YouTube: mais uma regra pode atrapalhar criadores de conteúdo

Novamente, por causa de problemas com anúncios, o site busca uma solução que afetará produtores da plataforma

Francois G. Durand/Getty Images

atualizado 06/11/2019 19:23

Em meio ao acordo de US$ 170 milhões entre a FTC (Federal Trade Commission) e o YouTube, está escondida uma cláusula que promete proteger as crianças que usam o aplicativo – embora já exista o app gratuito YouTube Kids. O acerto inclui mudanças nas políticas e sistemas do serviço de vídeos em pontos da publicidade infantil e anúncios segmentados.

Como outras alterações recentes, essas mudanças podem afetar seriamente criadores de conteúdo, após a implementação, marcada para 1º de janeiro de 2020. No entanto, até lá, os youtubers provavelmente tentarão reverter a decisão da plataforma.

Coppa e o YouTube

A Coppa é uma lei americana criada em 1998 que restringe operadores de sites e serviços on-line de coletar informação pessoal de usuários com menos de 13 anos de idade sem a permissão dos pais ou responsáveis. Em 2013, a FTC alterou a lei e acrescentou:

  • Expandir a definição de “operadores” para incluir criadores de conteúdo em plataformas suportadas por anúncios (como o YouTube);
  • Expandir a definição de “informação pessoal” para incluir identificadores persistentes (como os cookies), com os quais anunciantes podem identificar quais propagandas são mais eficazes para quais usuários (uma prática que gera anúncios segmentados).

Durante os últimos seis anos, esses acréscimos nunca foram direcionados a youtubers, mas, com o novo acordo, o FTC deixou claro que eles visam reforçar os regulamentos a criadores individualmente. Por conta disso, a partir do dia 01/01/2020, criadores de conteúdo terão de identificar se o vídeo que estão compartilhando é “direcionado a crianças” ou não. Ao determinar que a produção é voltada ao público infantil, o vídeo em questão será proibido de mostrar anúncios segmentados. A mesma identificação terá de ser feita também em publicações prévias.

Como isso afeta criadores?

De acordo com um estudo feito pelo TubeFilter, em associação com alguns criadores de conteúdo, os youtubers que desabilitam os anúncios segmentados perdem grande parte da renda. O site pediu que os criadores removessem o “Internet-Based Ads”, uma função na aba “avançada” do Creator Studio. De acordo com os testes, um vídeo que não mostrava esse tipo de publicidade perdeu entre 60% e 90% da renda gerada pelas visualizações.

Ou seja, se um criador ganhou R$ 100 em um vídeo com anúncios segmentados, ele passaria a faturar entre R$ 10 e R$ 40 sem esse tipo de propaganda.

Claro que o criador de conteúdo pode escolher não remover os anúncios e apenas mentir. No entanto, essa pode ser uma decisão que custaria muito mais. Para cada vídeo que o FTC determina ser “direcionado a crianças”, o produtor terá de pagar uma multa de US$ 42 mil. Para determinar quais estão infringindo as regras, o YouTube planeja usar um algoritmo de “machine-learning” para encontrar programas “direcionados a crianças” e identificá-los mesmo sem que os criadores os tenham determinarem como tal. No passado, esses algoritmos não tiveram muito sucesso.

O que é “direcionado a crianças”?

Dá para imaginar que certos vídeos como Baby Shark ou o mais novo vídeo de Ryan’s World podem ser “direcionados a crianças”, mas as determinações de identificação escritas pelo FTC têm sido criticadas por serem muito amplas. Diversos conteúdos feitos por criadores podem ser classificados por alguém como “atraente” para crianças – mesmo sem uma determinação explícita do criador.

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As análises da FTC incluem 10 fatores a serem checados para a determinação de conteúdo voltado a crianças:

  • O conteúdo do site ou serviço;
  • O conteúdo visual do vídeo;
  • Vídeos de personagens animados ou atividades e incentivos direcionados a crianças;
  • Música ou outro tipo de conteúdo auditivo no vídeo;
  • Idade de modelos/personagens que aparecem nos vídeos;
  • A presença de celebridades infantis ou celebridades que têm apelo a crianças no vídeo;
  • Linguagem ou outra característica do site ou serviço on-line;
  • Se os anúncios que aparecem no site ou serviço são direcionados a crianças.

Ainda por cima, o FTC quer ampliar as definições para incluir conteúdo “atraente para crianças”, que poderá incluir qualquer coisa pela qual os pequenos possam se interessar – de desenhos animados até um gameplay de Minecraft. Basicamente, um criador que faz conteúdo direcionado a adolescentes ou adultos também poderá ser avaliado, correndo risco de desmonetização a partir do começo de 2020.

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