Vizinhos do Brasil se aproximam de Trump e desafiam plano regional de Lula
Movimento expõe o desafio do governo Lula para manter cooperação com países vizinhos em meio à crescente influência de Trump na região

A América do Sul atravessa um momento de mudança na distribuição de forças. De um lado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta manter uma agenda de integração baseada em diálogo entre vizinhos, infraestrutura e cooperação, sem alinhamento automático a grandes potências.
De outro, governos da região aprofundam relações de segurança e comércio com os Estados Unidos de Donald Trump.
A divisão ficou mais evidente nesta semana, quando 14 países latinos que integram o chamado Escudo das Américas aderiram a uma declaração conjunta para combater 24 organizações classificadas pelos Estados Unidos como “narcoterroristas”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO Brasil ficou fora da articulação.
O movimento ocorre em paralelo a uma ampliação da presença de Washington na América do Sul, com novos recursos para parceiros regionais, maior cooperação militar e de inteligência e esforços para aproximar governos que compartilham a agenda de segurança defendida por Trump.
Para Brasília, o desafio é manter canais de diálogo com países que, mesmo sob governos ideologicamente diferentes do brasileiro, continuam sendo fundamentais para os interesses estratégicos de ambas as partes.
Plano de Lula para a região
- Em maio de 2023, Lula reuniu presidentes sul-americanos em Brasília, que aprovaram o Consenso de Brasília para retomar a coordenação regional em áreas como infraestrutura, segurança, saúde e economia.
- Uma das iniciativas foi a criação das Rotas de Integração e Desenvolvimento Sul-Americano, com cinco corredores ligando estados brasileiros a países vizinhos e aos portos do Pacífico.
- A estratégia busca ampliar a integração econômica e criar alternativas logísticas para o comércio com a Ásia.
Vizinhos seguem caminhos diferentes
A Argentina de Javier Milei é um dos exemplos mais claros de aproximação política com o republicano.
O argentino mantém uma relação estreita com o republicano e defende maior abertura econômica e aproximação com os Estados Unidos. Buenos Aires também discute uma flexibilização das regras do Mercosul para permitir negociações comerciais individuais, posição que entra em tensão com a defesa brasileira da atuação conjunta do bloco.
A divergência não é apenas econômica. Milei e Lula protagonizaram episódios de forte atrito político desde o início do governo argentino, mas a relação entre os dois países não foi interrompida.
O Metrópoles apurou com fontes do Planalto que Brasília acompanha a aproximação dos governos vizinhos com Washington, mas não considera que a mudança de orientação política desses países determine automaticamente um afastamento do Brasil.
A avaliação é que Lula procura manter abertas as relações com governos de diferentes correntes ideológicas e concentrar a cooperação em temas concretos, como infraestrutura, segurança pública, energia e segurança de fronteiras.
Segurança aproxima governos de Washington
A aproximação de governos vizinhos com os Estados Unidos avançou na área de segurança com o Escudo das Américas, liderado por Washington e integrado por 19 países. Brasil e México estão fora.
Após pedido de Trump, 14 integrantes anunciaram uma ação conjunta contra 24 organizações, incluindo PCC e CV. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru estão entre os sul-americanos participantes.
Lula defende cooperação internacional contra o crime organizado, mas rejeita presença militar estrangeira no Brasil. A movimentação ocorre em meio à ampliação da atuação dos EUA na região, com US$ 52 milhões redirecionados para Colômbia, Equador, Peru e Panamá e previsão de envio de drones ao Comando Sul.
Para o professor Maurício Fronzaglia, da Universidade Mackenzie, o movimento também está ligado à disputa entre EUA e China. Segundo ele, Washington busca recuperar espaço na região, enquanto Pequim ampliou sua presença comercial.
Nas últimas décadas, a China se consolidou como um dos principais parceiros comerciais de países sul-americanos, incluindo Brasil e Argentina. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos procuram ampliar sua presença em setores considerados estratégicos no Hemisfério Ocidental.
Na avaliação palaciana ouvida pelo Metrópoles, o combate ao crime organizado é apenas uma das dimensões da estratégia americana para a região. A fonte também cita interesses relacionados à China, energia e minerais críticos.
Dimensão eleitoral
- A disputa por influência regional também passou a se cruzar com o cenário eleitoral brasileiro.
- O presidente norte-americano chegou a afirmar que todos os candidatos que ele apoiou em eleições na América Latina foram vitoriosos.
- Dias antes, em discurso na ONU, Lula resumiu a posição brasileira: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Pragmatismo de Brasília
Conforme o apurado pelo Metrópoles, o governo avalia que o Brasil não deve interpretar a aproximação dos vizinhos com Trump como uma perda automática de influência. A avaliação é que países da região continuam dependendo do Brasil em diferentes áreas e que essa interdependência pode ser usada por Brasília para manter sua capacidade de articulação.
A estratégia, portanto, seria pragmática: negociar com governos de direita, centro ou esquerda sempre que houver interesses comuns.
Infraestrutura, energia, comércio, segurança de fronteiras e combate ao crime organizado aparecem como áreas em que Brasília pretende preservar a cooperação.
Essa lógica também explica a manutenção do diálogo com a Argentina de Milei, apesar das divergências entre os presidentes.
Para Fronzaglia, o Mercosul nasceu justamente da compreensão de que a integração poderia ampliar o peso dos países da região diante do mercado internacional e, ao mesmo tempo, reduzir tensões históricas entre Brasil e Argentina.
O professor observa, contudo, que o ambiente internacional mudou desde a criação do bloco, com o aumento da competição entre grandes potências e a maior presença econômica da China.
A avaliação do governo, então, é que Brasília não pretende escolher entre manter influência regional e dialogar com governos próximos de Trump. A estratégia é justamente tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo.









