Haddad reclama de críticas da Faria Lima ao governo: “Eu sou um só”
Segundo o ministro Fernando Haddad, questão fiscal é “tema mais discutido, mas, em geral, o nível da discussão é de baixa qualidade técnica”
atualizado
Compartilhar notícia

Às vésperas de sua despedida do Ministério da Fazenda, o ministro Fernando Haddad (PT) voltou a reclamar das críticas feitas pelo mercado financeiro e por investidores e empresários da Faria Lima ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente na área fiscal.
As declarações do chefe da equipe econômica foram dadas durante sua participação em uma conferência promovida pelo BTG Pactual, em São Paulo, na manhã desta terça-feira (10/2).
“O tema fiscal acaba monopolizando o noticiário, em geral, com desinformação. É o tema mais discutido, mas, em geral, o nível da discussão é de baixa qualidade técnica”, afirmou Haddad, rebatendo as críticas do empresariado.
Como já fez outras vezes, o ministro assegurou que o governo Lula mantém o compromisso com a responsabilidade fiscal e o equilíbrio das contas públicas e aproveitou para comparar a situação atual da economia com o período do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“O momento em que iniciamos os trabalhos era um momento de muita confusão, inclusive do ponto de vista de diagnóstico do que havia acontecido em 2022”, prosseguiu Haddad. “O orçamento encaminhado pelo governo anterior tinha R$ 63 bilhões de déficit, faltando os precatórios extras e o reajuste do Bolsa Família, que foi dado em agosto de 2022 para tentar reverter o quadro eleitoral. Somando tudo, você tinha um déficit contratado para 2023 de 1,6% do PIB.”
Durante o evento do BTG, o ministro da Fazenda admitiu que gostaria de ter feito mais na questão fiscal, mas destacou as dificuldades do cargo e a necessidade de articulação e debates com outras forças políticas no Congresso Nacional.
“Qual foi o déficit do ano passado? 0,48% do PIB. Você reduziu em 70% o déficit primário. Eu gostaria de ter ido além, mas é preciso negociar com o Congresso, que tinha acabado de aprovar aumento de despesa. Eu entendo o clamor da Faria Lima, mas eu sou um só, né?”, explicou.
Questionado sobre o arcabouço fiscal, também alvo de críticas por parte de economistas e setores do mercado, Haddad defendeu o modelo criado no atual governo.
“Eu não abriria mão da arquitetura do arcabouço, que é muito boa. Você uniu um critério da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), do ano 2000, que é ter meta de resultado primário, mas não descuidou de fixar uma meta de gasto. O que eu fiz, e não me arrependo, é ter combinado o melhor dos dois instrumentos testados ao longo desses anos”, disse.
Reforma tributária é o maior legado
Indagado sobre qual seria o principal feito da atual gestão do Ministério da Fazenda, Fernando Haddad não titubeou ao mencionar a reforma tributária – aprovada pelo Congresso Nacional após mais de 30 anos de discussões.
“A coisa mais impressionante que foi possível fazer foi a reforma tributária. Acredito que as pessoas ainda não têm condição de entender a profundidade da mudança que vai acontecer nos impostos sobre consumo no Brasil”, observou Haddad.
“Hoje nós temos um dos piores sistemas tributários do mundo, segundo o Banco Mundial. Não só com a emenda constitucional e as leis complementares aprovadas, mas com o sistema operacional 150 vezes maior que o Pix, nós vamos saltar para um dos melhores sistemas tributários do mundo”, afirmou o ministro.
Para Haddad, “a reforma tributária vai entrar para a história”. “E o Brasil vai se tornar cada vez mais destino de investimento estrangeiro, sobretudo em função da reforma tributária”, completou.
Renda básica e programas sociais
Em sua participação no evento do BTG, o ministro da Fazenda admitiu certa preocupação com o impacto dos programas sociais sobre a questão fiscal e abriu caminho para discussões acerca de novos modelos.
“Assim como o governo FHC legou uma série de programas que depois puderam ser organizados de maneira inovadora, e com vantagens, eu entendo, olhando para o Orçamento, que talvez o Brasil esteja maduro para uma solução mais criativa. Esse desenho deverá ser validado com os candidatos e com o PT”, disse o ministro.
Haddad chegou a citar a Renda Básica de Cidadania, proposta defendida historicamente pelo ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP).
“Não existe ainda um programa de governo para ser lançado. O que eu estou dizendo é o tipo de discussão que está sendo feita entre os técnicos do Estado brasileiro, que veem nessa conjuntura uma oportunidade de repensar essa questão de uma forma mais moderna”, concluiu Haddad.
Saída do governo e eleições
Fernando Haddad também foi perguntado sobre quando deixaria o comando do Ministério da Fazenda. “Não data ainda, mas fique tranquila. Ontem eu estive com o presidente Lula, que ainda me pediu algumas coisas na saideira e eu vou atender o presidente”, despistou.
“Estou terminando umas coisas importantes, inclusive junto ao Ministério da Justiça, na área da segurança. Tem uma série de coisas que eu estou tocando”, explicou Haddad.
Questionado sobre a possível escolha do atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, para substituí-lo no cargo, Haddad disse que prefere não falar “de nada que é prerrogativa exclusiva do presidente da República”. “O que eu entendo é que o presidente está muito satisfeito com os resultados que ele está observando no final do seu governo. Eles (Durigan e Rogério Ceron, atual secretário do Tesouro, que pode ir para a secretaria-executiva da pasta) são grandes profissionais, grandes servidores públicos, pessoas da mais alta responsabilidade”, elogiou.
“Eu estou gostando dessa situação em que estou hoje. Porque está todo mundo me elogiando pela primeira vez. Então, eu vou ficar desse jeito por mais um tempinho”, brincou Haddad ao falar sobre seu futuro político.
“A gente tem conversado muito, eu tenho colocado várias questões que ele está considerando. Eu também estou considerando várias questões que ele tem colocado para mim. Estamos evoluindo na conversa e amadurecendo cenários sobre o que é melhor. Eu tenho uma posição, mas não vou deixar de ouvir o presidente da República.”
O nome de Haddad vem sendo apontado como o preferido de Lula e do PT para a disputa pelo governo de São Paulo – o presidente precisa de um palanque forte no estado em sua investida pela reeleição ao Palácio do Planalto. O ministro da Fazenda também é cotado para uma das vagas ao Senado.
Haddad declarou, em diversos momentos, que não pretende se candidatar a nenhum cargo em outubro. Ele deseja contribuir com o programa de governo da campanha de Lula à reeleição.
O atual ministro da Fazenda disputou – e perdeu – as eleições de 2016 (prefeitura de São Paulo), 2018 (Presidência da República) e 2022 (governo do estado).
