“Ostentadores” da Capsul tinham Lobo de Wall Street como inspiração. Vídeo
Empresários de MG que vendiam suplementos alimentares ostentavam uma vida de luxo nas redes sociais, com carros esportivos, aviões e viagens
atualizado
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Belo Horizonte – Os dois empresários de 29 e 35 anos presos na Operação Casa de Farinha na última quarta-feira (25/3), em Arcos, no Centro-Oeste de Minas Gerais, ostentavam uma vida luxuosa nas redes socias. Carros de luxo, jatinho, relógios suíços, viagens para Dubai, Grécia e Itália; serviam como propaganda para a venda de e-books e cursos ensinando como enriquecer.
A polícia encontrou também um objeto curioso: pendurado na parede de um escritório, um quadro do ator Leonardo di Caprio no filme O Lobo de Wall Street. No filme, o personagem de Di Caprio é um corretor de ações que enriquece ilicitamente por meio de fraudes financeiras e manipulação do mercado – enquanto usa muitas drogas.
A dupla, proprietária da empresa Capsul Brasil Indústria e Comércio S.A., fabricante de suplementos, segundo as investigações conduzidas pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de Minas Gerais (CIRA-MG) – com o apoio do Ministério Público (MPMG), da Secretaria de Estado da Fazenda (SES-MG), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Polícia Civil (PCMG) e Polícia Militar (PMMG) – sonegou cerca de R$ 100 milhões em impostos.
A operação bloqueou cerca de R$1.3 bilhão em contas bancárias e bens dos suspeitos.
No cumprimento de 17 mandados de busca e apreensão na casa dos envolvidos e também da fábrica, os agentes de segurança apreenderam 14 veículos de luxo entre Ferrari, Porshes, Escalade, Audi; relógios de marcas suíças – um Patek Philipe avaliado em mais de R$ 1 milhão -; além de joias de ouro e outros artigos de luxo.
Armas e uma submetralhadora também foram apreendidas. O empresário de 29 anos é CAC (Caçador, Atirador e Colecionador) – um registro concedido pelo Exército Brasileiro que autoriza pessoas físicas a adquirir e possuir armas de fogo para estas finalidades – e tinha posse legal dos armamentos.
O esquema
O núcleo da fraude tributária operava desde 2018/2019 e envolvia mais de 300 empresas e cerca de 1 milhão de CPFs de consumidores. A principal estratégia era declarar a maior parte das vendas de suplementos alimentares — que têm alta incidência de ICMS — como se fossem de produtos digitais, como e-books e cursos online, que gozam de imunidade ou tributação reduzida.
As notas fiscais inflavam valores de e-books (chegando a representar 60% a 90% do faturamento declarado, totalizando R$ 240 milhões em um faturamento total de R$ 400 milhões), enquanto os suplementos eram subfaturados ou omitidos.
Os e-books raramente eram entregues aos clientes, servindo apenas como fachada contábil. Além disso, a dupla vendia cursos online ensinando o mesmo modelo fraudulento para outros empreendedores, replicando o esquema em rede por todo o Brasil e dificultando a fiscalização.
Uma vida de mentira
Nas redes sociais, a dupla oferecia cursos ensinando a como enriquecer. Divulgavam fotos de suas viagens e encontros de carros esportivos. Tudo era parte de uma estratégia de marketing agressiva: os posts de luxo — com Ferraris, Porsches, Escalade de mais de R$ 2 milhões, relógios Patek Philippe de R$ 1 milhão e joias de ouro — serviam como “prova” de que o método deles funcionava.
Eles prometiam aos seguidores que, seguindo os cursos, qualquer um poderia montar uma marca própria de suplementos, terceirizar a fabricação e usar o mesmo truque dos e-books para pagar menos impostos. A ostentação não era apenas vaidade: era o principal argumento de venda dos próprios produtos e dos cursos de “enriquecimento rápido”.
“Existia um padrão de vida muito alto, demonstrado nas redes sociais, sem o menor pudor, muito pelo contrário. A partir do momento que começa a se vender curso a ostentação era uma forma de atração”, relatou o Promotor de Justiça, Pedro Henrique Pereira Correa, coordenador regional do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Defesa da Ordem Econômica e Tributária (CAOET) em Divinópolis.
Na prática, era uma vida construída sobre fraude, com suplementos fabricados sem registro na Anvisa, sem princípios ativos prometidos e até com lotes vencidos que geraram recall sanitário. Cerca de 1 milhão de consumidores lesados, incluindo revendedores e parceiros comerciais.
“Havia um indício de que esses produtos não correspondiam ao propagado. Muitas reclamações de consumidores em sites especializados, ações judiciais contra a empresa, e no final de 2025 a Anvisa realizou uma fiscalização e diversas irregularidades sanitárias foram constatadas”, explicou a Promotora de Justiça Janaina de Andrade Dauro, responsável pelas investigações.
Influenciadores famosos e deboche
Nas redes sociais dos dois empresários, influenciadores famosos apareciam frequentemente fazendo propaganda para com os produtos da Capsul. Um dos empresários, em uma atitude de total desprezo pelos consumidores, publicou um vídeo em que ele aparece na frente de dois carros de luxo com a seguinte frase:
“Se sua oferta não está lotando o Reclame Aqui, você não está escalando direito”.
Eles gostavam de aparecer em carrões chegando na empresa, entrando em avião; vendendo uma vida material possível para todos em detrimento do sofrimento dos clientes que acreditavam no produto que era vendido. A dupla era atuante na redes sociais e era constantemente chamada para conceder entrevistas em Podcats para falar da vida bem sucedida de jovens empresários, dos produtos que vendiam e dos cursos que ministravam. O que dava um ar de legalidade e legitimidade aos investigados.
“O impacto disse na comunidade é muito grande. Os empresários envolvidos exercem um poder muito forte de influência. Acaba incitando nos mais jovens um caminho de sucesso equivocado. A operação tem a grande virtude de demonstrar que não existe caminho fácil porque uma hora as coisas vão ser apuradas e os responsáveis vão responder”, concluiu o promotor Pedro Henrique Correa.
Lobo de Wall Street
No escritório, dentro da Capsul, a polícia apreendeu um quadro com a ilustração do ator Leonardo di Caprio, quando o ator norte-americano interpretou a biografia de Jordan Belfort, mais conhecido no mercado financeiro como Lobo de Wall Street.

Jordan Belfort é um ex-corretor da bolsa norte-americana que ficou famoso por fraudar investidores nos anos 1990, acumulando uma fortuna. Fundador da corretora Stratton Oakmont, ele manipulava o mercado de ações (penny stocks) através do esquema “pump and dump”, inspirando o livro e o filme de sucesso O Lobo de Wall Street.
Os investigadores viram no quadro um símbolo claro da inspiração e da mentalidade da dupla: enriquecer a qualquer custo, mesmo que isso significasse fraudar o fisco, enganar consumidores e ensinar o golpe para outros.
Sonegação pelo Brasil
Para o superintendente de fiscalização da Receita Estadual de Minas Gerais, Carlos Renato Machado, as investigações sobre a fraude realizada pelos empresários mineiros, vai se espalhar pelo Brasil. Segundo Carlos, o marketing digital – e-books, cursos e produtos digitais vendidos pelas redes socias e em sites – é uma nova fronteira a ser explorada pelas auditorias estaduais e federais.
“Com a identificação dessa fraude envolvendo o e-book naturalmente a gente tem acesso aos documentos fiscais emitidos e identificamos que isso está espalhado e disseminado em outros setores e claro que vai avançar e ter outras ações envolvendo fraudes dessa natureza. Vamos comunicar isso ao fisco de outros estados. Esse tipo de fraude tem acontecido e é uma fronteira que vai ser bastante trabalhada pelo Brasil afora nos próximos meses e anos”, completou.
Estrutura da operação
7 promotores de Justiça;
5 delegados de Polícia Civil;
68 auditores da Receita Estadual;
73 policiais civis;
26 policiais militares;
8 bombeiros militares;
7 servidores do Ministério Público;
2 agentes da ANVISA;
2 agentes da Vigilância Sanitária.
O nome da Operação Casa de Farinha faz referência à fábrica retratada em novela exibida em rede nacional, que apresenta situações semelhantes às apuradas na investigação.
A s investigações seguem em andamento para identificar outros envolvidos, aprofundar o rastreamento dos recursos e responsabilizar criminalmente todos os participantes do esquema.
Denúncias anônimas podem ser feitas pelos canais oficiais do MPMG e da Polícia Civil.
















