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Minas Gerais

Pequenas cidades de MG gastam R$ 108 milhões com shows em 2025

Município com 4,2 mil habitantes desembolsou R$ 880 mil em um único show; veja cidades e artistas que mais movimentaram verbas públicas

Thayná Schuquel13/06/2026 01:00, atualizado 12/06/2026 21:51
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Reprodução/Redes sociais
Pequenas cidades de MG gastam R$ 108 milhões com shows em 2025

Belo Horizonte — Municípios mineiros com até 5 mil habitantes empenharam R$ 108,7 milhões para a contratação de shows artísticos em 2025. Entre os casos que mais chamam a atenção está o gasto de Marilac, no Vale do Rio Doce, que abriga 4,2 mil moradores e desembolsou R$ 880 mil para uma única apresentação da cantora Simone Mendes.

O levantamento, realizado pelo Metrópoles com base em dados do Painel Suricato, do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), revela gastos milionários com apresentações musicais em cidades de pequeno porte.

O valor representa aumento em relação ao registrado em 2024, quando os mesmos municípios empenharam R$ 95,8 milhões para shows. Em apenas um ano, os gastos cresceram cerca de 13,5%.

Marilac lidera o ranking de despesas em 2025. Com cerca de 4,2 mil habitantes, a cidade empenhou R$ 2,28 milhões para a contratação de artistas. Na sequência aparecem Santa Bárbara do Tugúrio (4,2 mil habitantes), com R$ 2,21 milhões, Alvorada de Minas (4,1 mil habitantes), com R$ 1,75 milhão, Mathias Lobato (3 mil habitantes), com R$ 1,73 milhão, e Cascalho Rico (2,7 mil habitantes), com R$ 1,43 milhão.

As pequenas cidades que mais gastaram com shows em 2025

  • Marilac — R$ 2,28 milhões
  • Santa Bárbara do Tugúrio — R$ 2,21 milhões
  • Alvorada de Minas — R$ 1,75 milhão
  • Mathias Lobato — R$ 1,73 milhão
  • Cascalho Rico — R$ 1,43 milhão
  • Novorizonte — R$ 1,41 milhão
  • Medeiros — R$ 1,32 milhão
  • Miravânia — R$ 1,27 milhão
  • Santa Fé de Minas — R$ 1,19 milhão
  • Augusto de Lima — R$ 1,17 milhão

Entre os contratos de maior valor firmados no ano passado, o destaque é o show de Simone Mendes, contratado por R$ 880 mil em Marilac. Na sequência aparecem apresentações de Hugo & Guilherme, por R$ 654 mil, Joelma, por R$ 550 mil, além de João Gomes, com cachê de R$ 400 mil.

Os dados também mostram quais artistas mais movimentaram recursos públicos em 2025. O cantor de forró Guilherme Silva aparece na primeira colocação, com R$ 3,9 milhões em contratos somados. Bruno & Barretto vêm logo atrás, com R$ 3,2 milhões. A lista inclui ainda nomes conhecidos da música sertaneja e do forró, frequentemente contratados para festas de aniversário de municípios, exposições agropecuárias e festividades tradicionais.

Os artistas que mais faturaram em pequenas cidades

  • Guilherme Silva — R$ 3,91 milhões (17 municípios)
  • Bruno & Barretto — R$ 3,22 milhões (17 municípios)
  • Eduardo Costa — R$ 2,03 milhões (5 municípios)
  • Guilherme & Benuto — R$ 1,98 milhão (6 municípios)
  • Diego & Victor Hugo — R$ 1,93 milhão (6 municípios)
  • Luan Pereira — R$ 1,82 milhão (5 municípios)
  • Felipe & Rodrigo — R$ 1,78 milhão (10 municípios)
  • Clayton & Romário — R$ 1,77 milhão (7 municípios)
  • Brenno & Matheus — R$ 1,65 milhão (10 municípios)
  • Felipe Araújo — R$ 1,60 milhão (7 municípios)

Ao divulgar o painel, o Tribunal de Contas mineiro afirmou que o problema não está apenas no montante destinado à cultura, mas “na forma como os recursos vêm sendo aplicados”.

“Enquanto ações estruturantes, como preservação do patrimônio histórico, turismo e saneamento, recebem parcelas reduzidas do orçamento, uma fatia expressiva das verbas culturais é colocada à disposição para eventos pontuais e de curta duração”, alega o órgão.

Outra reflexão feita pelo TCE-MG diz respeito ao “piso de custo” do mercado de shows, “que não leva em consideração o tamanho do público ou mesmo a realidade financeira municipal”. Ou seja, para contratar artistas de grande apelo nacional, uma prefeitura pequena precisa desembolsar valores brutos muito próximos aos de uma cidade grande.

Ações de controle

O tribunal informou que, em conjunto com a Associação dos Municípios Mineiros (AMM), vai emitir uma instrução normativa para definir padrões, obrigações e proibições para os municípios sobre a realização de shows. Segundo o órgão, a medida tem efeito imediato e severo: se alguém descumprir o que está nela, pode responder a um processo administrativo e ser punido por descumprir uma norma.

Contratações na mira dos deputados

Os gastos com shows custeados por prefeituras também estão no centro de uma discussão na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Um projeto de lei apresentado pelos deputados Antonio Carlos Arantes (PL) e Professor Cleiton (PV) propõe limitar o uso de recursos públicos para a contratação de artistas, bandas e atrações em eventos promovidos pelos municípios.

A proposta estabelece um teto de R$ 500 mil por apresentação ou de 1% da receita corrente líquida da cidade, prevalecendo o menor valor. Para eventos de Carnaval e Réveillon, o limite seria dobrado. O texto também prevê que pelo menos 5% do valor destinado à atração mais cara seja reservado à contratação de artistas mineiros.

Durante audiência pública realizada na ALMG, o projeto recebeu apoio de parlamentares de diferentes partidos, produtores de eventos e representantes de municípios. Segundo os defensores da proposta, os cachês de artistas nacionais registraram forte alta após a pandemia, pressionando os cofres públicos e reduzindo recursos destinados à estrutura dos eventos.

“O artista leva o dinheiro todo da festa e sobra pouco para a estrutura. A coisa está desequilibrada”, afirmou o produtor de eventos João Wellington Esteves, que disse representar um grupo de 173 produtores favoráveis à regulamentação dos gastos.

Apesar do apoio, a proposta enfrenta questionamentos jurídicos. A AMM avalia que uma lei estadual pode encontrar obstáculos para impor limites às despesas das prefeituras, uma vez que a legislação federal atribui aos municípios competência para estabelecer regras sobre suas contratações. Ainda assim, os autores do projeto defendem que a medida pode ajudar a criar parâmetros para o uso de recursos públicos em shows e festividades.