Como publicar livros na internet: escritores tentam driblar crise

Autores usam plataformas digitais variadas para lançar obras de forma autônoma sem mediação de agentes ou editoras

Moisés Dias/Arte/MetrópolesMoisés Dias/Arte/Metrópoles

atualizado 18/05/2019 1:26

Com o mercado editorial em crise e o avanço do e-commerce, escritores de todo o país vêm se reinventando para manter suas obras na cena literária. Se as dificuldades para chegar às grandes editoras aumentam a cada dia, as ferramentas de autopublicação de e-books estão de portas abertas aos autores estreantes. Na mesma onda, literatos consagrados abraçam novas plataformas em busca de liberdade criativa e autonomia para gerir os próprios textos.

O novo formato de negócio conquistou escritores de Brasília, que encontraram na autopublicação um meio eficaz de alcançar leitores do mundo inteiro. É o caso da brasiliense Marta Fagundes, 41 anos, mais conhecida pelos aficionados por leitura como M.S Fayes. “Eu escolhi esse pseudônimo para driblar o preconceito que algumas pessoas têm com romancistas nacionais”, explica.

 

Marta já havia publicado dois livros em editoras quando decidiu testar o Kindle Direct Publishing (KDP), plataforma da Amazon criada globalmente há dez anos, mas em funcionamento no Brasil desde o final de 2012. “Foi a sequência de uma trilogia. Eu tinha publicado o primeiro por uma editora e eles não quiseram dar continuidade aos dois últimos, então optei pelo digital”, relembra.

O sucesso dos e-books intitulados Irresistível e Magnifífico foi tão grande, que Fayes decidiu desengavetar escritos até então só disponíveis em seu blog pessoal. Em 2016, veio o primeiro best-seller, Por Trás da Fama, que ultrapassou 1 milhão de leituras em pouco mais de um mês no KDP.

Na mesma época, Marta conseguiu de volta os direitos de Absoluto, o primeiro livro da trilogia publicado em versão impressa. A escritora então decidiu reeditar a obra e lançá-la digitalmente.  O texto também entrou para a lista de mais vendidos do serviço. “Foi quando vi que poderia ter um belo retorno financeiro com a autopublicação. Fiz várias viagens internacionais e participei de feiras literárias ao redor do mundo, uma das minhas paixões, só com a receita dos e-books”, conta.

André Borges/Metrópoles
A brasiliense M.S Fayes é autora best-seller do Kindle Direct Publishing (KDP)

 

Vitrine
Com a experiência vitoriosa da autopublicação, a brasiliense voltou a ser procurada pelas editoras e até conseguiu fechar contrato de exclusividade com três delas: Pandorga, Qualis e The Gift Box. “Hoje em dia as empresas ficam de olho em quem está em alta na internet. Os editores até perguntam os números de downloads dos nossos e-books”, revela.

Para Marta, o caráter democrático da autopublicação é o grande benefício do modelo. “Todos podem realizar o sonho de ter seus textos lidos”, pondera. Mas a autora também alerta para alguns pontos negativos. “O único problema é o vazamento dos textos. Temos que aprender a lidar com isso, pois acontece mesmo. Mas até nisso vejo algo de bom, já que os autores querem ter seus livros lidos pelo maior número de pessoas. Essa pirataria virtual, de forma torta, ajuda a divulgar nosso trabalho”, completa.

JP Rodrigues/ Metrópoles
A visibilidade da publicação digital de Anderson Souza garantiu ao brasiliense o primeiro contrato com uma editora

 

Com o escritor Anderson Souza, 30 anos, o KDP também serviu de vitrine para as editoras. Depois de três anos recebendo recusas das empresas de publicação tradicionais, o autor optou por dar ao seu primeiro romance, Fumaças Bailarinas no Salão da Liberdade, uma versão digital. “Eu corri bastante atrás, mas não tive retorno. Algumas editoras se interessavam mas preferiam não se envolver com as questões polêmicas que eu abordo no título”, lembra o autor, que utiliza o pseudônimo de Devin.

Para Souza, a visibilidade da internet deu frutos quase que imediatos. Poucos meses após lançar o livro na KDP, conquistou o primeiro contrato com a editora Autografia que, além de reeditar a edição impressa, também relançará uma digital. “O melhor da autopublicação é você ver o resultado do seu trabalho no mundo. Ver que o tempo dedicado ao livro não foi em vão”, conclui.

 

Revolução no mercado literário
Além do KDP, existem atualmente outros seis sistemas de autopublicação muito utilizados no país: Bookess, Clube de Autores, Publique-se (Saraiva), Writing Life, E-galáxia e Google Play. Em todos eles, um dos principais atrativos é a possibilidade de ganho que varia entre 35% e 70% dos royalties da publicação, valor maior do que o oferecido aos escritores pelas editoras tradicionais.

Segundo a gerente do KDP no Brasil, Talita Taliberti, cerca de 30% dos livros mais vendidos pela Amazon são provenientes da autopublicação. “A gente acredita que no mercado literário as figuras mais importantes são o leitor e o autor. Por isso, a grande revolução da autopublicação é facilitar essa conexão entre esse dois protagonistas”, explica.

De acordo com Taliberti, o perfil de usuários do serviço vem mudando. “Claro que no início a gente começou como uma alternativa para os escritores que não conseguiam entrada nas vias tradicionais. Mas hoje temos vários exemplos de autores consagrados, que poderiam até escolher a editora na qual gostariam de lançar seu livro, mas decidem autopublicar”.

É o caso de nomes como o de Paulo Coelho, Augusto Cury e o do filósofo Mario Sérgio Cortella. “É uma maneira de eles terem mais controle sobre as suas obras. No KDP, conseguem acompanhar em tempo real as vendas, a performance. Podem editar ou atualizar o produto a qualquer momento. Têm total controle sobre a obra”, considera a gerente da Amazon Brasil.

Moisés Dias/Arte/Metrópoles

MOISÉS DIAS/ARTE/METRÓPOLES

 

Últimas notícias