Como a decisão do Fed de manter os juros altos nos EUA afeta o Brasil
Para analistas, medida não deve alterar fluxo de recursos globais para países emergentes, que tem provocado queda do dólar e alta das bolsas
atualizado
Compartilhar notícia

A decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de manter os juros dos Estados Unidos no intervalo entre 3,50% e 3,75%, anunciada nesta quarta-feira (28/1), deve ter um impacto menor do que outras medidas similares já adotadas pelo órgão. Com isso, observam analistas, o fluxo de recursos internacionais que tem favorecido a queda global do dólar e a expansão das bolsas de países emergentes (caso do Brasil) deve ser mantido.
Em tese, quando os juros sobem ou permanecem altos nos EUA, aumenta a procura dos investidores por títulos da dívida americana, os Treasuries, considerados os papéis mais seguros do mercado. Desta vez, contudo, alertam os especialistas, o cenário mundial está diferente.
“A decisão do Fed é um ‘não evento’”, define André Valério, economista sênior do Banco Inter. Ele observa que a manutenção dos juros era amplamente esperada. “Tipicamente, ela afeta os mercados globais ao definir a taxa livre de risco mundial, alterando os diferenciais de juros de todo o mundo e, por consequência, suas respectivas taxas de câmbio.”
Valério destaca que, agora, “dado o atual contexto em que a economia global se encontra, a decisão não deverá ter impacto significativo”. Isso só ocorrerá se o presidente do Fed, Jerome Powell, adotar uma postura “muito mais dura do que o esperado” na entrevista que concede logo depois do anúncio do valor dos juros, às 16h30 desta quarta-feira.
Mudança no portfólio
Para o economista, o principal fator que tem influenciado o mercado é o movimento de rebalanceamento dos portfólios dos investidores internacionais, que estão privilegiando o resto do mundo frente à economia dos EUA. Isso num contexto em que a bolsa americana se tornou cara.
“Além disso, a incerteza geopolítica causada pelo governo Donald Trump aumenta a necessidade de diversificação dos investidores estrangeiros”, afirma. Por isso, no Brasil, a decisão de manter os juros altos nos EUA também não deve ter efeito significativo. “A economia brasileira tem se beneficiado desse movimento global, com uma forte entrada de recursos estrangeiros, levando a Bolsa a recordes sucessivos e o real a atingir níveis não observados desde 2024”, diz.
Diferença de juros
Nesta quarta-feira, o Banco Central do Brasil (BC) também anunciará, a partir das 18h30, a taxa básica de juros do país, a Selic, atualmente em 15% ao ano. A perspectiva é de que o valor não seja alterado.
Dessa forma, ressalta o economista, a diferença de juros (o diferencial de juros, no jargão) entre os EUA e o Brasil será mantida. Isso favorece o “carry trade”, a estratégia usada por investidores que captam recursos em países onde os juros são baixos (economias desenvolvidas, em geral) para aportá-los em mercados com taxas elevadas, caso do Brasil com a Selic. Esse tipo de operação, na prática, fortalece o real frente ao dólar.
Atenção em Powell
Para Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, como a decisão de manter a taxa básica de juros americana (Fed Funds) já era esperada, a atenção dos investidores deve se concentrar na comunicação do Federal Reserve em relação à trajetória futura dos juros, feita por Powell a partir das 16h30. Nesse sentido, diz o especialista, é importante deslocar o foco do curto prazo para uma visão mais estrutural das taxas de juros.
“Perde-se muito tempo discutindo se o Fed irá cortar juros na reunião de janeiro, na de março ou apenas no segundo semestre”, afirma. “O que importa – e tem impacto direto sobre os preços das bolsas americanas e globais, bem como sobre o valor do dólar em nível mundial – é qual será a taxa de juros terminal ao final do ciclo de cortes.”
Fim do ciclo
Shahini ressalta que o Fed iniciou o ciclo de cortes de juros em 2024, quando a Fed Funds se encontrava em patamar restritivo, entre 5,25% e 5,50%, e vem realizando reduções sucessivas desde então. “A variável mais importante para a economia brasileira e para o mundo de forma geral – dada a relevância da política monetária americana para os preços dos ativos, no preço do dólar e até no custo de financiamento de países – é justamente qual será o nível da Fed Funds ao final desse ciclo de afrouxamento monetário”, afirma.
“A manutenção das taxas nesta quarta-feira, por si só, tende a ter pouco impacto sobre os mercados”, diz o analista. “No entanto, caso o discurso de Jerome Powell permita extrair sinais sobre a visão de longo prazo para os juros, esse sim é o fator que pode efetivamente mover os mercados.”
