Sucessão sob ataque: Israel tenta fragilizar núcleo do poder iraniano
Na terça (3/3), o edifício da Assembleia dos Peritos do Irã, em Teerã, foi atacada por Israel. O local era usado para escolha do novo líder
atualizado
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A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã entra no seu quinto dia nesta quarta-feira (4/3) após o final de semana de crescentes hostilidades. Na terça (3/3), ataques de Tel Aviv miraram fragilizar o núcleo do poder iraniano. Dentre as instituições atacadas estão o edifício da Assembleia dos Peritos do Irã, a Usina de Enriquecimento de Combustível de Natanz e “o complexo de liderança” do Irã em Teerã.
Nessa terça (3), o Exército de Israel atacou o edifício da Assembleia dos Peritos do Irã – responsável por escolher o sucessor de Ali Khamenei como líder supremo do regime teocrático islâmico. À mídia local, fontes do governo de Israel disseram que todos os 88 aiatolás que compõem a assembleia estavam presentes no local, na cidade de Qom, cerca de 100 km da capital. Não há informações sobre aiatolás mortos ou feridos.
O que está acontecendo?
- No último sábado (28/2), Israel e Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã.
- Assim como na guerra de 12 dias em 2025, o programa nuclear iraniano foi usado como justificativa para os bombardeios.
- Eles aconteceram dias após EUA e Irã realizarem negociações sobre um possível acordo nuclear entre os dois países.
- A operação militar resultou na morte do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e de outras lideranças iranianas de alto escalão.
- De acordo com o presidente norte-americano, Donald Trump, os ataques devem continuar até que a capacidade militar iraniana seja destruída.
Também na terça, as Forças de Defesa israelenses atacaram um complexo utilizado pelas lideranças do regime teocrático iraniano. Cerca de 100 caças lançaram mais de 250 bombas sobre o local.
Os edifícios visados no complexo incluíam o gabinete presidencial do Irã, a sede do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã — considerado o coração de Teerã —, que é usado pelo fórum mais importante do país para reuniões. Segundo as FDI, o local é uma instituição para treinamento de oficiais do exército iraniano.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) também confirmou que edifícios de entrada da Usina de Enriquecimento de Combustível de Natanz, no Irã, sofreram danos parciais. De acordo com o órgão, a análise foi feita com bases em imagens de satélite.
Ousadia
O cientista político Leandro Gambiati definiu a estratégia de Israel como ousada, no qual os ataques têm como objetivo avançar na derrubada do regime dos aiatolás ao evitar a reorganização do poder.
“A estratégia de Israel é ousada e não tem antecedentes em relação ao que foi feito nas últimas décadas, com ataques limitados e específicos”, disse Gambiati.
No sábado (28/2), o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989, morreu em decorrência dos ataques de Estados Unidos e Israel. Após a morte de Khamenei, o Irã nomeou o aiatolá Alireza Arafi para comandar o país interinamente enquanto um sucessor não é escolhido.
Com Arafi, o presidente Masoud Pezeshkian e o chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni-Ejei, assumem o controle temporário.
Segundo o artigo 111 da Constituição do Irã, quando um líder supremo morre, é escolhido um conselho de transição até que um novo aiatolá seja eleito pela Assembleia de Peritos.
O conselho funcionará até que os 88 membros da assembleia escolham um novo líder supremo.
Na leitura de Gambiati, a ideia de Israel é prejudicar uma sucessão Ali Khamenei. No entanto, o especialista vê que grupos aliados de Irã na região, como Hezbollah, milícias xiitas no Iraque e houthis no Iêmen, tendem a reforçar a sua lealdade a Teerã.
“Esses grupos sempre vão interpretar o ataque de Israel ao Irã como uma ameaça à própria existência. Haverá certamente uma desarticulação inicial, mas em momento posterior a tendência é de reorganização e reação”, avialia o especialista.
Como são escolhidos os membros da assembleia
Os integrantes da Assembleia dos Peritos são eleitos por voto popular no Irã. No entanto, para assumir o cargo, os candidatos precisam ser aprovados antes por outro órgão importante do sistema político iraniano: o Conselho dos Guardiães.
Esse conselho é formado por 12 membros, entre clérigos e juristas especialistas na lei islâmica, conhecida como sharia. Metade deles é indicada diretamente pelo líder supremo, enquanto a outra metade é nomeada pelo chefe do Judiciário.
Na prática, esse processo cria um sistema em que diferentes instituições religiosas e políticas estão conectadas e influenciam a escolha dos dirigentes do país.
O que significa ser aiatolá
- Aiatolá é um título honorífico dado a clérigos muçulmanos xiitas de alto nível de formação religiosa. O termo pode ser traduzido como “sinal de Deus” ou “reflexo de Deus”.
- Originalmente, o título era reservado a um número pequeno de religiosos, mas hoje é concedido a milhares de estudiosos que alcançam determinado nível de aprendizado dentro do islamismo xiita.
- Esse conceito está ligado à ideia de transmissão dos ensinamentos do profeta Maomé dentro da tradição religiosa. Na vertente sunita do islamismo, por exemplo, não existe o título de aiatolá.













