Como a desmonetização no YouTube está acabando com pequenos criadores

Tudo começou no meio do ano de 2016, após uma denúncia de um jornal. De lá para cá, as coisas pioraram

atualizado 06/10/2018 22:29

O YouTube revolucionou o modo de consumo midiático. Fundada há mais de uma década, em 2017, a companhia conseguiu ganhar mais de US$ 100 bilhões. Executivos da plataforma atribuem o sucesso financeiro ao sistema de espaço publicitário. Porém, nos últimos anos, algumas mudanças no algoritmo ameaçam a força criativa que mantém os consumidores.

Os criadores do YouTube recebem seus salários através do Google AdSense, um sistema disponível para usuários com mais de 1 mil inscritos e 4 mil horas de exibição nos últimos 12 meses. Os “conteudistas” perceberam, em meados de junho e agosto de 2016, que grande parte de seus vídeos foi aleatoriamente “desmonetizada”, ou seja, as produções tiveram uma brusca redução na remuneração.

O dinheiro é distribuído de acordo com quantos cliques uma propaganda recebe ao ser colocada em um vídeo. Quanto mais pessoas tiverem acesso aos vídeos, mais delas podem clicar nos anúncios. Quando o banner é acessado, o anunciante recebe a cobrança, e parte desse dinheiro é transferida para o criador do conteúdo. As mudanças no algoritmo em 2016 suprimiram a distribuição dos posts desmonetizados, derrubando o engajamento e o lucro dos autores.

O primeiro youtuber de grande influência a falar sobre isso foi Philip DeFranco, em agosto de 2016. A atualização do algoritmo veio a partir de uma denúncia do The Wall Street Journal contra o YouTube, pois alguns vídeos com conteúdo odioso e de organizações terroristas estavam associados a propagandas de grandes companhias, como AT&T, Verizon e Pepsi. Quando os anunciantes ameaçaram retirar os anúncios da plataforma por completo, o serviço de compartilhamento de vídeo agiu de forma rápida, mas não consultou os usuários.

Em um post no blog do YouTube, Philipp Schindler (diretor de negócios da Google) respondeu às críticas dos anunciantes, afirmando que a plataforma iria “implementar mudanças que dariam às marcas mais controle sobre onde seus anúncios aparecerão”. Depois do drama envolvendo o youtuber Pewdiepie, o serviço introduziu, mais uma vez, novas políticas sem avisar os criadores.

O YouTube reforçou que os conteudistas não poderiam incluir temas como discurso de ódio e violência explícita nos vídeos. Porém, canais como H3H3 Productions e Philip DeFranco começaram a perceber que, embora a maioria dos criadores não coloquem esses assuntos em seus posts, ainda estavam sendo desmonetizados.

Ao tentar agradar seus anunciantes, o YouTube está destruindo a vivência da comunidade de criadores de conteúdo que havia atraído

Nerd City

Em novembro de 2017, o canal Nerd City fez o upload de um vídeo explicando alguns números que apareciam nos códigos das páginas dos conteúdos desmonetizados. Segundo eles, “os dados impediriam um vídeo de conseguir anúncios e dificultariam a acessibilidade do público ao canal”. Os criadores deram crédito a Sealow, que compartilhou os resultados de uma pesquisa envolvendo mais de 800 mil vídeos, feita em colaboração com um time de pessoas. Os códigos, na verdade, apontavam temas “desmonetizáveis”.

Stella Woo/Metrópoles
Os códigos ficavam escondidos na página do vídeo e as mudanças não foram comunicadas aos criadores

 

A hipótese gerada pela pesquisa também apontou que os vídeos não somente estão sendo desmonetizados como também suprimidos na página inicial, na barra de pesquisa e em páginas relacionadas.

Criadores começaram a se referir ao período de crise como o “adpocalypse”. Depois de críticas, os executivos confirmaram as mudanças no algoritmo, mas começaram a perceber que vídeos de pessoas como Jimmy Kimmel, quando discutiam os mesmos temas debatidos em canais menores, não eram desmonetizados.

Brasil
No Brasil, o problema não é diferente. Em um vídeo, Felipe Neto acusa o jornal The Wall Street Journal de ser responsável pela onda de desmonetização, pois foi o veículo que descobriu os anúncios em vídeos com discurso de ódio.

Segundo ele, “o YouTube não se pronuncia e não fala absolutamente nada”. O jovem cita criadores como Kéfera e Whindersson como exemplos de youtubers que tiveram seus vídeos desmonetizados.

Ainda, no post ele divulga quanto dinheiro ganha por cada vídeo. Antigamente, faturava entre US$ 1 mil e US$ 3 mil por produção, enquanto agora recebe entre US$ 100 e US$ 200 – mesmo em postagens com mais de 1 milhão de visualizações.

“Eu não estou aqui para reclamar por mim. Já tenho meu sustento. Posso passar a ganhar zero dólares e vou continuar gravando vídeo todo dia aqui no canal. Mas e os produtores menores, que são completamente dependentes do AdSense? Essas pessoas, a partir de hoje, estão fodidas”, completa.

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