Para economistas, inflação de abril reforça cautela do Copom com juros

Na última reunião do Copom, no fim de abril, a autoridade monetária cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano

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Os dados referentes ao mês de abril do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, reforçam o comportamento do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de manter a cautela em relação à taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic.

Esta é a avaliação predominante no mercado, de acordo com economistas e analistas consultados pela reportagem do Metrópoles nesta manhã, pouco depois de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar os números.

De acordo com o IBGE, a inflação no Brasil ficou em 0,67% em abril, desacelerando em relação ao mês anterior (0,88%). No acumulado de 12 meses até abril, o IPCA ficou em 4,39%, acelerando sobre os 4,14% de março.

A média das estimativas dos analistas era de uma inflação de 0,7% (na base mensal) e 4,41% (anual).

Segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação no Brasil para este ano é de 3%. Como há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ela será cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%.

A inflação foi puxada, principalmente, pelos grupos alimentação e bebidas e saúde e cuidados pessoais, que inclui remédios, com elevações de 1,34% e 1,16%, respectivamente. Também houve alívio do grupo transportes, com um índice menor do que o verificado em março.

O que diz o mercado

Segundo André Valério, economista sênior do Banco Inter, apesar da desaceleração da inflação em relação a março, “o qualitativo não foi muito positivo”. “A média dos núcleos acelerou de 0,43% para 0,5%, mantendo a trajetória ascendente e indicando o fim dos ganhos na desinflação do núcleo, com o acumulado em 12 meses ficando praticamente estável no mês. A inflação de serviços desacelerou intensamente, de 0,53% para 0,04%, algo amplamente explicado pela queda em passagens aéreas. Ao excluir esse item vemos desaceleração na inflação de serviços, mas bem menos intensa, de 0,41% para 0,37%”, observou.

Por outro lado, aponta Valério, “a inflação de serviços subjacente, menos sensível à política monetária, acelerou na margem, de 0,49% para 0,52%”. “Outro ponto de atenção é o comportamento da inflação de bens industriais, que acelerou de 0,31% para 0,62%. Esse grupo vinha sendo uma fonte importante de desinflação em 2025, mas está sendo particularmente afetado pelo choque do petróleo e pode deixar de ser uma força deflacionária no restante do ano”, afirma.

Para o economista, “o resultado do mês mantém a necessidade de cautela no Copom”. “Apesar da desaceleração, ainda vemos fatores que ensejam cuidado na condução da política monetária. A indefinição acerca da guerra, que já caminha para completar três meses, sem grandes sinais de resolução no curto prazo, aumenta a pressão nos preços, o que pode gerar contaminação no restante do índice”, diz Valério.

“Além disso, há a perspectiva de El Niño no 2º semestre que pode afetar negativamente a inflação de alimentos e de energia, que já se encontram em uma posição delicada. Com isso, vemos o IPCA acumulando alta de 4,9% esse ano, mas ainda vemos condições para o Copom continuar o ciclo de ajuste nos juros e esperamos novo corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião.”

Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, afirma que o dado de abril “confirmou o que o mercado já vinha antecipando: a inflação segue pressionada por uma tríade bastante indigesta para o consumidor brasileiro – alimentos, combustíveis e medicamentos”.

“O item com maior impacto individual foi a gasolina, que subiu 1,86% e respondeu por 0,10 ponto percentual do IPCA. Mesmo desacelerando em relação a março, o combustível continua refletindo a alta do petróleo no mercado internacional, em meio às tensões no Oriente Médio”, ressalta Spyer.

O analista afirma ainda que “o dado qualitativo não foi tão benigno”. “A média dos núcleos acelerou para 0,50%, acima dos 0,44% de março e também acima da expectativa de 0,43%. Isso mostra que a inflação subjacente segue resistente. Por outro lado, a difusão recuou de 67,4% para 65,3%, sinalizando uma leve melhora na disseminação das altas”, diz.

Para o Banco Central, aponta Spyer, o recado é claro. “Apesar da desaceleração do índice cheio, os núcleos continuam pressionados e as expectativas seguem desancoradas. Isso reforça a postura cautelosa do Copom”, avalia.

“O mercado ainda enxerga espaço para cortes adicionais da Selic, mas em ritmo mais moderado, provavelmente de 0,25 ponto percentual por reunião. Dependendo da evolução do petróleo, do câmbio e das expectativas, não está descartada nem uma pausa no ciclo”, completa.

Na avaliação de Natalie Victal, economista-chefe da SulAmerica Investimentos, “os dados corroboram a visão de que uma aceleração no ritmo de cortes (atualmente em 25 pontos-base) é muito improvável”.

“O cenário reforça a tese de um ciclo curto. Com expectativas desancoradas e choques de oferta, o risco para a Selic terminal (estimada em 14%) é de viés altista”, avalia. “O BC deve manter a estratégia de ‘ganho de tempo’, utilizando o patamar restritivo da Selic para absorver a volatilidade. O balanço de riscos permanece desafiador, com a atividade econômica resiliente impedindo uma convergência mais célere da inflação à meta.”

Victal complementa: “O dado reforça a necessidade de cautela. O debate saiu de ‘quanto acelerar’ para ‘onde parar’, com probabilidade crescente de uma interrupção precoce do ciclo caso a desinflação de serviços não ganhe tração”.

Também ouvido pelo Metrópoles, Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, entende que “a composição foi pior do que o esperado”. “O sinal dos erros de projeção foi majoritariamente altista, todos os cinco núcleos vieram acima do projetado e a leitura reforça um quadro de pressão mais disseminado do que o número cheio sugere”, afirma.

“No balanço, o IPCA de abril combina um ‘headline’ próximo do esperado com uma mensagem qualitativa ruim: núcleos pressionados, serviços mais resilientes e alimentos piores, parcialmente compensados por gasolina”, conclui.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, observa que “os preços de serviços subjacentes (que excluem itens mais voláteis, como passagens aéreas) também seguem pressionados, com forte alta de 6,4% nos últimos três meses, de acordo com o dado com ajuste sazonal anualizado”. “Essa diferença entre o índice cheio e seus núcleos ajuda a explicar por que o processo de convergência da inflação à meta continua sendo uma tarefa difícil”, avalia.

“No curto prazo, medidas do governo – como subsídios e redução de impostos – devem mitigar parte dos efeitos da alta do petróleo sobre a inflação brasileira. Ainda assim, combustíveis e alimentos já podem estar sendo impactados pelo conflito no Oriente Médio. Além disso, o mercado de trabalho aquecido junto com a perspectiva de desvalorização do real deve fazer com que os preços voltem a acelerar no segundo semestre. Nossa projeção é de que o IPCA encerre o ano em 4,8%, acima do intervalo de tolerância da meta, de 4,5%”, projeta.

Sobre o Copom, Moreno afirma: “Na nossa leitura, as restrições na produção de petróleo e de outros insumos já começaram a pressionar a inflação. Por isso, esperamos um corte moderado de 0,25 ponto percentual em junho, levando os juros para 14,25%. No nosso cenário, a Selic deve encerrar o ano em 13,5%”.

Na última reunião do Copom, no fim de abril, a autoridade monetária cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação.

Quando a autoridade monetária mantém os juros elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica.

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