Edney Silvestre lança livro e compara 2019 a 1964: “Espelho deformado”

O Último Dia da Inocência volta ao ano do golpe militar para narrar trajetória de jovem jornalista em meio a turbilhão político

Leo Aversa/DivulgaçãoLeo Aversa/Divulgação

atualizado 16/08/2019 20:21

Mais do que nunca, os ares de 1964 estão presentes no Brasil de 2019. Afinal, a polarização política dá o tom do dia a dia em todo o país e mantém a temperatura alta em Brasília, o centro do poder. É nesse clima tempestuoso que Edney Silvestre lança em agosto seu novo livro, O Último Dia da Inocência, totalmente ambientado no dia 13 de março de 1964, data em que o então presidente João Goulart fez um perigoso comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, para anunciar a reforma agrária e a nacionalização de empresas norte-americanas.

A obra é centrada em um jornalista iniciante, que, indiferente às conspirações políticas que eclodem por todos os cantos do Brasil, segue a dica de um experiente fotógrafo em busca de um furo jornalístico e testemunha um assassinato. Ao se dar conta de que nada é o que parece ser e ninguém é quem diz ser, ele se torna o principal suspeito do crime e, desesperadamente, tenta encontrar uma prova de sua inocência percorrendo o Rio de Janeiro em busca de alguém que o ajude. Enquanto isso, tropas do Exército, conspiradores e manifestantes vão se reunindo no centro da Cidade Maravilhosa, deixando o clima cada vez mais explosivo na República.

Autor do best-seller Se Eu Fechar os Olhos Agora – que foi adaptado como minissérie na TV Globo, exibida em abril de 2019 –, Edney Silvestre mistura a história do Brasil com a do jovem jornalista numa narrativa repleta de reviravoltas e complôs, conduzindo o leitor por uma trama vertiginosa.

Na obra estão personalidades reais, que marcaram a época, como Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, João Goulart e sua esposa, Maria Thereza, além de acontecimentos marcantes, como o já citado Comício da Central do Brasil, o suicídio de Vargas, o incêndio da boate Vogue e a construção de Brasília.

O que existe do Edney nesse protagonista jovem que sonha em ser jornalista?

Quando me mudei de Valença (RJ), no interior, para o Rio de Janeiro, aos 16 anos – três a menos que meu personagem-narrador –, fui morar num quarto de empregada no bairro do Catumbi, o mesmo bairro onde o narrador mora, numa vaga de pensão. O quarto em que eu vivia era pouco mais do que um armário e a única janela. Esse é um dos meus pontos de contato com ele. Há outros. A visita à redação do Correio da Manhã, por exemplo, eu também fiz.

Mas ainda era secundarista à época. Conheci ali duas pessoas que admirava e continuo a admirar: Carlos Heitor Cony e Otto Maria Carpeaux. Mas o livro não é autoficção e nem autobiografia disfarçada. Os elementos da vida real apenas me ajudam a ancorar minha ficção na realidade.

A trama na qual o protagonista se envolve vai ficando mais elaborada e mais apertada a cada nova informação que ele descobre. É uma leitura vertiginosa, daquelas de não largar o livro.

Eu escrevo e edito, escrevo e edito, continuamente. Para mim escrita de catarse não funciona. Comecei a pensar no romance, em seguida a fazer anotações e pesquisas, no início de 2017. Em outubro do mesmo ano escrevi a primeira versão do primeiro capítulo e já “encontrei” o personagem titubeante, tentando evitar lembrar-se do acidente que matou sua família e sem saber por onde começar a procurar a história que pudesse abrir-lhe as portas da carreira no jornalismo, com que sonhava.

Logo no início também surgiu o fotógrafo Amarantes, que teria fotografado Getúlio Vargas imediatamente após o suicídio e que logo se transformaria em mentor do narrador.

E foi uma grande pesquisa, não?

As pesquisas me ajudaram muito a movimentar o narrador pela cidade, do centro ao subúrbio, de lá à zona sul, de volta ao centro etc. Linhas de ônibus, hábitos cariocas dos anos 1950 e início dos anos 1960, paradas de sucesso nas rádios populares, a propaganda radiofônica convocando trabalhadores para o Comício da Central, tudo partiu de informações pesquisadas ao longo de meses, muitas confirmadas durante o processo de escrita e checadas depois também.

Tudo referente às organizações nazistas na Escandinávia, assim como os complôs que vinham sendo tecidos para derrubar João Goulart, inclusive com ajuda do então embaixador americano, tudo pode ser confirmado em documentação da época.

Por que você escolheu escrever esta história? Por que esse personagem de início tão frágil e ingênuo? De que forma ele se insere na sua trajetória de romancista?

Desde Se Eu Fechar os Olhos Agora, a influência da história sobre nossas vidas pessoais me interessa. Não seria possível compreender o assassinato de Anita sem buscar as raízes no escravagismo que fez a riqueza do Vale do Café, nem entender o percurso de Ubiratan sem retornar às torturas da ditadura de Vargas, ou à euforia desenvolvimentista da era JK. Assim também utilizei o pano de fundo das Diretas Já e do sequestro da poupança do governo de Fernando Collor para cercar a trama do sequestro de um menino inocente e mudo em A Felicidade é Fácil.

Falei dos expatriados pela crise econômica e dos exilados pela ditadura militar através do percurso de Paulo e Barbara, em Vidas Provisórias. O narrador de O Último Dia da Inocência é como nós, como todos os brasileiros, tocados ingenuamente para cima e para baixo, seduzidos por políticos populistas, servindo aos interesses dos mesmos grupos poderosos que comandam o Brasil desde o início da República – e mesmo antes.

Não é a primeira vez que você mistura ficção e realidade. O que te atrai nessa mescla?

Somos o resultado do que os governantes – de esquerda, direita, centro, mandantes equilibrados ou dementes – querem que sejamos. Quanto mais falarmos de nossa realidade, mais chance teremos de transformá-la. É nossa chance. E tem demorado tanto.

Em que fontes históricas você bebeu para reconstruir esse dia tão específico da nossa história, o Comício da Central do Brasil em 13 de março de 1964?

Há mais de uma década eu venho pesquisando e estudando esses tempos, especialmente do Estado Novo para cá, passando pela Segunda Guerra Mundial, o governo de Juscelino, a maluquice do Jânio Quadros, a inabilidade do Jango, os anos de ditadura militar, o caos dos anos de José Sarney e Collor, a hiperinflação, a esperança – ilusória ou não – representada pelas eleições de Fernando Henrique e Lula, os tropeções de Dilma Rousseff, a dança de dervixe de Temer e a avalanche Bolsonaro.

O que mudou para a elite em meio a tudo isso? Nada. O comício de 13 de março de 1964 era a concretização de uma real ameaça para o status quo. A situação do Comício da Central me fascina: o caos, as promessas, as possibilidades, tudo já encaminhado para um grande fracasso.

Quando narra a cena do palanque no Comício da Central do Brasil, você cita situações muito específicas daquele evento. Há quase uma intimidade com os personagens reais. Como você construiu isso?

Pesquisa, pesquisa, pesquisa. Tudo o que cito sobre a movimentação no palanque está documentado em fotos, filmes, livros, revistas e jornais. Com exceção de um personagem-chave naquele capítulo, além do narrador, evidentemente. Até a saída de Tancredo Neves do palanque, ofendido por Leonel Brizola, é baseada em pesquisa. Assim como a extraordinária beleza da primeira-dama, Maria Thereza Goulart, quase vinte anos mais nova do que o presidente. Ah, a roupa que ela usa é, integralmente, retirada da pesquisa.

Roberto Filho/Brazil News
Edney Silvestre em lançamento de seu novo livro, no Rio de Janeiro

A história envolve uma conspiração para matar um presidente. Não é algo muito irreal?

Havia milícias sendo treinadas para enfrentar eventuais forças legalistas. Havia uma frota americana no Caribe chamada Operação Brother Sam, pronta para desembarcar marines em nossa costa, entre outras armações para derrubar Goulart. Pelo menos um plano para assassiná-lo estava em curso. Iria acontecer em Belo Horizonte, com lançamento de granadas sobre o palanque onde Jango discursaria, assim como dois atiradores de elite que disparariam nele, enquanto outros dois, com metralhadoras, fariam o mesmo, avançando no meio da multidão.

O grupo se autodenominava Novos Inconfidentes e era comandado por um militar, o coronel José Lopes Bragança, conforme conta a historiadora e cientista política Heloisa Starling no livro Os Senhores das Gerais – Os Novos Inconfidentes e o Golpe de 1964 (editora Vozes, 1986). O assassinato de Jango só não aconteceu porque estava marcado para 21 de abril e Goulart foi derrubado 20 dias antes, por outros militares.

De todos os personagens reais envolvidos na sua história, um se destaca. Parece mais real, talvez por ser mais frágil em meio a tantos homens poderosos: a primeira-dama Maria Thereza Goulart. Por quê?

Maria Thereza Goulart era muito jovem, tinha apenas 23 anos e estava no meio de todo esse redemoinho, acompanhando o marido e pai de seus filhos, rodeada por homens dez, vinte, trinta, quarenta anos mais velhos, raposas políticas capazes de se movimentar com habilidade num universo de perfídia e traições inteiramente desconhecido da belíssima menina, criada entre um convento e uma cidade do interior.

O Brasil era apaixonado por ela. Maria Thereza sofreu muito depois do golpe militar. E diziam que, apaixonada por Jango, sofria enormemente com as constantes traições conjugais do marido.

Por que você não deu nome ao seu protagonista?

Eu bem que queria, mas ele nunca revelou seu nome.

Você acha que a atmosfera do livro se assemelha ao clima que vivemos atualmente no Brasil e no mundo?

Vivemos numa época de grandes dúvidas e desinformação no Brasil, sem saber o que é verdade ou mentira, num país dividido, polarizado, onde o ódio e a intransigência têm prevalecido. Parece, para mim, um espelho deformado dos tempos conturbados que agitavam os Brasil em março de 1964.

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