Novo bloco e protestos: o que esperar da viagem de Bolsonaro ao Chile

Presidente embarca nesta quinta-feira para 2ª visita a um chefe de Estado, mas recepção deve ser muito diferente da encontrada nos EUA

Isac Nóbrega/PRIsac Nóbrega/PR

atualizado 21/03/2019 10:23

Enviada especial a Santiago (Chile) – O presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), chega ao Chile nesta quinta-feira (21/3) para participar de uma reunião de cúpula de chefes de Estado da América do Sul. A viagem ocorre a convite do presidente chileno, Sebastián Piñera.

A reunião de cúpula se destina a criar um novo bloco regional, por enquanto chamado de ProSul, que substituiria a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), órgão criado há quase 10 anos com o incentivo do então presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Nessa quarta-feira (20/3), o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, informou que Bolsonaro deve anunciar a saída do Brasil da Unasul. Segundo Araújo, o bloco “é um órgão falido, capturado e com vício de origem, que não conseguiu avançar na integração física entre os países”.

O projeto de criação do ProSul está sendo articulado por Piñera e pelo presidente colombiano, Ivan Duque. Para diplomatas, a reunião de cúpula é o primeiro passo para a criação da entidade, a ser organizada mais para a frente como um foro e cuja estrutura seria mais leve em comparação à Unasul.

O chanceler chileno, Roberto Ampuero, defendeu o projeto em substituição à Unasul, e respondeu a críticas feitas pela oposição chilena ao novo órgão. “Nem ideologização nem improvisação. As críticas infundadas podem afetar a imagem do Chile e prejudicar este esforço de integração sul-americana, um desafio que não pode seguir esperando”, disse Ampuero.

“Persona non grata”
Bolsonaro, que faz aniversário nesta quinta-feira, chegará ao Chile sob fortes críticas de parlamentares de vários partidos, os quais se recusaram a participar do almoço em homenagem a ele, a ser oferecido por Sebastián Piñera, no sábado (23). Não comparecerão ao evento, por exemplo, o presidente do Senado chileno, Jaime Quintana, e o vice-presidente da Casa, Alfonso de Urresti: ambos disseram considerar Bolsonaro “um perigo para a democracia regional”.

Deputados chilenos apresentaram um projeto de resolução na Câmara a fim de declarar Bolsonaro “persona non grata” no país andino. Os parlamentares signatários do projeto – segundo noticiou a imprensa local – justificam o pedido em nome da “defesa da democracia, dos direitos das mulheres, da comunidade LGBTI e dos povos tradicionais”. O documento afirma: “Nos parece preocupante a visita de um presidente representante da ultradireita brasileira e que defende a proliferação dos discursos de ódio e violação dos direitos humanos”.

Entre os parlamentares que apoiam o projeto de resolução, vários se manifestaram por meio da imprensa local ou em suas redes sociais. A deputada Cláudia Mix (Comunes) afirmou: Sebastián Piñera “comete um grave erro ao se alinhar com a ultradireita do continente”.

Segundo Diego Ibañez (Frente Ampla), o brasileiro encarna tudo o que seu partido não quer para o Chile. “É um presidente transfóbico, contra as mulheres, que tem levado militares para os ministérios, transforma juízes em ministros. É, precisamente, o que o Chile não precisa”, destacou.

O deputado Vlado Mirosevic (Partido Liberal) disparou no Twitter: “É um líder perigoso para os valores republicanos, aqueles que sustentam a democracia”. O parlamentar também recusou convite para o almoço de Piñera em homenagem ao presidente do Brasil.

“Uma democracia não pode, ainda que tenha sido eleito, passar por cima dos direitos fundamentais das minorias”, afirmou o deputado. Conforme declarou, Bolsonaro “tem feito da discriminação e do ódio a sua política. Constitui um dano à democracia. Mau exemplo para o Chile”.

A deputada Maitê Orsini (Revolução Democrática), além de apoiar o projeto de resolução e declinar do convite ao almoço em homenagem a um “xenófobo”, criticou o protocolo da recepção. No convite, está escrito que as mulheres podem ir de “vestido curto”.

Ela considerou o termo “machista” e postou no Twitter: “Este é Sebastián Piñera, que diz acolher demandas feministas, mas envia convite oficial que segue em 1.800”. Diante da polêmica, o chefe do protocolo oficial explicou à imprensa chilena que as normas de vestimentas em recepções oficiais foram adotadas antes do atual governo.

Palácio onde Allende morreu
O projeto também pede a Piñera o cancelamento do ato oficial programado para sábado no palácio La Moneda, sede do governo do país. O lugar sediou um dos acontecimentos mais dramáticos da história recente do Chile. Em 1973, durante o golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet, ocorreu um bombardeio ao prédio. O então presidente Salvador Allende foi encontrado morto no interior do palácio.

Ainda no texto do projeto de resolução, os deputados dizem estar chamando a atenção de Piñera “para que não ocupe seu cargo nem os recursos públicos do Estado para desmantelar mais de 10 anos de políticas integracionistas só por mesquinharia ideológica”.

Além de defender ditadores brasileiros, Bolsonaro também já se declarou fã de Pinochet. Num programa de TV, chegou a dizer: “Pinochet fez o que precisava ser feito porque dentro do Chile existiam mais de 30 mil cubanos. Então, tinha de ser feito de forma violenta para reconquistar o seu país”.

A ditadura chilena durou de 1973 a 1990. Nesse período, 40 mil pessoas foram torturadas, mortas ou desapareceram. Em 2018, a Justiça concluiu que Pinochet desviou 17 milhões de dólares de recursos públicos.

Por tudo isso, em Santiago, Bolsonaro terá uma recepção bem menos calorosa do que em sua primeira viagem oficial a outro mandatário, quando passou três dias nos Estados Unidos (em destaque, foto da chegada a Washington). Donald Trump fez com que o brasileiro se sentisse em casa, como declarou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do presidente que o acompanhou a Washington e integrará a comitiva a Santiago.

Últimas notícias