Entenda por que Putin usa neonazismo para justificar ataque à Ucrânia

Presidente russo instrumentaliza a existência de grupos de extrema direita na Ucrânia, mas analistas veem desculpa para derrubada de regime

atualizado 01/03/2022 14:30

Putin em MoscouAlexei NikolskyTASS via Getty Images

País independente desde 1991, quando a União Soviética se desfez, a Ucrânia convive em sua formação política com a existência de grupos ultranacionalistas, que chegam a ostentar símbolos abertamente nazistas, como a suástica hitlerista. Alguns, inclusive, têm ligações com o governo em algum grau.

Esses grupos, porém, não representam uma porção numerosa da sociedade nem ocupam posições de poder político. Ainda assim, o presidente russo, Vladimir Putin, tem insistido que a ofensiva militar que lançou contra a Ucrânia tem, como um dos principais objetivos, “desnazificar” o país vizinho.

Na última semana, ao apelar para que os militares ucranianos tomassem o poder e derrubassem Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, Putin disparou: “Será mais fácil chegar a um acordo com vocês do que com o bando de drogados e neonazistas que estão sentados em Kiev”. Veja a retórica do líder russo:

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Opositores de Putin e especialistas em política externa que acompanham o desenrolar do conflito, avaliam, porém, ser improvável que o líder russo acredite que o fascismo tenha tanta força assim no país vizinho. Putin, no entanto, usa esse discurso como propaganda para tornar a guerra mais palatável, inclusive em casa, já que milhares de russos têm desafiado as proibições e se manifestado contra a invasão em dezenas de cidades.

O chefe de Estado da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é um raro presidente judeu na Europa. Ele não perde a chance de contar como membros de sua família lutaram contra as forças de Adolf Hitler (e vários não sobreviveram). Zelensky usa sua história para combater as acusações de que seu governo seria, na prática, de tendências neonazistas.

A versão defendida por Putin, entretanto, ecoa entre ativistas mundo afora, inclusive no Brasil. O historiador, youtuber e militante comunista Jones Manoel, por exemplo, tem usado suas redes sociais para dizer que a administração atual, que chegou ao poder após uma série de protestos entre 2013 e 2014, contra a influência política russa sobre o governo, é “neofascista”.

Para ele, que é militante do PCdoB, os protestos começaram de maneira espontânea, mas foram “rapidamente apropriados por grupos neonazistas”. “Nos protestos de 2013-2014, era possível ver vários símbolos nazistas, fotos de Stepan Bandera e símbolos dos grupos colaboracionistas ucranianos que apoiaram a invasão de Hitler”, publicou Manoel no Twitter, sem dizer diretamente como um presidente judeu se encaixa nesse discurso.

Stepan Andriyovych Bandera, morto em 1959, no que se desconfia ter sido um atentado da inteligência russa, foi um líder nacionalista que é tido como herói na Ucrânia, mas, segundo o governo russo e investigações feitas pelo Estado norte-americano, teve ligações com os nazistas aliados de Hitler que invadiram o país na Segunda Guerra Mundial.

Militantes políticos que admiram Bandera são a base de movimentos nacionalistas que têm alas extremistas, como o Pravyi Sektor (Setor Direito) ou o batalhão Azov. Esse último grupo tem raízes inegavelmente neonazistas e ganhou espaço nas forças armadas regulares da Ucrânia em 2014, justamente por ter tido papel importante na luta contra forças separatistas pró-Rússia.

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Ucrânia responde na mesma moeda

A carta de “chamar de nazista” também está sendo usada pelo lado oposto no conflito. Ao ser invadida, a Ucrânia respondeu militarmente, mas também com propaganda. Nas redes sociais, o governo ucraniano postou um meme que retrata um Putin diminuto, sendo controlado por Hitler. Nas respostas, ucranianos e outros opositores a Putin o chamaram de “Putler” e lembraram que a Rússia também convive com grupos e milícias ultranacionalistas que podem ser apontados como militantes de extrema direita, como um grupo de motociclistas chamado, em russo, de “Lobos da Noite”. Veja:

Quando a capital ucraniana, Kiev, começou a ser bombardeada, na quinta-feira (25/2), autoridades do país chamaram a ofensiva de “o pior ataque desde a ofensiva nazista de 1941”.

Críticas

“A Ucrânia não é controlada por nazistas ou fascistas, apesar do crescimento de grupos ultranacionalistas e fascistas nos últimos anos – um problema global não específico da Ucrânia”, disse à BBC a historiadora Amy Randall, da Santa Clara University, na Califórnia, especialista em Rússia. “Essa referência a nazistas e neonazistas se tornou muito proeminente na mídia russa por volta de dezembro de 2013”, adicionou, ao mesmo veículo, Brian Taylor, professor de Ciência Política da Syracuse University e autor de livros sobre Putin.

“Há um segmento da população ucraniana que relembra aquelas tentativas de alcançar a independência ucraniana sob Stalin, aliando-se a Hitler, não como uma colaboração com o nazi-fascismo, mas como a atuação de patriotas ucranianos e heróis nacionais”, completou Taylor.

Apesar dessa influência, os grupos de extrema direita jamais conseguiram cadeiras no Poder Legislativo do país, tampouco cargos no Executivo.

Para os analistas, portanto, as acusações dos dois lados são parte da propaganda, que é um dos fronts mais importantes de uma guerra. O cientista político holandês Cas Mudde, um dos mais importantes pesquisadores do extremismo político e do populismo na Europa e nos Estados Unidos, tem comentado a guerra Rússia-Ucrânia em suas redes sociais e, no último dia 23 de fevereiro, fez uma postagem dizendo que “a Rússia não é fascista e a Ucrânia não é neonazista. É perfeitamente possível haver conflitos entre dois países e nenhum deles ser nazista”. Veja:

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