BH: demolição de ciclovia da Afonso Pena divide opiniões
Após o anúncio de que a estrutura será retirada da via, moradores se dividiram nas redes sociais, enquanto ciclistas acionaram a Justiça

Belo Horizonte – A decisão do prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União Brasil), de demolir a ciclovia da Avenida Afonso Pena, no Centro da capital mineira, está dividindo opiniões. De um lado, a medida gerou críticas nas redes sociais e levou ciclistas a acionarem a Justiça. De outro, parte se manifestou favoravelmente à retirada.
“Primeira decisão acertada do prefeito! Devemos comemorar!”, escreveu um internauta. “Concordo! BH já tem gargalos demais no trânsito. Existem outros lugares para andar de bicicleta, já que esse não é o principal meio de transporte da maioria da população”, comentou outro.
Outro usuário chamou atenção para as dificuldades enfrentadas por motoristas que transportam pacientes para unidades de saúde da região. “Nós, motoristas da saúde que transportamos pacientes para o Hospital Evangélico, na unidade de oftalmologia, e precisamos embarcar e desembarcar pacientes na Afonso Pena, agradecemos. Parabéns, prefeito!”, escreveu.
Revolta
Moradores e ciclistas afirmam que a retirada da ciclovia representa um retrocesso. “Parabéns por incentivar a intolerância contra quem está de bicicleta”, escreveu um internauta. Outro questionou: “Como fica o ciclista que trabalha, mora e precisa se deslocar pela Afonso Pena? Grande absurdo”.
Já um terceiro comentário diz: “Para você que é ciclista: não exista nas vias que importam. Que tristeza, prefeito. Na contramão dos países onde você passa férias na Europa”.
O especialista
Para o especialista Silvestre Andrade, engenheiro civil e consultor em trânsito e transportes, a retirada da ciclovia tem pontos positivos e negativos. Se, por um lado, reduz o espaço para bicicletas e outros modais alternativos, por outro devolve uma faixa de circulação para carros, ônibus e caminhões, o que pode melhorar o fluxo do trânsito.
“Você perde um espaço destinado a esses tipos de veículos. Por outro lado, se considerar a mobilidade dos automóveis, caminhões e ônibus, retoma um espaço que foi retirado deles, voltando às condições anteriores de circulação e com menos restrições à fluidez do tráfego”, afirmou.
O especialista também avalia que a manutenção de ciclovias pode incentivar, ao longo do tempo, o uso da bicicleta.
“Não é uma coisa da noite para o dia. Não é hoje colocou e amanhã está lotado. Mas, na medida em que você mantém uma infraestrutura de ciclovias, as pessoas se sentem estimuladas a utilizar esse tipo de veículo, especialmente uma população cada vez mais preocupada com alternativas de mobilidade”, afirmou Silvestre Andrade.
Pedido de urgência e petição
O representante do movimento Ciclo Rota BH, Cristiano Scarpelli, informou que ciclistas acionaram a Justiça para tentar impedir a retirada da ciclovia. Segundo ele, já foi protocolado um pedido de urgência e uma ação popular questionando a legalidade da medida. O grupo sustenta que a estrutura está prevista em lei e foi construída com recursos públicos.
Além da disputa judicial, entidades ligadas à mobilidade urbana lançaram a campanha “Tá Pago? Executa!”, que pretende reunir 15 mil assinaturas em 15 dias para solicitar ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) a análise do caso.
Os organizadores argumentam que a maior parte dos recursos destinados à revitalização da avenida já foi executada e defendem a conclusão integral das intervenções previstas no projeto.
O que diz a prefeitura
A PBH disse, por meio de nota, que decisão de retirar a ciclovia foi baseada em estudos técnicos realizados desde o início da disputa judicial envolvendo a obra. De acordo com o município, uma reavaliação apontou que os impactos da estrutura sobre o trânsito da região não foram plenamente previstos nos estudos originais.
A administração argumenta que, no trecho entre a Praça da Bandeira e a Rua Trifana, a ciclovia ocupava cerca de 12% da largura da pista destinada aos veículos, reduzindo a capacidade operacional da avenida, que já registra sobrecarga nos horários de pico.
“Ao longo da via circulam diariamente mais de 40 linhas do transporte coletivo, que fazem mais de 3.600 viagens e transportam mais de 150 mil passageiros por dia. Além disso, circulam pela avenida diariamente cerca de 21 mil veículos”, disse.
Ainda conforme a nota, outro ponto considerado foi a proximidade da via a equipamentos de saúde de alta complexidade, como o Hospital João XXIII, situado a poucos metros do corredor, o que torna qualquer redução da capacidade viária um risco potencial ao tempo de resposta de ambulâncias e viaturas do Corpo de Bombeiros.
A reportagem do Metrópoles questionou a PBH sobre os custos de implantação e de retirada da ciclovia, mas não obteve retorno até a publicação.
Vai e vem na Justiça
Em abril de 2024, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pediu à Justiça a suspensão das obras. O órgão argumentou que o projeto não tinha o licenciamento necessário e que a ciclovia seria incompatível com as características da avenida.
Naquele mesmo mês, a Justiça rejeitou o pedido em decisão liminar. Apesar disso, a Prefeitura de Belo Horizonte optou por interromper os trabalhos.


