Uma notícia pegou, de surpresa, os brasilienses frequentadores de livrarias da capital federal. A única unidade da Fnac em Brasília, localizada no ParkShopping, fechou as portas na última terça-feira (11/9). Esta foi a quarta loja da franquia a encerrar as atividades no país, e será seguida pelo fechamento de outras três: a do Shopping Morumbi, na capital paulista; a do Shopping Parque Dom Pedro, em Campinas (SP); e a do ParkShopping Barigui, em Curitiba (PR).

A atual crise no comércio varejista de livros impressos é um reflexo das recorrentes transformações no mercado livreiro nos últimos 20 anos. As primeiras a sofrerem com os avanços tecnológicos foram as livrarias de bairro. O negócio familiar que já havia perdido terreno para as megastores sentiu o peso da concorrência com os sites de venda de livros. Não demorou para as grandes redes também serem afetadas pelas novas plataformas, e sofrerem com a queda nas vendas.

A pesquisa mais recente do setor, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), e encomendada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) mostra o desempenho do mercado editorial nos últimos 12 anos.

De acordo com a análise, houve redução de 21,03% na produção e vendas de livros nos últimos 12 anos (2006-2017).”Sem dúvida, as vendas pela internet têm impactado na crise das livrarias. Até porque o e-commerce abre uma concorrência e pratica descontos que são incompatíveis com os preços do mercado”, ressalta Marcos da Veiga Pereira, presidente do Snel.

A aposta equivocada na diminuição dos preços é outro fator importante para a atual performance negativa. “Os empreendedores do setor acreditaram que conseguiriam atingir um número maior de compradores, e, consequentemente cresceriam pelo volume”, conta Marcos da Veiga Pereira. Porém, o aumento da inflação, fruto da crise econômica de 2015,  prejudicou a estratégia dos empresários. “Eles não conseguiram mais reajustar os preços e passaram a ter prejuízos”, explica o presidente, em entrevista ao Metrópoles.

Convivência harmônica
Ricardo Garrido, gerente-geral de Aquisição de Conteúdo para Kindle da Amazon Brasil, ressalta que o e-commerce surge como mais uma possibilidade ao leitor que encontra dificuldades para encontrar pontos de venda. “Particularmente, adoro frequentar livrarias e existem muitas onde eu moro, em São Paulo. No entanto, apenas 1,4 mil municípios brasileiros contam com uma loja de livros física, e em todos esses locais o e-commerce surge como uma ótima alternativa”, pontua.

Na contramão das lojas físicas, as plataformas digitais de vendas de livros seguem crescendo. Se em 2012 a Amazon possuía um acervo de 13 mil e-books, atualmente o site conta com mais de 150 mil títulos em português. “Hoje, a maioria das editoras lançam os livros no formato digital quase simultaneamente ao impresso”, afirma o gerente-geral.

Segundo Garrido, a economia é um dos pontos que levam os consumidores a comprarem on-line: uma obra na internet chega a custar até 30% menos se comparada ao mesmo título em um livraria tradicional. De acordo com o livreiro, se há uma concorrência com as lojas, é na disputa pelo tempo dos consumidores. E, nessa seara, o e-commerce também sai ganhando. “As pessoas estão reservando cada vez mais momentos para acessar as redes sociais e acaba sendo muito cômodo poder tirar, nem que sejam 10 minutos, para ler ali mesmo no celular ou tablet”, deduz.

Ainda assim, Garrido acredita que os dois mercados possam não só conviver harmonicamente, como impulsionar um ao outro. “Nós temos uma ferramenta de autopublicação onde autores jovens conseguiram chamar a atenção das grandes editoras depois do sucesso de suas obras no meio digital. As editoras usam como um filtro, veem quem está bem na internet e investe”, explica o gerente da Amazon.

Reinvenção dos espaços tradicionais
Desde 1997 no mesmo endereço, a Capital das Letras (402 Sul) não foi afetada, seja pela crise econômica, ou pelo crescimento tecnológico. Especializada em literatura jurídica, a livraria possui outras oito franquias espalhadas pelo país, em cidades como Cascavel, Pato Branco e Curitiba, no Paraná, e em São Paulo. Até o fim de 2018, o grupo pretende inaugurar mais duas lojas, em Fortaleza e em Recife.

“Para nós o momento é oportuno, pois investimos no mercado de nicho, com atendimento diferenciado. Quem tentar concorrer com a internet vai ser engolido, não tem jeito. O que nós buscamos é oferecer o que o e-commerce não tem: o atendimento personalizado”, garante Rafael Saad, de 37 anos, um dos sócios da rede.

Na internet o consumidor é só mais um número, um algorítimo. Aqui ele é humanizado, cada um com seu interesse único respeitado"
Rafael Saad, sócio da Capital das Letras

A equipe, formada por funcionários com mais de 10 anos de experiência no mercado editorial, é um dos diferenciais. “O nosso público chega aqui procurando por obras e autores para defender teses muito específicas. Nós ajudamos o leitor a encontrar exatamente o que ele precisa. Na internet o comprador só vê a capa e, no máximo, uma sinopse, e muitas vezes se decepciona”, revela Saad, que também investiu em serviço de entrega à domicílio. “Se o cliente quer comodidade, nós temos”, brinca.

Adepto aos espaços tradicionais, o advogado e professor universitário Oswaldo Othon de Pontes Saraiva diz só comprar pela internet quando não encontra o que quer nas livrarias. “Aqui eu já estabeleci uma relação de amizade com as atendentes. Elas sabem dos meus interesses, me avisam das novidades, me ajudam na busca. Nada disso encontro em site”, pondera. Pai de três filhos, ele conta que apenas o mais novo, de 17 anos, prefere e-books. “É coisa da geração, mas os outros dois só leem os impressos”, reflete.