Artistas alemães destroem 72 toneladas de panfletos da extrema-direita

Coletivo de artistas forjou empresa de distribuição de panfletos e enganou partido AfD, que lhes entregou toneladas de propaganda

atualizado 28/09/2021 20:58

Panfletos da extrema-direita alemã no lixoZentrum für politische Schönheit/Divulgação

O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que teve dirigentes recebidos pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em julho deste ano, conseguiu menos apoio nas eleições gerais alemãs do último fim de semana do que no pleito anterior — caindo de 12,6% para 10,3% dos votos. Uma das explicações para a queda na popularidade da sigla ultranacionalista, que adota posições radicais contra a imigração, por exemplo, pode ser um golpe dado por um coletivo de artistas. O grupo, contratado por meio de uma empresa falsa de distribuição de panfletos, jogou no lixo 72 toneladas de propaganda dos candidatos da AfD.

O coletivo de artistas Zentrum für politische Schönheit (algo como Centro pela Beleza na Política) divulgou, nesta terça-feira (28), detalhes sobre elaborada ação política para prejudicar a campanha. Para o golpe, foi criada uma empresa falsa de distribuição de propaganda, a Flyerservice Hahn, que tem um elaborado site e material de divulgação convincente. Eles ofereceram serviços ao diretório da AfD em toda a Alemanha por preços baixos, conseguindo forjar contratos para apossar mais de 5 milhões de panfletos que jamais foram distribuídos.

A história ganhou repercussão na mídia alemã e tem viralizado no Brasil.

Veja:

Em vídeo divulgado nesta terça, o coletivo mostra reuniões com dirigentes da AfD, o recebimento dos panfletos e o depósito do material em grandes caçambas de lixo.

Assista (sem legendas):

Em postagens nas redes, os artistas estão pedindo doações para enfrentar processo na Justiça. “Nosso único cliente está extremamente zangado e quer nos processar. Torne-se um parceiro, agora. Como acionista, você evita que a propaganda nazista acabe na campanha eleitoral”, diz uma postagem, que leva a uma vaquinha. Até a publicação desta reportagem, o grupo havia arrecadado cerca de 80 mil euros (mais de R$ 480 mil).

“Cada centavo paga por um panfleto AfD não distribuído”, dizem os artistas na página. “Com o seu dinheiro, nossos advogados defendem a liberdade artística”, completam. Veja a postagem original:

Apenas às vésperas do pleito, os candidatos foram informados que o material jamais seria distribuído.

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AfD no Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu, em julho, a deputada alemã Beatrix von Storch, vice-líder do AfD, investigado por propagar ideias extremistas e neonazistas. O encontro com a política, que é neta do ministro da Fazenda de Adolf Hitler, não constava na agenda oficial do mandatário da República brasileira.

Criticado, Bolsonaro se defendeu: “Tinha um deputado chileno e a alemã visitando a presidência. Poxa, tratei (com eles), conversei, bati um papo. Saiu que a deputada alemã é neta do ex-ministro do Hitler. Me arrebentaram na imprensa. Eu acho que a gente não pode ligar um pai a um filho. Muitas vezes um fez uma coisa errada e não se pode ligar a outro”, disse o presidente.

Quem também recebeu a deputada de extrema-direita foi o ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia. Justificando-se, o ministro disse que o irmão da deputada alemã é astronauta, como ele.

“Na semana passada, pra vocês entenderem, eu recebi uma ligação da deputada Bia Kicis falando assim: ‘Tem uma deputada alemã aqui no Brasil, que o irmão dela é astronauta e ela queria tirar uma foto contigo, para mandar pro irmão. Você consegue encaixar?’. Eu estava com a agenda cheia, mas só pra tirar uma foto, eu encaixo o horário, não tem problema nenhum”, disse Pontes.

Organizadora desse tour da extrema-direita alemã no Brasil, Kicis celebrou a união e a semelhança de pautas defendidas. “Conservadores do mundo se unindo para defender os valores cristãos e a família”, disse a parlamentar, que é presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados.

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