Choque do petróleo frustra previsão de corte de juros na “superquarta”
Estimativa de redução da taxa básica era de 0,50 ponto percentual até o início da guerra. Agora, está em 0,25 ponto percentual e caindo
atualizado
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As previsões sobre o novo patamar da taxa básica de juros do Brasil, a Selic, embaralharam de vez nesta semana. O novo valor será anunciado nesta quarta-feira (18/3), pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC). Mas, com a guerra no Oriente Médio e o impacto dos confrontos no preço do petróleo, as estimativas de inflação mudaram e ninguém mais no mercado se entende sobre o que acontecerá com a Selic.
Até o início do confronto entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, no sábado (28/2), as apostas convergiam para um corte de pelo menos 0,50 ponto percentual da taxa. O problema é que, desde então, o preço do barril de petróleo saiu dos US$ 73 e alcançou a casa dos US$ 100 (e daí para cima). Esse choque é especialmente inflacionário.
Sem uma estimativa razoavelmente clara para o nível da inflação, as projeções de corte da taxa básica recuaram para 0,25 ponto percentual, ou mesmo, zero, com analistas afirmando que ela pode se manter nos atuais 15% ao ano.
Nesta segunda-feira (16/3), por exemplo, foi a vez de a XP anunciar mudança da estimativa. “Acreditamos, agora, que o Copom manterá a taxa Selic em 15% nesta semana”, disse a empresa, em nota. “Nossa projeção anterior indicava um corte de 0,50 ponto percentual. A nosso ver, há mudanças e incertezas suficientes no cenário para justificar uma abordagem mais cautelosa de ‘esperar para ver’, sem comprometer a credibilidade da autoridade monetária”, afirma o texto.
Inflação e dólar
Na avaliação de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, os fundamentos econômicos internos e externos corroboram esse movimento de frustração do mercado. “Havia quedas consecutivas nas expectativas de inflação do Boletim Focus, que chegaram a projetar aproximadamente 3,91% para o IPCA de 2026, número que hoje aparece em 4,01% na divulgação mais recente”, diz.
Ao mesmo tempo, nota o analista, o dólar vinha em uma tendência de baixa, chegando a mínimas próximas de R$ 5,12, acumulando queda superior a 6% no ano. “Tanto a Bolsa quanto a renda fixa brasileira estavam atraindo fluxos externos relevantes, o que levou o Ibovespa a renovar máximas históricas de fechamento, reforçando a visão positiva para os ativos domésticos”, afirma o técnico. “No entanto, o cenário mudou de forma significativa a partir da escalada das tensões no Oriente Médio.”
Choque
Para o BC brasileiro, houve mudanças importantes no ambiente macro. O dólar passou a apresentar maior volatilidade e voltou a subir, superando R$ 5,25. Além disso, o mecanismo de transmissão do aumento do petróleo — que passou a negociar em patamares próximos de US$ 100 o barril — representa um choque com potencial inflacionário relevante.
“Esse aumento das expectativas de inflação não ficou restrito ao Brasil. As curvas de juros globais passaram a incorporar um prêmio de risco inflacionário maior, e a trajetória de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) foi revisada de cerca de 60 pontos-base (ou 0,60 ponto percentual) no ano para menos de 25 bps. Em outras palavras, passaram a surgir probabilidades relevantes de o Fed não realizar cortes de juros ao longo deste ano”, diz Shahini. “Esse movimento também afetou as expectativas para a política monetária no Brasil.”
Juros altos
Agora, a expectativa do mercado é que o Banco Central reduza a Selic em apenas 0,25 ponto percentual, para 14,75%, na próxima reunião. “É a primeira vez desde o início de dezembro de 2025 que a mediana do Sistema Expectativas de Mercado, que embasa o relatório Focus, deixa de indicar um corte de 0,50 ponto percentual”, afirma.
“Vale ressaltar que, diferentemente de outros países, o Brasil ainda possui espaço relevante para cortes de juros, dado que a Selic se encontra em um patamar elevado, próximo de 15%, enquanto as expectativas de inflação vinham sendo revisadas para baixo”, afirma. “Ainda assim, a trajetória da política monetária dependerá fortemente da evolução dos preços das commodities, do comportamento do dólar e da reação dos principais bancos centrais globais a esse novo cenário geopolítico.”
