo menos 28 foram vítimas de um ciclo de violência que durou dias ou décadas. Antes da morte, quase sempre anunciada, elas sofreram tortura psicológica e física. Ou seja, em algum momento poderiam ter sido salvas. Mas os assassinatos também demonstram que, em alguns casos, as medidas protetivas não são suficientes, são papéis sem nenhum valor.

– Entre as já expostas mulheres, há um conjunto ainda mais vulnerável: as usuárias de drogas ou as que se relacionavam com usuários. Nesse contexto, seis mulheres viraram vítimas.

– A maioria dos crimes foi de rápida solução. De todos os assassinos, restam cinco foragidos, quatro se mataram e três ainda são investigados pela polícia. Quando uma mulher morre de forma violenta, o primeiro suspeito é o companheiro. Dois terços dos casos se enquadram nessa característica.

O mergulho sistemático no universo do feminicídio trouxe à superfície uma série de elementos que precisam ser levados em conta pelas autoridades: nem sempre o poder do Estado ou a legitimidade da família são suficientes para garantir a vida das mulheres. Cada um tem um braço de proteção, mas somente juntos podem acolher e evitar o pior para as vítimas em potencial.

Neste ano que passou, contamos histórias de mulheres como Jacqueline dos Santos, que morreu com a medida protetiva dobrada e guardada no bolso da calça. O triste fim da vida de Francisca Naíde é um contraponto da tragédia que Jacque tentou evitar. Naíde viveu décadas com o marido, chegou a denunciá-lo por violência, mas voltou a morar sob o mesmo teto que ele, sem acreditar que pudesse matá-la.

Aterradores casos de feminicídio em 2019 demonstram que é preciso interromper o quanto antes o ciclo da violência. Em relacionamentos abusivos não há espaço para considerações sentimentais. Os números são incontestáveis. Episódios de desrespeito só evoluem negativamente, com escalada de agressividade, até a morte.

A violência não pode ser naturalizada. Qualquer comportamento agressivo, inclusive os verbais, deve acender os sinais de alerta. Quebrar o silêncio e pedir ajuda no início dos episódios de assédio moral e físico podem ser a diferença entre a vida e a morte. Mulheres precisam ser treinadas para reconhecer os sinais de perigo. E os homens necessitam ser educados, desde a primeira infância, a reprogramar comportamentos machistas.

O Elas por Elas também criou uma cultura profissional na redação do Metrópoles para a cobertura dos casos que envolvem feminicídio. As imagens e palavras passaram a ser vigiadas para não reproduzirem conceitos machistas. O projeto contou, ainda, com um núcleo editorial, formado por jornalistas, fotógrafas, videomakers e designers, responsável por coordenar os trabalhos e garantir o olhar feminino sobre o tema.

O ano de 2019 acabou com um saldo devastador: 33 mulheres brutalmente assassinadas e outras 16.954 em situação de risco de vida. Elas denunciaram os abusos à polícia. Segundo a estimativa de especialistas na área, para cada ocorrência, outras 10 passaram por uma situação de violência doméstica. Fundamental enxergá-las. É preciso salvá-las.

(Colaboraram Olívia Meireles e Érica Montenegro)

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