Dólar salta a R$ 5,26 e Bolsa desaba com temores sobre guerra EUA-Irã
Principal medo do mercado é o efeito do aumento do petróleo sobre a inflação, o que pode pôr em xeque as previsões de queda dos juros
atualizado
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Os mercados globais sofreram forte estresse nesta terça-feira (3/3) num dia de intensa aversão a investimentos de risco. O choque foi provocado pela elevação do preço do petróleo, em meio às incertezas sobre a duração e os principais impactos do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, no Oriente Médio.
O dólar, nesse contexto, registrou alta de 1,91% em relação ao real, cotado a R$ 5,26. Ele chegou, contudo, a R$ 5,34 durante a sessão. O Ibovespa fechou em queda de 3,28%, aos 183,1 mil pontos. No fundo do buraco do pregão, o principal índice da Bolsa brasileira (B3) caiu 4,50% (a maior baixa desde 22 de fevereiro de 2021, se considerado o fechamento do indicador nessa data).
O petróleo disparou no mercado internacional, mas atenuou no fim do dia. Depois de subir 8%, o contrato para abril do tipo Brent, uma referência global, fechou com avanço de 4,70%, para US$ 81,40 o barril. Já o WTI, que baliza o mercado americano, subiu 4,67%, a US$ 74,56.
Inflação e juros
Com a desembestada dos preços da commodity, veio o temor de recrudescimento da inflação. De acordo com o economista André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), para cada aumento de 1% do preço da gasolina, o impacto no alta é de 0,05 ponto percentual no Índice Nacional de Preço ao Consumidor (IPCA), que indica a inflação oficial no Brasil.
O choque energético provocou ainda a alta dos juros futuros. Assim, aumentaram as especulações entre agentes econômicos sobre mudanças na perspectiva de corte de juros tanto nos Estados Unidos como no Brasil. As novas taxas serão decididas em reuniões de integrantes dos bancos centrais dos dois países em 18 de março (em duas semanas, portanto).
Estreito
O salto do preço está diretamente relacionado aos riscos de interrupções da circulação de navios no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, entre o Irã e os Emirados Árabes, por onde passa 20% da produção mundial da commodity.
Para agravar a situação, nesta terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o Irã quer retomar conversas para negociar um acordo nuclear. O republicano, porém, comentou: “É tarde demais”, em publicação na rede Truth Social. Na véspera, outra manifestação de Trump já havia provocado rebuliço, quando ele disse que a guerra pode durar cinco semanas (ou mais).
O novo conflito no Oriente Médio começou no sábado (28/2), com ataques dos EUA e de Israel contra o Irã. O regime dos aiatolás respondeu com bombardeios contra países da região, que abrigam bases americanas.
Estrago geral
E o estrago nos mercados foi generalizado. Nesta terça-feira, os índices europeus de ações fecharam em forte queda. O Stoxx 600, que reúne empresas de 17 países, recuou 3,18%. O DAX, de Frankfurt, caiu 3,44%, e o CAC 40, de Paris, cedeu 3,46%. Na Ásia, o índice sul-coreano Kospi tomou um tombo de 7,24%, no pior pregão em 19 meses.
Wall Street também não se safou. Longe disso. Às 15 horas, a baixa era generalizada entre os principais índices das bolsas americanas. Nesse horário, o recuo chegava a 1,33%, no S&P 500; 1,23%, no Dow Jones; e 1,44%, no Nasdaq, que concentra ações de empresas de tecnologia.
Mais dólar
Em relação a moedas fortes, o dólar apresentou alta menor do que frente ao real. O índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas fortes, como euro, iene e libra esterlina, subia 0,58%, às 16h30.
“Houve um maior fluxo global para o dólar como ativo de segurança, com fortalecimento da moeda americana frente a várias divisas”, diz Enrico Cozzolino CEO da Zermatt Partners. No cenário doméstico, observa o analista, dados divulgados sobre o Produto Interno Bruto (PIB), nesta terça-feira, e sobre a inflação ainda pressionada entram na conta, pesando especialmente em setores sensíveis a juros.
Mudança de humor
Para Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad. o dia foi marcado por uma “clara mudança de humor nos mercados”. “A escalada das tensões no Oriente Médio e o risco de interrupção no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz reacenderam temores inflacionários globais e colocaram os investidores em modo defensivo”, afirma.
No Ibovespa, as ações com maior peso no índice recuaram em uníssono. A Petrobras, por exemplo, caiu 0,53% (PN, preferenciais), embora a alta do petróleo, em tese, beneficiasse a companhia. O mesmo deu-se com a Vale (-4,59%) e os bancos como o Itaú (-3,32%) e o Bradesco (-4,70%).
