Acionista faz alerta sobre “gestão irregular” do caixa da Oncoclínicas

Na avaliação da americana Mak Capital, que detém 6% da empresa, gestores têm de priorizar pagamento de gastos com operação e pacientes

atualizado

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A gestora americana Mak Capital, que detém 6,3% da Oncoclínicas, voltou a atacar a cúpula da empresa. Desta vez, ela lançou um alerta para que os recursos do caixa sejam usados, prioritariamente, para cobrir gastos com a operação e com pacientes da rede de tratamento de câncer. Caso contrário, diz a gestora, a quitação de outros débitos, como dívidas com credores financeiros específicos, pode caracterizar uma irregularidade na gestão da companhia.

A nova investida da Mak foi feita por meio de uma carta enviada na última semana à direção e ao conselho de administração da Oncoclínicas. No documento, obtido pelo Metrópoles, a gestora americana afirma que a situação financeira da empresa é marcada por uma pesada crise de liquidez. Cita ainda que tal quadro impede, atualmente, a compra de medicamentos essenciais à continuidade da operação e afeta milhares de pacientes em tratamento oncológico.

Em paralelo, a Mak lembra que a Fitch rebaixou recentemente a nota de crédito da Oncoclínicas de “C(bra)” para “RD(bra)3”. Relata que o relatório publicado pela agência de risco avalia que a liquidez da empresa é insuficiente para honrar o serviço da dívida, e sua alavancagem é insustentável nos patamares atuais.

Além disso, na avaliação da Fitch, em 12 meses encerrados em 30 de setembro de 2025, “os índices de alavancagem bruta e líquida eram de 8,2 vezes e 7,8 vezes, respectivamente, sem perspectivas de melhora a curto prazo”. Assim, na avaliação da gestora americana, a empresa poderia estar numa situação de insolvência, ou mesmo, pré-insolvência.

Uso do caixa

Para a Mak, nessa condição, é crucial que o caixa da empresa seja usado para a compra de medicamentos, a remuneração do corpo clínico e o pagamento de fornecedores e prestadores de serviços. Na visão da gestora americana, o caixa não pode ser usado para a quitação de débitos com credores financeiros específicos, em prejuízo da continuidade dos serviços prestados e do atendimento a pacientes.

Sobre esse tema, a acionista argumenta que, nas condições em que a companhia se encontra, pagamentos realizados nessas condições (ou seja, eventuais dispêndios com credores financeiros específicos) poderiam caracterizar crime falimentar. Isso sob a ótica da Lei nº 11.101/2005, que regula a recuperação judicial, a recuperação extrajudicial e a falência. Os mesmos pagamentos, na avaliação da gestora americana, poderiam ser anulados por suposta fraude contra credores.

Pagamento a credor

A menção feita pela Mak a esse tipo de problema não ocorreu por acaso. Em ata da reunião do conselho de administração da Oncoclínicas realizada em 13 de março, dois conselheiros independentes, Marcos Grodetzky e Raul Rosenthal Ladeira de Matos, haviam tratado desse tema. Eles criticaram um pagamento que supostamente teria privilegiado o Banco Original, em detrimento dos demais credores da empresa, justamente num contexto de escassez de recursos.

Na ocasião, Grodetzky e Matos também disseram que a companhia deveria “destinar todo e qualquer recurso disponível para comprar medicamentos que estão faltando e são críticos para a continuidade das operações e o tratamento de pacientes, e não privilegiar credores financeiros”.

Negócio com Fleury-Porto

Na carta, a Mak também abordou o que considera os “riscos” envolvidos na negociação de venda da companhia para o laboratório Fleury e para a Porto Seguro, em proposta anunciada no mês passado. Para ela, o negócio não resolverá o problema da empresa.

A gestora americana diz que, segundo atas de reuniões do conselho de administração recém-divulgadas, a “companhia vinha escondendo do mercado” o fato de assessores financeiros terem concluído que a venda, nos moldes em que foi proposta, torna a Oncoclínicas “inviável”, sem capacidade de geração de caixa suficiente para cumprir com suas obrigações. “Ou seja, longe de resolver a crise, a operação pode aprofundá-la”, diz o texto.

Além disso, as atas das reuniões do conselho de administração da Oncoclínicas levantara, sob a ótica da gestora americana, a bola de outro problema. Isso porque os independentes Grodetzky e Matos disseram que a operação de venda da empresa para a dupla Fleury-Porto teria sido negociada diretamente por acionistas e não pela administração. Nesse caso, afirma a Mak, a lei atribui a competência para celebrar negócios em nome da sociedade aos administradores e não aos acionistas.

Na segunda-feira (14/4), contudo, a coluna Dinheiro & Negócios, do Metrópoles, informou com exclusividade que o Fleury e a Porto desistiram da operação, que poderia representar um aporte de R$ 1 bilhão na empresa.

A desistência foi confirmada nesta terça-feira (14/4), por meio de fato relevante divulgado ao mercado. Na nota, a Oncoclínicas afirma que a Porto e o Fleury decidiram não renovar o período de exclusividade do termo de compromisso não vinculante (“term sheet”, no jargão), ou seja, proposta que não implica obrigação de compra, que encerrou no domingo (12/4). A ideia inicial do negócio era constituir uma nova empresa, com investimento da seguradora e do laboratório, além da emissão de debênture conversível em ações.

Prejuízo

Além do racha entre acionistas, na noite de quinta-feira (9/4), a Oncoclínicas publicou o balanço da empresa, cuja veiculação estava inicialmente prevista para 30 de março. O documento traz um retrato atualizado da dimensão da crise da rede privada de tratamento de câncer.

De acordo com as demonstrações financeiras, a empresa acumulou um prejuízo de R$ 3,6 bilhões em 2025, montante 80% superior às perdas reportadas no ano anterior. Em nota feita no balanço, Oncoclínicas e a empresa de auditoria Deloitte apontaram “incerteza relevante da continuidade” da operação da companhia.

Nesta segunda-feira, a rede divulgou fato relevante ao mercado, informando que entraria no mesmo dia com uma ação de tutela cautelar no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). Na prática, o objetivo da medida é proteger a empresa contra a cobrança de credores.

Consultada pelo Metrópoles, a Oncoclínicas informou que não iria se pronunciar sobre o conteúdo da carta preparada pela gestora Mak Capital. Esse espaço, contudo, permanece aberto para eventuais manifestações da empresa.

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