Sete diretores de teatro para celebrarmos no Distrito Federal

A lista deveria ser muito maior, mas vale prestarmos atenção nestes nomes que transgridem gerações e transformam as plateias

A autora e diretora Cristiane Sobral / DivulgaçãoA autora e diretora Cristiane Sobral / Divulgação

atualizado 04/10/2019 17:33

É preciso pulso firme, potência e uma mente inquieta para reger artistas nos palcos. Muitos não lembram, mas performances incríveis, geralmente, são resultado de direção incansável e criativa. Além de pensar na montagem e no desenrolar do espetáculo, os diretores e diretoras arrancam o que há de melhor nos intérpretes e os elevam a um plano superior de trabalho e entrega. Na hora dos aplausos, reverencie o elenco, mas não deixe de direcionar sua reação a quem orquestrou o todo.

Qualquer lista é injusta por natureza, mas prefiro sempre celebrar do que me omitir, mesmo assumindo o débito com nomes igualmente memoráveis. Nesta cidade, de entidades como Hugo Rodas e Irmãos Guimarães, estes diretores e diretoras abaixo alcançam a plateia de forma única e convulsionam o espectador. Topa ser o próximo?

Cristiane Sobral

Primeira negra formada em interpretação teatral pela Universidade de Brasília (UnB), Cristiane Sobral (foto em destaque) se tornou uma  referência na narrativa do protagonismo negro e na cultura afro. Escritora e professora, Cristiane também se destaca como dramaturga e diretora de teatro.

Na esfera cênica, onde cuida da Cia. de Arte Negra Cabeça Feita, ela reforça o debate e reflexão acerca do racismo e da negritude. Entre outros, destacou-se pelas peças Acorda Brasil, Uma Boneca no Lixo e pela premiada Esperando Zumbi. Seja pela literatura, seja pelo teatro, Cristiane é sempre uma lição.

Jonathan Andrade

É longa a lista de atores e grupos que tentam ter Jonathan Andrade na direção. Um dos mais concorridos diretores da atualidade, Andrade também mergulha no universo do pensamento negro e das mazelas sociais, sempre provocando falta de fôlego em quem senta na plateia.

Ora colérico, ora poético, Andrade cria, como poucos, ambientes de afeto em uma sala de espetáculos. Que o digam os trabalhos Tsunami, Autópsia, Caipora ou Poeira. Difícil falarmos em um “belo tapa na cara”, mas – sem incorrer em qualquer alusão à violência física –  é exatamente o que Andrade nos dá. E com a mão cheia.

Sartory/Divulgação
Autópsia, com direção de Jonathan Andrade
Zé Regino

Mestre da palhaçaria e cânone do teatro brasiliense, Zé Regino segue se renovando após décadas de atuação. À frente do genial Grupo Celeiro das Antas, Zé fala todas as linguagens. Subverte Shakespeare, alcança uma plateia inteira de bebês e coloca muito adulto para repensar posturas e o cotidiano. Não à toa, tornou-se uma referência para gerações de estudantes e profissionais do teatro. Entre os trabalhos mais conhecidos, o infantil Panapanã, o desconcertante Saída de Emergência e o delicioso Sonho de Uma Noite de Verão.

André Lima/Divulgação
Cena de Panapanã, com Zé Regino
Fernando Villar

Celebrado professor e orientador da UnB, Fernando Villar escreve, ao meu ver, um histórico legado ímpar como principal nome em atividade da interpretação teatral no meio estudantil. Ao final de cada semestre no curso de artes cênicas, é revigorante acompanhar as montagens e provocações com os alunos.

Os resultados costumam emocionar (uma das mais emotivas experiências que tive, enquanto espectador, foi assistindo a um desses trabalhos dirigidos por ele no Cometa Cenas). Capítulo fundamental da cultura do DF, Villar fez história com os espetáculos Você Tem Uma Caneta Azul Pra Prova? e Vidas Erradas. O olhar poético e a pungência como diretor seguem fortes nos dias atuais, a exemplo do recém-dirigido Mar Sem Beira, da Cia. Nós No Bambu.

Denis Camargo

Se a gente fala em UnB, Hugo Rodas vem logo à mente. Se o papo for sobre a faculdade Dulcina, são os Irmãos Guimarães quem vem à tona. E quando o assunto é o curso de teatro do Iesb, Denis Camargo assume o babado. Nome reverenciado no departamento, Denis também se relaciona bem com o meio teatral da cidade, principalmente por conta das iniciativas lúdicas e tão bem costuradas, que resultaram em espetáculos como Entre Cravos e Lírios e Édipo Rei – O Rei dos Bobos, ambos amplamente premiadas e consagradas.

Divulgação
Édipo Rei – O Rei dos Bobos, com direção de Denis Camargo
Alice Stefânia

Não é por falta de “pensar fora da caixa”, prometo, mas grandes diretores da cidade parecem estar atrelados ao universo acadêmico. Assim como Cristiane Sobral, Denis Camargo e Fernando Villar, Alice Stefânia concentra uma parte majoritária da sua atuação no meio universitário.

Na UnB, onde leciona há uma década, ela também traz intensas colaborações na área de direção e dramaturgia, respondendo por ótimas montagens ao longo dos semestres. Integra ainda o Teatro do Instante, no qual divide os trabalhos com nomes como Giselle Rodrigues e Bidô Galvão, dois dos maiores patrimônios das nossas artes. Como diretora ou como atriz, Alice deu o que falar em peças como Mundaréu, O Olho da Fechadura e Zaratustra.

Similião Aurélio

Embora seja amplamente conhecido pela faceta de ator, em inúmeras incursões pelo teatro, cinema e tevê, Similião também não deixa por menos como diretor. Distanciando-se da postura mais rígida e clássica do papel, ele ganha espaço entre artistas mais jovens e produções contemporâneas.

Recentemente, justamente ao investir numa linguagem mais receptiva e menos convencional (mas sem qualquer prepotência de realizar o “atípico”, tão comum), levou os prêmios de melhor direção e dramaturgia no Prêmio Sesc do Teatro Candango, pela peça O Novo Espetáculo – Tudo Está À Venda, do grupo Tripé. Entre outros, vale relembrar ainda os trabalhos Ao Pó e O Prestidigitador.

Bônus: Lucelia Freire

A vida dedicada ao teatro implica em sacrifícios. Foi assim que Lucelia Freire deixou, parcialmente, um dia a dia inteiramente dedicado aos palcos para poder cuidar de uma escola de teatro, a No Ato Produções. Graças aos deuses dionisíacos, Lucelia ainda nos brinda como atriz, em desempenhos impecáveis e cirúrgicos.

Foi ela quem me conduziu pelo mais intenso e importante laboratório de atuação a qual já me submeti, provocando uma catarse inédita e transformadora na minha postura enquanto ator (além de crítico e setorista de teatro, eu encaro um palco de vez em quando). Eu também a reverencio enquanto diretora.

Diego Bresani / Divulgação
A grandiosa Lucelia Freire (à direita), em cena de Copo de Leite. Capaz de nos levar ao inimaginável