O melhor e o pior do Cena Contemporânea 2019

Os artistas de Brasília foram a grande força motriz do festival internacional de teatro, que chega ao fim da 20ª edição

Nityama Macrini / DivulgaçãoNityama Macrini / Divulgação

atualizado 30/08/2019 8:35

Não faz muito tempo, escrevi com todas as letras: “Não vá ao Cena Contemporânea”. Mas como minha palavra não vale muita coisa, muitos desobedeceram e deram o ar da graça. Eu mesmo me contrariei e me vi “obrigado” a frequentar um dos maiores eventos da cidade, principal festival de teatro do Centro-Oeste. Acabei assistindo quase tudo, e saí com algumas impressões entre o que rolou e o que não prestou nesta 20ª edição do Cena Contemporânea. Caso você não tenha ido, insista na leitura. Talvez anime de ir no próximo ano. Ou, talvez, abandone de vez essa ideia.

Melhor: Brasília

A cada edição, segmentamos os espetáculos do Cena como internacionais, nacionais e locais. Possivelmente um erro, já que causa a impressão de que “local” seria menor. E, definitivamente, não é. Neste ano de vacas magras e de uma lista restrita de convidados de fora, ficou ainda mais evidente a força do teatro brasiliense. Um salve a todos os artistas deste quadrado que se desdobram incansavelmente para levar arte para você, mesmo quando você o acusa de viver à custa do Estado. Pois eles vivem à custa de lhe gerar cultura. Agradeça.

Agradeça à samambaiense Gleide Firmino (foto principal), melhor atriz desta edição. Sem palavras que a façam justiça. Andrea Beltrão concordaria.

Agradeça à Micheli Santini, que defendeu um longo e verborrágico texto em Prometea e, duas noites depois, apresentava outro texto em Festa de Inauguração. Agradeça, inclusive, ao Teatro do Concreto justamente pelo espetáculo Festa de Inauguração, das melhores peças a passar pelo Cena, capaz de um feito raro: tornar o dito e temido “teatro experimental” (e toda sua verve segregadora “para iniciados”) tão convidativo. Uma porrada de afeto, generosidade e acolhimento, acessível a todos, como há tempos não se via. Festa de Inauguração e o Teatro do Concreto representam o melhor da arte cênica do Distrito Federal. Dever cívico de cada candango (re)pensar a história da cidade, moldada pelo (Teatro de) concreto.

Lucas Oliveira / Divulgação

Micheli Santini na ótima Festa de Inauguração, do Teatro do Concreto. A atriz encarou dois exigentes trabalhos no festival. Brasília bem representada

Espetáculos nacionais

Entre os nome nacionais, vale toda celebração ao trabalho potiguar A Invenção do Nordeste, do grupo Carmin, um exemplo indiscutível de que a cultura nordestina é das melhores coisas desse país e o quanto ainda eles ainda têm a nos ensinar.

Seria injusto não mencionar as entregas da já citada Andrea Beltrão, que abriu os trabalhos do Cena com sua voraz Antígona – em uma aula de metateatralidades -, e do celebrado Gilberto Gawronski, que justifica todo o burburinho em torno de A Ira de Narciso.

(In)acessibilidade

Por um lado, temos que louvar a responsabilidade de se levar a programação para as regiões administrativas, com entrada gratuita, facilitando o acesso do público e fomentando plateia. Assim como a inciativa de se valer do teatro como forma de ocupação cultural e ressignificação social, a exemplo da peça Teorema 21, que tomou conta de um prédio inacabado no Paranoá, ou do trabalho Sonhares, apresentado no Jardim Botânico.

Por outro lado, no centro da cidade, ainda predomina a cultura dos famigerados convites, que impedem o público em geral de prestigiar vários trabalhos ao favorecer burocratas, funcionários e supostas “autoridades” que estão ali (no CCBB, e não em Ceilândia, claro) pelo protocolo, mas jamais pelo teatro. Em Antígona, que teve apresentação única, um incômodo espelho da realidade: do lado de dentro, políticos e personalidades em posse dos convites com lugar marcado. Do lado de fora, o povo fez fila e não entrou. Sem lugar, sem se misturar. (Eu entrei como imprensa e não sei ao certo se foi um privilégio ou um constrangimento).

Ainda no que diz respeito à acesso, em termos mais gerais, o festival acerta ao acolher diversas linguagens e diferentes plateias, mas uma pena que trabalhos de dança, circo ou folclore popular ainda entrem sob uma ótica velada de cota, com poucos representantes em uma vasta programação.

Curadoria

Como se lê, foram muitos trabalhos escolhidos a dedo, que provocaram catarses deliciosas, grandes lições e experiências de um prazer quase sexual, mas também não faltaram aventuras indigestas. Fiquei me perguntando se deveria mencionar nominalmente os trabalhos descartáveis, as iniciativas imaturas e as propostas canastronas que deram as caras, mas não pensei em qualquer colaboração significativa que a mera menção pudesse trazer, ao menos que eu pudesse seguir adiante por tantos outros parágrafos de forma a debater e argumentar construtivamente, mas, desconfio, foram poucos os leitores a chegar até aqui. Digo, no entanto, só a título de desabafo, que o Cena deste ano me presenteou com deleites intermináveis, mas também com uma das piores sessões de teatro da minha vida (viu como valeu a leitura?).

Fica o convite para que o festival se debruce menos sobre figuras carimbadas e repetidas, e se jogue mais aos confins teatrais deste Distrito Federal. Há figuras incríveis por aqui, que talvez a gente ainda não conheça.

Diego Bresani/Divulgação

 

 

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