Em novo ataque, Trump chama Powell de “idiota” após decisão do Fed
Banco Central dos EUA anunciou a manutenção dos juros no atual patamar, de 3,5% a 3,75% ao ano, interrompendo uma série de 3 cortes seguidos
atualizado
Compartilhar notícia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a subir o tom nos ataques ao chefe do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, após a decisão da autoridade monetária norte-americana de manter os juros básicos da economia inalterados.
Ao final da primeira reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed em 2026, nessa quarta-feira (28/1), o Banco Central dos EUA anunciou a manutenção dos juros no atual patamar, de 3,5% a 3,75% ao ano. Assim, o Fed interrompeu uma sequência de três cortes consecutivos.
Em publicação em sua própria rede social, a Truth Social, Trump afirmou que Powell continua “atrasado demais” e “voltou a se recusar a cortar as taxas de juros, embora não tenha absolutamente nenhuma razão para mantê-las tão altas”.
Segundo Trump, os EUA deveriam ter uma taxa de juros “substancialmente mais baixa agora que até esse idiota admite que a inflação não é mais um problema nem uma ameaça”.
Além da ofensa ao presidente do Fed, Trump escreveu ainda que Powell “está custando à América centenas de bilhões de dólares por ano em despesas com juros totalmente desnecessárias e injustificadas”.
“O Fed deveria reduzir substancialmente as taxas de juros, agora! Os EUA deveriam estar pagando taxas de juros mais baixas do que qualquer outro país do mundo”, completou Trump.
O mandato de Jerome Powell à frente do Federal Reserve está perto do fim – termina em maio deste ano. Cabe a Donald Trump indicar o novo presidente do Fed, que terá de ser sabatinado e aprovado pelo Senado dos EUA.
Mais tarde, Trump confirmou, durante a primeira reunião de gabinete do ano, que anunciará já na próxima semana o nome do seu escolhido para suceder Powell.
O que pensa o mercado sobre a decisão do Fed
A decisão anunciada pelo Fomc já era amplamente esperada pelo mercado. De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, as chances de permanência dos juros no atual patamar eram de 97,2% para a reunião desta quarta-feira, a primeira de 2026. No próximo encontro do Fomc, em 18 de março, a possibilidade de uma nova manutenção da taxa chega a 82,2%.
Com a decisão, o Fed interrompeu uma série de três cortes seguidos dos juros, todos de 0,25 ponto percentual, iniciada em 17 de setembro de 2025. Antes disso, eles foram mantidos no intervalo entre 4% e 4,25% por um período de nove meses, com cinco reuniões seguidas do Fomc nas quais não houve alteração do valor.
Segundo Paula Zogbi estrategista-chefe da Nomad, o Fed “cumpriu o script precificado” ao não mexer na taxa de juros da economia norte-americana. “Mas os dois votos dissidentes expõem uma dificuldade de tomada de decisão entre a visão majoritária de ‘soft landing perpétuo’ e uma minoria preocupada com riscos inflacionários persistentes, em meio a dados mistos como desemprego em 4,1% e núcleo do PCE (inflação do consumo) acima de 2,6%, além das tensões políticas com Donald Trump”, analisa.
André Valério, economista sênior do Banco Inter, observa que o Fed “reconheceu que o mercado de trabalho perdeu dinamismo na geração de emprego, ao mesmo tempo em que a taxa de desemprego se estabilizou e a inflação continuou moderadamente elevada”. “Com os dados econômicos não apontando uma direção clara, o comitê optou por não fazer nada, até ter maior clareza”, explica.
“Foi mais uma reunião em que não houve consenso entre os membros votantes. Na reunião de hoje, dois membros votaram por um corte adicional de 25 pontos-base. Além de Steve Miran, que era membro do governo Trump e defende por um ciclo de cortes mais intenso, chama a atenção o voto de Chris Waller, que é um dos cotados para assumir a vaga de Jerome Powell (atual presidente do Fed) a partir de maio. Especulava-se que ele pudesse divergir nessa reunião justamente como uma sinalização ao governo Trump”, afirma Valério.
Para o economista, “o tom do comunicado veio em linha com uma mudança de decisão que era de cortar para uma de pausar”. “O comunicado omite os riscos de queda para o emprego, enquanto afirma que a atividade segue crescendo a um ritmo robusto e a inflação segue elevada. Tal linguagem é consistente com o que vimos nas divulgações recentes”, observa.
“Entretanto, mantida a tendência atual do mercado de trabalho, esperamos que o comitê volte a cortar na reunião de março, tendo em vista o baixo dinamismo na geração de emprego e uma estabilização da taxa de desemprego em patamar elevado. Para o restante do ano, a dinâmica da política monetária americana será altamente dependente em que será escolhido para substituir Powell”, completa.
