Aldeia indígena Renascer Wakonã vai ganhar água tratada e eletricidade

Projeto do Procon-MG, “Nosso consumo, nossa voz”, orienta sobre direitos do consumidor e revela uma realidade de discriminação

atualizado

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aldeia Renascer Wakonã
1 de 1 aldeia Renascer Wakonã - Foto: MPMG

Belo Horizonte – A aldeia Renascer Wakonã, no distrito de Galena, pertencente ao município de Presidente Olegário, no Noroeste de Minas Gerais, vai ganhar água tratada e energia elétrica. A comunidade, com cerca de 100 habitantes, estava há oito dias sem água potável e apesar de os postes de luz já terem sido instalados, o povo Xucuri Kariri ainda não tem acesso à energia elétrica.

Durante um encontro promovido pelo projeto “Nosso consumo, nossa voz”, do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), na última sexta-feira (20/3), o promotor de Justiça de Presidente Olegário, Bruno Marques, se comprometeu a buscar soluções.

“Vamos instaurar um procedimento em relação à Cemig, porque já há um tempo muito grande de espera por essa ligação. A energia elétrica vai viabilizar o funcionamento da escola e o fornecimento de água, já que o bombeamento depende desse serviço”, afirmou.

Além das dificuldades estruturais, o preconceito ainda faz parte do cotidiano dos indígenas. Vanice, descendente da etnia Pankararu, relata que a avó foi expulsa da aldeia por ter se casado com um homem branco. A família vive há sete anos na aldeia Renascer Wakonã, mas as situações de discriminação persistem, especialmente no comércio local. “Quando a gente entra no supermercado, eles ficam olhando, colocam funcionário para seguir a gente. Isso, para mim, é discriminação”, desabafa.

Mais desafios

Novos problemas têm chegado à aldeia com o avanço do acesso à internet. O uso de aplicativos bancários levou para a comunidade situações cada vez mais comuns nos centros urbanos, como o endividamento.

Diante desse cenário, os participantes receberam orientações sobre seus direitos e formas de se proteger de práticas abusivas. O coordenador do Procon-MPMG, Luiz Roberto Franca Lima, alertou para a gravidade do problema.

“Em regiões com pouca informação e fiscalização, bancos utilizam práticas agressivas, oferecendo crédito a quem não tem condições de pagar. Isso pode levar a uma espécie de escravidão financeira. É fundamental que as instituições financeiras revejam essas práticas”, destacou.

Apostas on-line

As bets também contribuem para o endividamento na aldeia. Um dos depoimentos mais marcantes foi o da indígena Raquel Ferreira, que falou abertamente sobre o vício em apostas on-line.

“O Jogo do Tigrinho viciou o Brasil. Foi mais fácil porque foi no celular e atingiu tanto o rico quanto o pobre. Eu mesma gastei várias vezes o meu salário, peguei empréstimos e perdi tudo”, contou.

A roda de conversa também abordou a diferença entre consumo e consumismo, alertando os indígenas sobre armadilhas comuns do mercado. A equipe do Procon-MPMG orientou ainda sobre quais órgãos devem ser acionados em caso de práticas infrativas e levou uma boa notícia à comunidade: o Procon Municipal de Presidente Olegário será inaugurado em abril.

Projeto “Nosso consumo, nossa voz”

O projeto “Nosso consumo, nossa voz”, desenvolvido pelo Procon-MPMG, nasceu a partir da escuta de denúncias de práticas abusivas e situações de discriminação enfrentadas por povos indígenas em Minas Gerais. A iniciativa combina ações educativas, orientação sobre direitos do consumidor e articulação com órgãos públicos. Entre os principais instrumentos está a cartilha do projeto, produzida em linguagem acessível e com exemplos do cotidiano, que orienta as comunidades sobre como se proteger de abusos nas relações de consumo e sobre como fortalecer sua autonomia.

Com atuação direta nos territórios, o projeto já percorreu dez aldeias em diferentes regiões do estado, consolidando uma metodologia baseada na escuta qualificada e no diálogo intercultural.

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