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Atingida por um incêndio de grandes proporções na tarde desta segunda-feira (15/04/19), a Catedral de Notre-Dame é o monumento mais visitado da Europa e um dos ícones arquitetônicos mais importantes do mundo. Construída em 1163 (e completada em 1345), foi uma das primeiras igrejas góticas a ser erguida, rompendo com o estilo românico.

“É uma ruptura com a maneira anterior de fazer igrejas. O gótico pensa a estrutura de forma diferente, de forma a abrir as paredes para os vitrais e usar os arcos com intuito de liberar uma altura que não não se tinha até então, criando um efeito impactante”, explica a professora Maria Fernanda Derntl, do departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília.

Ela conta que é difícil apontar a Catedral de Notre-Dame como o maior ícone do estilo, mas é, certamente, um dos mais importantes: apareceu em vários filmes, livros, e faz parte de um imaginário coletivo que pertence não só aos franceses e religiosos, mas também a quem tem interesse em arquitetura. Outro ponto importante é a cidade onde está: Paris sempre foi uma capital cultural, politica e economicamente importante, copiada mundo afora.

Maria Fernanda ensina que o estilo gótico, em si, é muito marcante na história. Apesar de ter caráter religioso, a catedral foi construída com recursos de um grupo social emergente e se tornou um marco na paisagem. “Durante a Idade Média, era um ponto de orientação para os peregrinos, e foi ganhando camadas de significado ao longo do tempo”, diz.

Apesar de não ter sido a primeira no estilo, a igreja foi muito influente esteticamente e inspirou outras construções ao redor do mundo — até no Brasil. No século 19, quando o gótico volta a estar na moda, surge o estilo neogótico e, com ele, uma nova rodada de igrejas e catedrais. Por aqui, a Catedral da Sé, em São Paulo, é a mais emblemática e, segundo Pedro Paulo, traz elementos trazidos do estilo gótico francês.

O professor Pedro Paulo Palazzo, também da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília UnB), lembra que a Catedral de Notre-Dame já passou por muitas reformas. Além de ter demorado mais de um século para ficar pronta, sofreu vários danos ao longo dos anos, principalmente durante a Revolução Francesa. “Ela foi sendo restaurada e representa diferentes momentos da história da arquitetura. Nos últimos 50 anos, tem sido muito bem cuidada e estava em ótimo estado de conservação, tendo em vista as muitas intervenções que sofreu”, conta.

Esperança
O professor afirma ser preciso esperar para ter uma noção completa do que foi danificado e há risco para a estrutura — a pedra, elemento básico da construção, é sensível ao calor. “Por enquanto, são danos que podem, na maior parte, ser revertidos. As principais esculturas da área afetada pelo incêndio tinham sido removidas para conservação e a parte arquitetônica pode ser recuperada”, diz. O que segue agora é um debate sobre se é certo ou não reconstruir o que se perdeu.

Veja imagens do incêndio: