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Teatro

Crítica: "Teatro dos Seres Imaginários" convida espectador à ilusão

O público vive a sensação de enfrentar seus medos em meio à escuridão

14/04/2017 05:30, atualizado 15/04/2017 09:18
Divulgação
Crítica: “Teatro dos Seres Imaginários” convida espectador à ilusão

Uma experiência teatral inusitada e gratuita está em cartaz em Brasília, até 16 de abril, no Teatro da Caixa. Embora os diversos elementos que compõem o “Teatro dos Seres Imaginários” sejam velhos conhecidos de quem tem intimidade com as artes cênicas, o resultado é radicalmente original.

Para começo de conversa, a inspiração da peça vem de um livro de monstros escritos para embasbacar adultos. E o resultado é uma fábula visual encenada por bonecos manipulados, que confrontam o espectador com uma sensação de estranhamento e a necessidade de olhar no fundo dos olhos de cada um dos seus temores.

A encenação, que dura apenas dez minutos, se dá dentro de um quadrado, uma espécie de caixa escura, montada perto da entrada do espaço cultural. O público, de dezoito pessoas por sessão, acessa a “sala de espetáculo” por baixo – entra agachado e se encaixa em uma abertura no tecido preto, do tamanho de um bambolê. A poucos metros uns dos outros, os espectadores se sentem gigantes que invadem a intimidade de um mundo paralelo, frágil e secreto.

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Quando as luzes se apagam, a poucos metros de cada rosto, tem início o desfile de marionetes. Manipuladas a partir do teto da estrutura, os títeres surgem e desparecem dos quatro cantos do cenário, criando suspense na plateia, em um jogo inteligente de utilização do espaço.

De imediato, somos apresentados ao protagonista, um senhor de mente fértil, e à curiosa fauna que brota de sua imaginação. Baseado no O Livro dos Seres Imaginários, uma bem-humorada e rebuscada espécie de enciclopédia de zoologia fantástica escrita por Jorge Luís Borges e Margarita Guerrero, o espetáculo traz um desfile de seres estranhos, criaturas coletadas em mitos, lendas e clássicos da literatura mundial.

Da imaginação do herói, surge um peixe metálico alado, um gato de sorriso irônico e olhos que brilham no escuro, uma cegonha feita de retalhos coloridos, e mais alguns animais de difícil descrição (melhor mesmo é vê-los em cena, ou lê-los na obra original). Na penumbra do “palco”, não há uma ação concreta, mas a partilha de um momento com aqueles exóticos espécimes surgidos de um criativo delírio artístico.

Assim como no livro, esse universo cênico onírico, quase místico, não é direcionado às crianças. Naturalmente, um espetáculo encenado em uma plataforma tão diferente, repleto de marionetes sobrenaturais, desperta o interesse infantil. A meninada tem uma experiência rica, mas completamente diversa dos adultos. Em cena, há partituras diferentes para públicos distintos.

A criação minimalista do diretor gaúcho Cacá Sena aproxima espectadores, e na penumbra de seu teatro de tecido, todos se vêem confrontados pelo desconhecido, a estranheza, o que intriga e assusta. A riqueza da experiência e a sensorialidade se sobrepõem à necessidade de contar uma história com começo, meio e fim. Sob os voos rasantes de fantásticas criaturas aladas, crianças e adultos se encontram, em estado de contemplação das diferenças.

Teatro dos Seres Imaginários
Na Caixa Cultural, até 16 de abril, das 17h às 21h. Classificação indicativa 10 anos. Entrada franca

Crítica: "Teatro dos Seres Imaginários" convida espectador à ilusão