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Mundo

Crise com Lula expõe fragilidades da política externa de Javier Milei

Escalada diplomática com Brasil amplia críticas à estratégia externa de Javier Milei e expõe riscos para economia da Argentina e o Mercosul

31/07/2026 04:30
Mario De Fina/NurPhoto via Getty Images
Imagem colorida de Javier Milei - Metrópoles

As relações diplomáticas entre Brasil e Argentina atravessam a pior crise desde a redemocratização dos dois países. O estopim foi uma sequência de ataques do presidente argentino Javier Milei contra autoridades brasileiras, ao participar da convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República.

O entrevero expõe, no entanto, uma questão mais profunda: os limites da política externa de Milei conduzida a partir de alinhamentos ideológicos e disputas políticas.

Para especialistas ouvidos pelo Metrópoles, a crise revela um choque entre a diplomacia tradicional, baseada em interesses permanentes do Estado, e uma atuação cada vez mais influenciada por disputas ideológicas.


Entenda a crise


“Política externa virou extensão das guerras culturais”

O professor Vitor de Pieri, especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), afirma que a política externa de Milei deixou de ser apenas uma estratégia de alinhamento internacional e passou a gerar custos diplomáticos concretos.

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“Desde o início de seu governo, Milei abandonou uma tradição histórica da diplomacia argentina, marcada pela defesa da autonomia decisória e da centralidade do Estado, para adotar uma política externa de alinhamento quase incondicional aos Estados Unidos e ao eixo da nova direita internacional”, avalia.

Segundo ele, o governo argentino passou a priorizar afinidades políticas e pessoais com líderes, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, em detrimento de uma lógica de Estado.

De Pieri aponta que a viagem de Milei ao Brasil simboliza essa mudança de postura. “Em vez de realizar uma visita oficial para dialogar com o governo brasileiro, Milei participou de um ato eleitoral da oposição, atacou publicamente o presidente da República, o Poder Judiciário e instituições brasileiras em território nacional”, expõe.

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Presidente da Argentina, Javier Milei
Lula na convenção do PSB, em Brasília
O presidente argentino Javier Milei e Flávio Bolsonaro na convenção nacional do Partido Liberal (PL)
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O presidente argentino Javier Milei e Flávio Bolsonaro na convenção nacional do Partido Liberal (PL)

Allison Sales/NurPhoto via Getty Images
Presidente da Argentina, Javier Milei
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Presidente da Argentina, Javier Milei

Gabriel Luengas/Europa Press via Getty Images
Lula na convenção do PSB, em Brasília
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Lula na convenção do PSB, em Brasília

Um padrão de confrontação

O conflito com o Brasil não é o primeiro episódio em que Milei transforma divergências políticas em crises diplomáticas.

O presidente argentino já havia provocado uma crise com a Espanha após atacar o primeiro-ministro Pedro Sánchez e sua esposa, Begoña Gómez, durante uma viagem a Madri. O episódio levou o governo espanhol a retirar temporariamente sua embaixadora de Buenos Aires.

Especialistas apontam que o padrão revela uma diplomacia mais associada ao confronto político e às redes sociais do que à negociação tradicional entre Estados.

“O problema é que esse tipo de confrontação produz efeitos que vão muito além da relação pessoal entre Lula e Milei. A diplomacia existe justamente para impedir que divergências entre governantes contaminem interesses permanentes dos Estados”, afirma De Pieri.

Dependência econômica limita ruptura

Apesar da crise política, Brasil e Argentina seguem profundamente conectados pela economia. O Brasil é o principal parceiro comercial argentino e um mercado essencial para setores como automóveis, máquinas e bens industrializados.

Em 2025, o comércio bilateral movimentou cerca de US$ 31 bilhões, mostrando que a relação econômica permanece mais forte do que as divergências entre os governos.

O cientista político Gustavo Menon afirma que a crise demonstra justamente esse paradoxo. Segundo ele, a interdependência entre os dois países impede que divergências presidenciais sejam transformadas em uma ruptura completa.

“O comércio, as cadeias produtivas e a própria estabilidade do entorno regional fazem com que a parceria continue estratégica, sobretudo em um contexto de tarifaço e de incertezas no comércio internacional”, avalia.

Menon destaca, ainda, o papel do Mercosul como mecanismo de proteção econômica. Na visão do especialista, o bloco funciona como uma espécie de amortecedor institucional, preservando os fluxos comerciais e evitando que divergências conjunturais destruam uma base de integração construída ao longo de décadas.

Milei entre o discurso ideológico e a realidade econômica

Desde a campanha eleitoral, Milei defende uma aproximação prioritária com os Estados Unidos e adota uma postura crítica em relação à China e ao governo brasileiro.

Na prática, porém, a Argentina continua dependente de seus principais parceiros comerciais. O Brasil é fundamental para a indústria argentina e também para projetos estratégicos, como a integração energética envolvendo o gás de Vaca Muerta.

Para a doutora em estudos estratégicos da defesa e segurança, Priscilla Mendes, a crise atual evidencia os limites da polarização ideológica na política externa.

“O avanço de lideranças de direita na América Latina tornou a política externa um tema cada vez mais central das disputas domésticas, reduzindo o espaço para a tradicional separação entre divergências partidárias e interesses permanentes do Estado”, afirma.

Segundo ela, o desgaste entre Lula e Milei não significa, necessariamente, uma ruptura entre Brasil e Argentina. “Tanto o Itamaraty quanto a chancelaria argentina foram estruturados com base em princípios de profissionalização, continuidade institucional e defesa dos interesses nacionais de longo prazo”, diz.

A avaliação de Mendes vai ao encontro da posição manifestada pelo próprio chanceler argentino, Pablo Quirno, que descartou a possibilidade de um rompimento diplomático entre os dois países.

“Não há nenhuma chance de que, do nosso lado, as relações se rompam (…). Nós não levamos isso para o plano institucional”, afirmou.