Entenda como os algoritmos fizeram artistas apostarem em singles e EPs
Estratégia de lançar conteúdos mais curtos está alinhada a tendências de mercado e consumo
atualizado
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Nos primórdios do mercado fonográfico, quando o disco de vinil reinava soberano, o single era o único formato possível. A tecnologia não havia avançado o suficiente para colocar mais de uma música nos cilindros de cera e discos manuais, o que só mudou a partir dos anos 1950. A partir daí, cada vez mais músicas foram adicionadas aos álbuns, dando origem ao extended play, o EP, e mais tarde ao long play, que armazenava horas de música e deixou os formatos menores em segundo plano por algumas décadas.
Na era do streaming, no entanto, o EP e o single voltam com força impulsionados pela lógica de plataformas como o Spotify e o Deezer e pelas novas tendências de comportamento e consumo.
Um levantamento divulgado pelo Deezer no ano passado, com 8 mil usuários nos Estados Unidos, França, Alemanha e Brasil, mostra que metade dos entrevistados escuta menos álbuns hoje do que há 10 anos. E 40% disseram preferir playlists a dar play no álbum de um determinado artista. As razões são muitas e vão desde a falta de tempo do ouvinte aos próprios músicos que, na visão dos usuários, já não produzem discos como antes.
Claro, existem os saudosistas que defendem que a melhor forma de se conhecer a fundo um artista é com a imersão em um álbum completo. Mas em mundo dominado por playlists forjadas por algoritmos e catalogadas conforme o humor dos ouvintes, os singles e EPs têm oferecido mais vantagens às plataformas e aos artistas.
Segundo Dani Ribas, socióloga, especialista em comportamento de público e diretora da Sonar Cultural Consultoria, todo o “ecossistema digital” só existe em função da faixa. “Estamos na era das Big Techs, na era da atenção. A gente não consegue prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. A lógica é a produção acelerada de conteúdo e música é conteúdo”, analisa.
Ela ressalta que enquanto um artista demora um ano para produzir um álbum, é possível lançar vários singles e EPs no mesmo período. Esse volume faz com que as plataformas, que também estão disputando a atenção do público, ganhem mais.
“Se as empresas não podem abrir mão novidades, porque o modelo de mercado dela é justamente oferecer conteúdo novo, rápido e acessível por um preço menor, é claro que elas vão priorizar, por estratégia, o single ou EP”
Dani Ribas, socióloga, especialista em comportamento de público e diretora da Sonar Cultural Consultoria
Essa é a receita para que as assinaturas dos serviços de streaming experimentem uma crescente constante, inclusive na pandemia. Só no 1º semestre de 2020, o aumento foi de 35%.
No ano passado, pressionado para alterar a lógica de pagamento do Spotify, o CEO da empresa jogou a responsabilidade para os artistas, incentivando-os a produzir mais e mais. “Você não pode gravar música uma vez a cada três anos e achar que isso é suficiente”, disse, gerando uma onda de críticas.
O recado, segundo Dani, não poderia ser mais claro: “Essa fala pegou mal, mas o que ele quis dizer, basicamente, é: produzam, se não a minha plataforma perde a relevância”.
Estratégia para viralizar
Para além das plataformas, os artistas, sobretudo em início de carreira, dependem do formato para garantir lugar cativo nas paradas de sucesso.
“Os EPs têm como objetivo, em sua grande maioria, o consumo imediato e focado de determinadas faixas. Desta forma, quanto mais consumo tem, mais o artista cresce nos charts. O mesmo acontece com os singles”, explica Paulo Pimenta, CEO da Bpmcom, empresa de marketing artístico que agencia estrelas como Anitta, Ferrugem, Pedro Sampaio, Maria Rita, Majur, Pedro Sampaio e outros.
Ele reforça que papel dos álbuns completos é diferente. “Contam uma história e tem como maior objetivo apresentar a imagem de um artista e consolidá-la. Claro que para os independentes isso acaba sendo caro, portanto, a escolha de lançar uma música por vez e aproveitá-la ao máximo acaba sendo uma estratégia que traz mais retorno”, completa.
A cantora Gloria Groove, dona do hit Coisa Boa, que já bateu a marca de 50 milhões de reproduções no Spotify, começou a chamar atenção em 2016. De lá para cá, lançou apenas um álbum. Conquistou o público com ele e outros dois EPs — Alegoria, em 2019, e Affair, em dezembro de 2020 — além de sete singles como artista principal, fora as contribuições com os outros músicos.
Em conversa com o Metrópoles, ela explica porque optou pela estratégia. “Vejo o formato EP como uma forma de passar adiante a ideia de ‘nova era’ musical, mas de modo mais expresso e sucinto. Com a chegada dos streams, em que o desempenho dos singles costuma praticamente ditar o ritmo dos acontecimentos, o EP nos dá a possibilidade de explorar uma pequena seleção de bons singles com mais agilidade e num curto período de tempo”, opina.
Apesar de ter crescido em uma época em que artistas ainda eram vistos e conhecidos por seus trabalhos em um álbum completo, Gloria afirma que depois de trabalhar dois EPs visuais, viu o “quanto este formato permitiu entregar tudo que gostaria sem a sensação de estar deixando de trabalhar músicas excelentes”.
“Sendo uma drag queen, o trabalho visual sempre acaba tendo uma importância enorme pra que eu consiga imprimir minha identidade por completo. Por isso, sempre busquei muita inspiração nas estratégias de lançamento de grandes ícones do pop como Beyoncé, Rihanna, Lady Gaga, Nicki Minaj… O formato EP acaba por me auxiliar no ajuste dessas referências de lançamento no formato e velocidade de hoje para melhor desempenho nas plataformas”, pondera Groove.
O albúm que o brasileiro gosta
A pesquisa feita pelo Deezer, mencionada no início da reportagem, mostra que o Brasil ainda consome mais álbuns completos do que a média global. Cerca de 20% dos entrevistados brasileiros afirmaram ter escutado 15 álbuns ou mais no mês anterior à pesquisa.
Uma das razões para o hábito não ter se perdido por completo por aqui está ligado ao sucesso de um ritmo que ainda aposta bastante no formato: o sertanejo. Mais de 40% dos brasileiros ouvidos na pesquisa indicam o gênero como seu preferido na hora de escolher ouvir um disco inteiro.
Antes de chegar ao álbum, no entanto, os representantes do sertanejo não têm mais como escapar dos lançamentos compactos. “Estar sempre na mídia e com novidades sobre sua carreira cria uma imagem forte, consistente e relevante para um artista. Isso influência em todas as possibilidades que o mercado oferece”, conclui Paulo Pimenta, da Bpmcom.










