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Minas Gerais

Entenda o caso do "sumiço" do acervo do Palácio das Mangabeiras, em MG

Fiscalização de deputados aponta obras, móveis, pratarias e mais de mil livros desaparecidos do palácio; comissão levará o caso à PF

06/07/2026 12:38, atualizado 06/07/2026 12:43
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TV Assembleia MG/ Reprodução
Comissão da ALMG aponta desaparecimento de peças históricas, cobra explicações e vai acionar a Polícia Federal

Belo Horizonte —  Uma fiscalização de deputados da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) apontou o “sumiço” de parte do acervo do Palácio das Mangabeiras (antiga residência oficial dos governadores na capital mineira), incluindo obras, pratarias, louças, móveis e livros. Na contramão, o governo do estado afirma que os itens foram devidamente catalogados e transferidos legalmente para outros órgãos públicos (leia mais abaixo).

Segundo informações divulgadas pela Assembleia Legislativa, além de obras de arte, desapareceram um aparador, uma mesa de jantar — com capacidade para até 40 pessoas —, os equipamentos da cozinha profissional do palácio e a biblioteca, que reunia 1.038 livros restaurados durante o governo de Antonio Anastasia.

Os deputados também argumentam que a antiga sala de presentes oficiais foi transformada em escritório. Dos móveis, restaram apenas uma mesa, duas poltronas, um sofá e um armário localizado em um dos quartos usados por funcionários.

Desde 2019, quando o então governador Romeu Zema (Novo) assumiu o cargo, o local que antes era a residência oficial do governador passou a ser usado como centro privado de exposições, abrigando eventos como CasaCor, sob o argumento que era um sinal dos privilégios dos políticos e que a medida reduziria os gastos.

O responsável atual pelo Palácio das Mangabeiras, João Grilo, informou, conforme relato da Assembleia, que os organizadores da mostra Casa Cor encontraram o imóvel praticamente vazio quando assumiram o espaço em 2019.

Utensílios usados em recepções oficiais estão entre os itens desaparecidos do acervo do Palácio das Mangabeiras.
Utensílios usados em recepções oficiais estão entre os itens desaparecidos do acervo do Palácio das Mangabeiras.

Em 16 de junho, o secretário de Estado de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira, disse que 44 obras estão sob a guarda da Polícia Militar e outras 187 peças permanecem com a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig).

O secretário também afirmou que algumas obras sofreram danos durante o armazenamento e precisaram ser restauradas. Além disso, disse que parte do acervo foi recolhida pelo Gabinete Militar.

Os órgãos mencionados, contudo, não detalharam quais itens estão sob sua responsabilidade e nem entregaram inventário das peças.

TCE é acionado

Após a fiscalização, o deputado estadual Leleco Pimentel (PT), integrante da comissão, protocolou uma representação junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), solicitando investigação.

Nesta segunda (6/7), o TCE-MG disse que o documento chegou e está “em análise”.

“A documentação está em análise quanto à admissibilidade na Presidência, verificando se as irregularidades apresentadas se referem à matéria de competência do controle externo, exercido pelo Tribunal. Caso seja aceito, se torna um processo na Casa e segue para um conselheiro relator”, diz nota do tribunal.

Segundo Leleco, a Codemig deverá esclarecer quais itens estão sob sua responsabilidade e informar o paradeiro dos demais. Ele afirmou ainda que vai realizar diligências no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), na Secretaria-Geral do Estado e recorrer à Justiça caso seja necessário.

Doação

Outro ponto questionado por Leleco é um documento que registra a doação de 63 itens de mobiliário decorativo à Secretaria-Geral do Estado, sem detalhar quais objetos foram transferidos. À época, a pasta era comandada por Mateus Simões (PSD), atual governador.

“Sabemos que mais de 60 foram doados, não sabemos quais e nem para quem. Gente, é um verdadeiro saque ao patrimônio dos mineiros e das mineiras”, declarou a deputada estadual Bella Gonçalves (PT), por meio das redes sociais.

Segundo a parlamentar, o desaparecimento dos bens compromete a preservação da memória do estado. “Nós estamos falando da memória do povo mineiro, de presentes recebidos por gerações de governadores que estavam no Palácio das Mangabeiras e que são valiosíssimos, valem milhões de reais e agora estão desaparecidos”, afirmou.

Comissão vai à PF

A Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais anunciou que vai encaminhar uma representação à Polícia Federal.

Procurada pelo Metrópoles, a Polícia Federal não quis se manifestar a respeito do caso. “A Polícia Federal não confirma nem comenta eventuais investigações em curso”, disse a corporação, em nota.

O que diz o governo de Minas

O governo do estado informou, em nota, que “os bens existentes no Palácio das Mangabeiras foram devidamente inventariados por ocasião da mudança de função do imóvel e destinados aos órgãos e entidades responsáveis por sua guarda, uso, conservação e controle patrimonial”.

“A destinação desses bens observou os procedimentos administrativos aplicáveis à gestão patrimonial da Administração Pública estadual, com os respectivos registros nos sistemas de controle do Estado. Parte dos itens integra atualmente o uso cotidiano de órgãos e entidades estaduais, enquanto outros permanecem sob guarda em locais apropriados e com acesso restrito a servidores autorizados”, diz o texto.

O Executivo estadual ainda argumenta que os itens permanecem identificados, registrados e submetidos aos mecanismos de controle patrimonial da administração pública estadual. “Também continua à disposição dos órgãos de fiscalização e controle para prestar novos esclarecimentos que se fizerem necessários”, acrescenta a nota.

A reportagem do Metrópoles, contudo, questionou a todos os mencionados (governo de Minas, Codemg, PMMG e Iepha-MG) sobre quais bens estão sob a tutela dos órgãos e se existe um inventário sobre a saída dos itens do palácio, mas não houve retorno sobre essas questões. Todos responderam com a mesma nota enviada pelo governo mineiro.