Gastronomia africana no DF: veja onde comer gostosos pratos diferentes

Casas apresentam, em seus menus, um tremendo orgulho da origem de seus donos: comida típica e sempre muito fresca

Júlia Bandeira/Especial para o MetrópolesJúlia Bandeira/Especial para o Metrópoles

atualizado 22/02/2019 18:55

Em Brasília, fugir do clássico – leia-se gastronomias europeia, chinesa e japonesa – é um risco. O público não é muito afeito a novidades, tampouco a comidas tidas como diferentes. Descobrir outras cozinhas, no entanto, é uma aventura que pode levar, sem querer, o comensal às suas origens. É o caso das culinárias africana e quilombola, que não só têm pratos parecidos com os nacionais, mas também usam insumos muito familiares ao consumidor, como mandioca e carne-seca.

A comida quilombola é, por definição, brasileira. Trata-se, afinal, de comunidades criadas no país e que mantêm viva até hoje sua cultura e, consequentemente, gastronomia. A empresária Helena Rosa viveu no quilombo calunga de Cavalcante (GO) até os 13 anos, quando veio a Brasília com a mãe para terminar o ensino básico. Duas décadas depois, formada em contabilidade, ela estava frustrada com a vida profissional. O sentimento culminou na inauguração de seu empreendimento, o Crioula Café, no Guará II.

O conceito de um café quilombola, no entanto, não partiu de Helena. “A ideia foi do consultor que contratei para me ajudar a pensar no estabelecimento. A partir daí, ficou muito mais fácil elaborar a decoração e o cardápio”, lembra a empresária. A casa abriu em junho de 2018. Na decoração, além de pinturas e fotografias de artistas negros, destacam-se cordas, cimento queimado, adobe, tijolos à mostra e lamparinas antigas.

Júlia Bandeira/Especial para o Metrópoles
Helena Rosa adaptou a tradicional matula quilombola para seu Crioula Café: preparo com cuscuz em vez da farinha de mandioca

 

A montagem do cardápio do Crioula foi um verdadeiro resgate da infância de Helena. A casa oferece pamonha, bolo de chocolate com baru e a famosa matula. Na tradição quilombola, o prato é um preparo de farinha de mandioca com os ingredientes disponíveis na cozinha: carne-seca, tomate e queijo, por exemplo.

Eu não ia servir farofa no café, não é mesmo? Adaptei a receita com o cuscuz para o menu

Helena Rosa

Entre os pratos disponíveis, o que remete à vida de Helena no quilombo é simples: chá calmante quilombola – com erva-cidreira, manjericão e erva-doce – com uma fatia de queijo fresco. “O som que ouço quando mastigo o queijo me leva de volta à minha infância. Quis fazer comidas do dia a dia do brasiliense, com um toque quilombola. O waffle é servido com geleia de frutas do Cerrado e o brownie leva banana-da-terra”, descreve.

 

Durante a entrevista de Helena para o Metrópoles, uma senhora de cabelos grisalhos pediu licença, entrou na casa e encomendou o carro-chefe: um café no coador de pano. Quando ouviu a barista despejando os grãos num moedor antigo, saltou da cadeira para ver. “Vocês vão moer na hora, como antigamente? Que chique!”, reparou.

A clientela é fã do coadinho. “Tem gente que lacrimeja, lembra-se de como a mãe fazia café. Eu nunca imaginei causar reações assim no meu trabalho, é muito legal”, comemora a quilombola. No entanto, Helena contou um segredo: prefere o grão na Hario V60.

África no prato
Outro colecionador de reações emocionadas é o nigeriano Chidera Ifeanyi. Engenheiro eletricista formado pela Universidade de Brasília (UnB), o imigrante é o proprietário do Simbaz, restaurante africano em plena Asa Sul. Em uma cidade com tantas embaixadas e uma comunidade universitária forte originária do continente, não é difícil adivinhar quem são seus maiores frequentadores. “Meus clientes africanos vêm aqui quando sentem saudade da comida da mãe”, comenta.

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles
O nigeriano Chidera Ifeanyi abriu o restaurante Simbaz com a missão de divulgar a gastronomia e a cultura de países africanos

 

No Simbaz, além da bagagem nigeriana trazida por Chidera, é possível encontrar influências de outros países do continente africano nos pratos. O chef da casa é Abdoul Rashid Akilade, um imigrante vindo do Togo que trabalhou como cozinheiro na Costa do Marfim e veio ao Brasil a convite da embaixada de Gana. À equipe ainda se soma um imigrante camaronês, Mouhamadou Sakir Diop, e também trabalha na casa o irmão de Chidera, Kelvin. “Fizemos um mix de países no cardápio”, brinca o proprietário.

O nigeriano conta que, quando chegou ao Brasil, provou abóbora pela primeira vez e se apaixonou. No entanto, ao conhecer a gastronomia tupiniquim, descobriu pratos muito parecidos com os de casa, como acarajé, abará, arroz carreteiro, baião de dois e buchada de bode. No Simbaz, é possível provar o akara, bolinho de feijão-branco frito no óleo de soja e consumido sem recheio, diferentemente do primo baiano carregado no dendê.

O carro-chefe da casa é o churrasco nigeriano. Chidera conta que essa era sua maior saudade da terra natal. Nos tempos de UnB, o empresário costumava competir com os amigos brasileiros pelo título de mestre-churrasqueiro.

Bem diferente do que estamos habituados, o prato servido no Simbaz consiste em finas fatias de contrafilé temperadas com “amendoim e outros segredos”, assadas por 15 minutos. “Não penso em trazer carnes exóticas, como a de leão ou de antílope. Prefiro importar cultura”, argumenta.

 

O Simbaz não é, no entanto, um restaurante convencional. O cliente não deve esperar um serviço muito rápido: o tempo de saída dos pratos varia muito, porque cada um é feito do zero, na hora do pedido. A comida chega fumegando à mesa, mas leva uma boa meia hora até isso. “Aqui, queremos conhecer e convencer o cliente. Não quis lotar a casa, porque assim eu não consigo explicar a comida. O início foi difícil, mas conseguimos conquistar uma clientela”, comemora Chidera.

Um exemplo é o fufu, espécie de bolinho de farinha (o cliente escolhe entre milho, mandioca, inhame e arroz) que deve ser comido com a mão, em um processo – muito lúdico para o brasileiro, habituado a talheres – apresentado à mesa pelo proprietário.

A casa também funciona como um centro de convivência e de divulgação de cultura africana. Além de cursos de dança e do idioma yorubá, o Simbaz ainda promove um cineclube de filmes vindos do continente e, a cada 15 dias, propõe uma roda de discussão sobre masculinidade negra. “Eu sou apaixonado pelo Brasil e pela Nigéria. Quero mudar a imagem que o brasileiro tem da África e a imagem que o africano tem do Brasil”, garante.

Mais uma opção
Outro restaurante africano fica fora do Plano Piloto: a edição brasileira da franquia African’s Grill funciona no Núcleo Bandeirante desde outubro de 2018. Chefiado pelo engenheiro agrônomo congolês Jonathan Fumupamba Sasakanda, o estabelecimento trabalha com sistema de bufê e, em breve, vai ofertar almoço a quilo e jantar à la carte.

Hugo Barreto/Metrópoles
Para ajudar na cozinha, Jonathan Fumupamba Sasakanda emprega cozinheiros do Congo, Benim e Etiópia. “São culinárias com ingredientes mais aceitos pelos brasileiros”, explica

 

Atualmente, há lojas do African’s Grill em Orlando, nos Estados Unidos, e em Paris, na França. Após conversas com os donos da rede, Jonathan trouxe a franquia para Brasília com o intuito de divulgar a cultura africana na cidade. No cardápio, uma clara mistura dos pratos nacionais com os africanos: arroz, feijão, mandioca, frango e carne ganham temperos novos e composições diferentes.

African’s Grill
Na Praça Central, Lote 4B, embaixo do Hotel Ilhabela. Telefone: (61) 3264-5339

Crioula Café
QI 31, Loja 25, Guará II. Telefone: (61) 99164-3920

Simbaz – Culinária Afro e Bar
412 Sul, Bloco D, Loja 15. Telefone: (61) 3346-7540

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