“O fogo se confundia com o pôr-do-sol”, conta brasileira em Paris

Incêndio destruiu parte da catedral nessa segunda-feira (16/04/19). Bombeiros conseguiram controlar as chamas após mais de duas horas

Chesnot/Getty ImagesChesnot/Getty Images

atualizado 16/04/2019 10:02

Essa segunda-feira (15/04/19) foi inesquecível para milhares de turistas que visitavam Paris. Mas não exatamente da forma como haviam imaginado ao comprar as passagens e fazerem reservas. O incêndio que destruiu parte da catedral de Notre-Dame despertou nos visitantes, assim como nos locais, um sentimento de comoção. À frente, queimava um dos maiores símbolos da cidade luz.

Desde os primeiros sinais do fogo, registrados por volta das 18h50, o espanto gerou reações. Visitantes e parisienses olhavam para o incêndio sem poder fazer nada. Quase 900 anos de história eram consumidos e observados por todos, parisienses, visitantes e expectadores de todos os cantos do mundo, que viam as cenas pelas redes sociais em tempo real. Até quase a meia-noite, uma multidão ainda lotava a região. 

Mesmo quem não começou o dia na Île de la Cité – espécie de ilha urbana onde a catedral foi erigida a partir de 1163 – acabou sendo levado até lá. Foi o caso da carioca Paula Coelho, de 28 anos, que estava no quarto de hotel quando ouviu helicópteros sobrevoarem a região.

“Estava descansando quando de repente tudo virou do avesso. Recebi diversas mensagens de amigos preocupados”, contou. Estudante de cinema, Paula estava no último dia em Paris e já tinha visitado o local. Ainda assim concordou quando ouviu dos pais: “Vamos lá, o que está acontecendo é histórico”.

Com a Île de la Cité interditada, os espectadores aglomeraram-se em volta do Rio Sena, que separa a “ilha” da catedral de Notre-Dame.

“Era quase uma marcha. Todo mundo andando na mesma direção, chorando, com celular na mão. Tinha também uma beleza. De um lado era a fumaça da Notre-Dame e do outro o pôr-do-sol. Tudo se confundia em um tom laranja. Foi uma coisa que me chocou muito. Era bonito e trágico ao mesmo tempo”, relatou a futura cineasta.

Morando em Paris há 8 meses, a catarinense Karina Raposo foi uma das poucas pessoas que conseguiram permanecer dentro da ilha. Por trabalhar perto da catedral, ela viu as primeiras chamas e os gritos. Desceu de imediato. “Junto com as batidas do sino das 19h, a igreja em chamas anunciava as horas e, no fundo, já ouvia sirenes. Nunca vou me esquecer da cena”, contou. 

“Minha primeira reação foi colocar nas redes sociais. Era, não pelas razões que eu gostaria, um momento histórico”, prosseguiu. 

Tributo à catedral
Por horas a fio, a catedral queimou. A torre central foi consumida e muito da estrutura que aguentou duas guerras mundiais cedeu. Centenas de turistas se juntaram ao lado de parisienses e jornalistas para testemunhar a cena. 

À beira do Rio Sena, as chinesas Jane Sun e Fiona Chen renderam homenagens à igreja. “É de cortar o coração”, afirmou Sun. Hospedada a 15 minutos de distância, ela fez questão de ir até lá para render uma última homenagem ao monumento. “É muito triste estar aqui neste momento, mas tínhamos que vir”, prosseguiu. 

Enquanto conversavam, por volta das 21h30, o incêndio se alastrava há, pelo menos, duas horas. Mas ninguém arredava o pé dali. Poucas palavras eram ditas. A multidão, nesse dia, era ainda maior que nos dias de visitação, mas no lugar de selfies e sorrisos, apenas o laranja do fogo na tela dos smartphones. 


Da Austrália, a ateia Anake Kervella contemplava as chamas ainda com tênis de corrida. Ela, que costuma correr pelos arredores da ilha, parou os exercícios. 

“Pode ser uma igreja, mas mesmo que não sejamos religiosos, faz parte da nossa vida, da nossa rotina e, sobretudo, da nossa história”, avaliou a australiana que mora em Paris há cinco anos. 

Pouco depois do pronunciamento, o presidente francês, Emanuel Macron, anunciou uma campanha para reconstrução da catedral que, de imediato, recebeu apoio da Organização das Nações Unidas. 

“Vamos fazer um apelo aos maiores talentos e vamos reconstruir a Notre-Dame porque é isso que os franceses esperam e a nossa história merece”. Não bastou, mas trouxe alívio aos presentes. Ao que tudo indica, pelos laudos dos bombeiros, boa parte da estrutura de pedra do santuário continua em pé, e o talento artístico dos franceses já foi demonstrado história afora. 

Mais prático, o norte-americano Jason Stoneking não tirava mais fotos. Deixou apenas o questionamento sobre, então, o que será o futuro da catedral – que, certamente, será distinto daquilo que foi no passado.

“É difícil acreditar que justo no dia em que eu estava passando ao lado dela tudo isso aconteceu. O que vai ser da Notre-Dame agora? Não temos nem como saber se ela ainda vai existir como era até ontem ou não”, concluiu. 

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