Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Minas Gerais

“Nós só queremos viver”: o pedido de socorro dos Maxakali em MG

Lideranças Maxakali denunciam fome, falta de atendimento, água suja e cobram ações imediatas do poder público

26/07/2026 03:00
Ministério Público Federal/Divulgação
aldeia Maxakali em Minas Gerais

Belo Horizonte – “Hoje não é mais hora da palavra. É hora da ação.” A frase do presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), Durval Ângelo Andrade, resume o cenário encontrado durante a visita de representantes do sistema de Justiça às aldeias Maxakali, no Vale do Mucuri mineiro.

As autoridade ouviram os relatos dos próprios indígenas, que denunciaram uma realidade marcada por fome, desnutrição infantil, falta de água tratada, dificuldades de acesso à saúde, ausência de transporte, suicídios entre jovens e a destruição do território tradicional.

“Nós só queremos viver”, disse Sueli Maxakali, professora.

As denúncias foram apresentadas no último dia 15 de julho, durante um encontro com integrantes do Comitê Juspovos, que reúne órgãos do Judiciário, Ministério Público Federal, Defensoria Pública, Tribunal de Contas e outras instituições.

“No passado o indígena não passava fome”

O pajé Joviel Maxakali comparou a situação atual das aldeias com a realidade vivida décadas atrás. “No passado tinha muita roça. Tinha arroz, feijão, mandioca, batata, milho. O indígena não ficava com fome. Agora nós indígenas não temos mais nada de roça”, lamentou.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Segundo ele, a falta de incentivo à agricultura tradicional compromete diretamente a alimentação das famílias.

“Precisamos de um projeto para fazer a roça de novo. Assim o indígena não passa fome”, pediu.

Para Joviel, a dificuldade não se limita à produção de alimentos. O acesso à saúde também piorou. “Aqui dentro não tem remédio bom. Tem remédio fraco. Quando uma criança passa mal demora muito para levar ao hospital”, afirmou.

O pajé lembra que, no passado, o atendimento era mais próximo da comunidade. “Antes o enfermeiro ia andando até a casa da pessoa doente e ficava junto até ela melhorar. Hoje isso não acontece mais“, reclamou.

A ausência de transporte agrava ainda mais a situação. “Agora não tem carro. Precisamos de transporte para os indígenas”, reivindicou. Segundo ele, até os pedidos de socorro demoram a ser atendidos. “Nós ligamos pelo celular e demora atender. Quando a criança está muito doente, demora para vir buscar. Isso é muito ruim para nós”, afirmou.

“Nós só queremos viver”: o pedido de socorro dos Maxakali em MG - destaque galeria
3 imagens
Indígenas pedem socorro ao Estado para resolver questões sanitárias, suicídios e pobreza
Maxakali em área de queimada dentro da aldeia onde vive
Criança Maxacali
1 de 3

Criança Maxacali

Ministério Público Federal/Divulgação
Indígenas pedem socorro ao Estado para resolver questões sanitárias, suicídios e pobreza
2 de 3

Indígenas pedem socorro ao Estado para resolver questões sanitárias, suicídios e pobreza

Ministério Público Federal/Divulgação
Maxakali em área de queimada dentro da aldeia onde vive
3 de 3

Maxakali em área de queimada dentro da aldeia onde vive

Ministério Público Federal/Divulgação

“Mataram nosso direito, mataram nossa Mata Atlântica”

A professora e liderança da Aldeia Escola Floresta Sueli Maxakali relaciona a crise enfrentada pelo povo indígena à destruição ambiental do Vale do Mucuri. “O Vale do Mucuri era do povo Maxakali e era Mata Atlântica. Hoje, a mesma ameaça que vemos na Amazônia chegou ao nosso território”, afirmou.

Ela conta que as mudanças começaram muito antes da atual exploração mineral. “Minha avó dizia que os rios eram limpos. Hoje o Vale inteiro sofre com a exploração da terra, do lítio e com a poluição. Isso invadiu todos os territórios do povo Maxakali”, disse.

Segundo Sueli, a perda da floresta provocou também mudanças profundas na alimentação tradicional.

“Antigamente existiam 33 espécies de abelhas. Hoje quase não existem mais. Nossas crianças comiam mel com batata, cará e inhame do mato. Era isso que fortalecia a imunidade delas. Hoje nós perdemos tudo isso”, explicou.

Ela afirma que o desaparecimento da Mata Atlântica teve consequências diretas para a saúde da população. “Quando mataram o nosso direito, mataram também a nossa Mata Atlântica. E junto com ela aumentaram a desnutrição, a diabetes e a mortalidade do nosso povo”, lamentou.

A professora também denuncia a dificuldade de acesso aos hospitais. “A transferência para outro hospital é muito difícil. Enquanto isso, a mortalidade continua muito alta entre o nosso povo”, afirmou.

Água imprópria, lixo e doenças

A crise hídrica é denunciada pelo professor e liderança da Aldeia Pradinho Marilton Maxakali. Ele afirma que um dos problemas mais graves enfrentados pelas comunidades é a qualidade da água.

“A água chega amarelada, com ferro. A gente toma essa água e dá dor de barriga. Todo Maxakali sofre com isso”, denunciou.

Ele também critica a ausência de coleta de lixo nas aldeias. “Na cidade passa caminhão recolhendo lixo. Na nossa aldeia tem muito lixo perto das casas e das torneiras. Isso cria doença para nós e principalmente para as crianças”, afirmou.

Segundo Marilton, até o preparo da alimentação infantil é afetado. “Tem mãe que prepara leite com essa água. Isso também pode trazer problemas para as crianças”, alertou.

Na Aldeia Escola Floresta, o pajé Isael Maxakali também reclama da precariedade do abastecimento. “Precisamos de água tratada, de água melhor para nossa comunidade. Quando acaba a energia, acaba a água também. Às vezes ficamos três dias ou até uma semana sem água”, contou.

Mesmo após melhorias realizadas recentemente, o problema continua. “Conseguimos melhorar um pouco o sistema de água, mas ainda não é suficiente. Quando a bomba queima, toda a comunidade fica sem abastecimento”, disse.

“Dois dos meus irmãos tiraram a própria vida”

Além da crise alimentar e sanitária, as lideranças chamam atenção para o sofrimento psicológico vivido nas comunidades. Marilton defende atendimento permanente em saúde mental. “Tem muito adolescente que fica isolado, usando bebida. Precisa de psiquiatra, de pessoas que conversem com eles e ajudem a melhorar a cabeça”, afirmou.

Em um dos relatos, revelou uma tragédia vivida por sua própria família.

“Dois dos meus irmãos tiraram a própria vida. Um morreu em maio e outro em junho. Isso me deixou muito triste. Precisamos fazer alguma coisa para proteger o povo Maxakali”, declarou.

O pajé Isael também demonstrou preocupação. “Hoje morreu muita criança. Também tem jovem tirando a própria vida. Esse problema é de saúde e nós precisamos fortalecer a nossa saúde”, afirmou.

Segundo ele, o sofrimento atinge até mesmo as lideranças espirituais. “O pajé também fica preocupado. O pajé pensa coisas ruins. O pajé pode até tirar a própria vida. Nós precisamos proteger os nossos pajés”, disse.

Para Isael, é preciso investir em projetos capazes de oferecer perspectivas aos jovens. “Precisamos buscar recursos para ocupar os jovens, fazer mutirão, plantar e cuidar de viveiros. Isso fortalece a comunidade”, afirmou.

Índios da tribo Maxakali
Transporte coletivo improvisado dentro para levar os indígenas para atendimentos médicos na cidade

Denúncias de exploração econômica

Marilton também denunciou práticas abusivas enfrentadas pelos indígenas nas cidades da região. “Tem comerciante que vende produtos muito acima do preço porque acha que o Maxakali não sabe. Um leite que custa R$ 20 é vendido por R$ 50”, afirmou.

O custo do transporte até os bancos também compromete a renda das famílias. “Tem gente que recebe R$ 700 ou R$ 900 e paga R$ 500 ou R$ 600 de frete. Depois sobra quase nada para comprar comida e roupa”, relatou.

“Os Maxakali fizeram um pedido de socorro”

Segundo o juiz do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) Matheus Moura Matias Miranda, a mobilização institucional começou após um apelo formal das comunidades indígenas. “Estamos reunidos no território Maxakali porque recebemos um pedido de socorro”, afirmou.

De acordo com o magistrado, as instituições encontraram uma grave crise humanitária.

“Os Maxakali clamam pelo direito mais simples e básico: o direito de viver”, declarou.

Ele informou que representantes dos três Poderes e das três esferas de governo foram acionados para construir respostas conjuntas. “Estamos ouvindo essas demandas e pensando soluções para que haja uma resposta efetiva do Estado brasileiro”, disse.

bananal aldeia maxakali
Pequeno bananal na aldeia MaxaKali

Tribunal promete responsabilizar gestores

Ao final da visita, o presidente do TCE-MG, Durval Ângelo Andrade, reconheceu que o Estado possui uma dívida histórica com o povo Maxakali. “Ainda temos uma grande dívida com o povo Maxakali. Os problemas da saúde, da nutrição, da segurança alimentar e da educação continuam recorrentes”, afirmou.

Segundo ele, as responsabilidades envolvem União, Estado e municípios. “Há uma dívida do governo federal, da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e da Funai. Há também uma dívida do governo do Estado e muitas vezes omissão dos governos municipais”, declarou.

Durval afirmou que o Tribunal intensificará as auditorias e cobrará providências dos gestores públicos.

“Ver crianças morrendo de desnutrição e fome, em um estado tão rico, é um desleixo muito grande. Isso agride qualquer consciência”, disse.

Ao comentar os casos de suicídio registrados nas comunidades indígenas, voltou a defender uma atuação imediata. “Histórias de desespero têm levado indígenas a pôr fim à própria vida. Isso é um absurdo”, afirmou.

E concluiu com um recado direto aos gestores públicos: “Hoje não é mais hora da palavra. É hora da ação. Quem não cumprir sua responsabilidade será cobrado e poderá ser punido pelo Tribunal de Contas. É hora de dizer basta ao que está acontecendo.”


Problemas relatados

As lideranças indígenas apontaram como principais desafios enfrentados pelas aldeias Maxakali:

  • Falta de incentivo à produção agrícola e insegurança alimentar;
  •  Escassez de medicamentos e demora no atendimento de saúde;
  • Ausência de transporte para deslocamento até hospitais e bancos;
  • Água de baixa qualidade e deficiência no saneamento básico;
  • Falta de coleta de lixo nas aldeias;
  • Crescente número de casos de sofrimento mental e suicídios entre jovens;
  • Alto custo do transporte e denúncias de preços abusivos no comércio das cidades da região.

As manifestações ocorreram durante visita institucional às aldeias Machacali e reforçaram a cobrança por políticas públicas permanentes capazes de garantir condições dignas de vida às comunidades indígenas do Vale do Mucuri.