Professora denuncia racismo em padaria de BH: "Devastada moralmente".
A pós-doutora foi abordada por fiscais na saída de uma padaria e, mesmo apresentando nota fiscal, foi cobrada a abrir a bolsa
Belo Horizonte – A professora Rosália Diogo denunciou à polícia ter sido vítima de racismo em uma padaria na capital mineira. Ela, que é comunicadora e pós-doutora em Antropologia afro-brasileira, publicou um vídeo em sua rede social relatando a situação pela qual ela passou na noite de domingo (16/8). Rosália afirma ter ficado “devastada moralmente e emocionalmente” após a abordagem sofrida.
Segundo o relato, o episódio aconteceu depois que ela deixou um show de Elomar no Palácio das Artes, atravessou a rua e foi até o supermercado e padaria Mania Gostosa. Ela conta que comprou seis itens, entre eles uma garrafa de vinho, e realizou o pagamento com cartão no caixa.
Já na calçada, quando estava deixando o estabelecimento, dois fiscais teriam interrompido sua passagem e pedido que ela abrisse a bolsa. “Eu quase tive um troço”, relatou.
A padaria disse ao Metrópoles que “mantém protocolos de atendimento aplicáveis e não tolera discriminação de qualquer natureza” e que afastou os envolvidos na abordagem “enquanto durar a apuração”.
Rosália afirma que se recusou a abrir a bolsa e questionou o motivo da abordagem. Segundo ela, um dos fiscais disse que a havia visto pegar uma garrafa de vinho. “Eu disse, eu peguei, de fato. Aqui está a nota fiscal”, contou.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAinda conforme o relato, o fiscal teria olhado rapidamente para a nota, mas insistiu para que ela abrisse a bolsa. Diante da recusa, ele teria ameaçado chamar uma viatura policial.
“Eles fizeram um sinal para a viatura policial que estava passando por lá, mas a viatura não parou. Eu tenho dúvida se é porque a viatura não viu o sinal que eles fizeram ou se eles tinham coisas mais urgentes para fazer e não identificaram num golpe de vista alguma situação gritante que os chamasse a atenção para parar. Mas eles não pararam”, relata Rosália.
Como a viatura não parou, Rosália insistiu para que chamassem a PM pelo 190, porque ela queria dar o posicionamento dela.
“Eles optaram por não chamar os policiais, fizeram a opção de pedir alguém lá internamente para abrir a câmara, as câmaras, pelo que eu entendi checaram e tinha alguma irregularidade, se de fato eu furtei, pelo que eu entendi, porque após alguns minutos eles me liberaram”, relata a professora.
Desdobramentos
Após o episódio ocorrido no domingo à noite, a mulher afirma que procurou orientação jurídica e começou a tomar providências já naquela mesma noite. Segundo ela, apesar de estar emocionalmente abalada, ligou para o advogado e pediu orientação sobre como proceder.
“Quando eu consegui me recompor emocionalmente, fiquei muito abalada, de fato, nesse domingo à noite”, declarou.
Na segunda-feira (17/8), o advogado foi até a casa dela e a acompanhou à delegacia. Conforme o relato, ele a auxiliou e orientou durante o registro do boletim de ocorrência. “Estamos com o boletim de ocorrência em mãos, neste momento”, afirmou.
Ela conta que o advogado também está buscando informações junto ao Ministério Público e a outros órgãos jurídicos para avaliar qual será o melhor caminho para o caso. Rosália afirma entender que a situação constitui crime de racismo, mas ressalta que ainda não recebeu uma resposta definitiva sobre os próximos passos.
Racismo estrutural
Ao falar sobre o combate ao racismo estrutural no Brasil, Rosália afirma não acreditar que exista uma solução rápida para o problema. Ela cita a resistência histórica da população negra e menciona quilombos, Zumbi dos Palmares, Dandara e Tereza de Benguela.
“Há séculos atrás, nós estamos resistindo a essa opressão, a esse racismo e a estrutura ainda se mantém racista”, diz ela.
Rosália ressalta a importância das denúncias e critica a forma como, segundo sua avaliação, os funcionários são preparados para lidar com a clientela negra.
“É não deixar barato, como agora eu vou fazer. Eu vou insistir, vou até o final, para que sirva de referência e de modelo para outros racistas a punição que eu tenho certeza que virá para essa empresa, que não cuida, que não trata, não forma os seus funcionários para lidar com a clientela negra.”, afirmou.
A professora ressalta, ainda que atividades culturais e cursos de formação, também são iniciativas que contribuem para minimizar o problema.
Sobre Rosália Diogo
Rosália Diogo, 62 anos, é jornalista, pesquisadora e professora aposentada. Ela é pós-doutora em Antropologia afro-brasileira e curadora do Casarão das Artes Negras (@casaraodasartesnegras). Rosália também é editora da Revista Canjerê BH (evistacanjerebh).
Apoio
A professora tem recebido várias manifestações de apoio em suas redes sociais. “Receber tanto apoio e solidariedade nos fortalece e nos lembra que não estamos sós”, escreveu ela. Veja a postagem:
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Empresa entrou em contato com Rosália
Rosália Digo relata que recebeu contato do assessor de imprensa da empresa. Segundo ela, houve pedidos de desculpas pelo ocorrido e a informação de que a empresa estava tomando internamente as medidas cabíveis. Ainda de acordo com o relato, ele teria dito que o estabelecimento realiza treinamentos constantes com os funcionários. Ela disse que questionou a efetividade dessa preparação.
“Obviamente não parece que esse treinamento está sendo feito ou que tenha efetividade”, declarou.
Para ela, o episódio revelou “uma imaturidade e uma assimilação profunda” relacionada ao racismo estrutural.
Investigação
Em nota a a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) disse que apura a ocorrência registrada nessa segunda-feira (17/8), pela vítima de 62 anos. “Não houve conduzidos à delegacia. O caso segue sendo apurado”, diz.
Nota da empresa supermercado e padaria Mania Gostosa
O Supermercado e padaria Mania Gostosa enviou nota ao Metrópoles se manifestando sobre o episódio ocorrido no estabelecimento. Leia abaixo a nota na íntegra:
A empresa tomou conhecimento do relato referente à abordagem a uma cliente e apura internamente as circunstâncias.
Como medida de cautela, os envolvidos foram preventivamente afastados enquanto durar a apuração.
A empresa mantém protocolos de atendimento aplicáveis e não tolera discriminação de qualquer natureza.
O empreendimento manifestou-se diretamente à cliente e permanece à disposição para prestar os esclarecimentos necessários.



