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Da fuga dos pais das barbáries do regime nazista à criação da maior rede de livrarias do Brasil, passando pela censura da ditadura militar e pelos desafios de formar novos leitores, Pedro Herz, dono da Livraria Cultura, revela esses e outros segredos em entrevista ao Metrópoles. O escritor esteve em Brasília para o lançamento da autobiografia O Livreiro, na última quarta-feira (7/3), na unidade de seu império das letras no CasaPark (Guará).

Com prefácio de Contardo Calligaris, o convite para o livro partiu da editora Planeta. “Eu sempre pensei que um dia devesse contar essa história, mas era um daqueles sonhos sem planejamento concreto. Recebi o convite e me senti muito honrado. Eles confiaram em mim sem ler meu texto. Aí, topei, assinei o contrato e entreguei em tempo hábil”, explica Pedro Herz, filho de Eva e Kurt e atual presidente do Conselho de Administração da Livraria Cultura.

O incentivo de amigos e familiares também foi fundamental para encorajar Pedro a dar vida ao projeto. “Eu fui muito motivado e isso é gostoso. Infelizmente, não pude citar todos. Agora, com o livro nas ruas, ver o reconhecimento é bem prazeroso”, avalia.

Bruno Pimentel/Especial para o Metrópoles

Pedro Herz autografa unidades de O Livreiro

 

Registro histórico
A vida da família Herz caminha lado a lado com momentos marcantes da política nacional. Por exemplo, ele e seus parentes foram proibidos de vir ao Brasil pelo presidente Getúlio Vargas. “Assim que fugimos da Alemanha, fomos para a Argentina, pois Getúlio proibiu qualquer refugiado de entrar no país. Só muito tempo depois conseguimos o visto e viemos para cá”, conta.

Em 2017, completaram-se 70 anos desde que Eva Herz deu início, na garagem de sua casa, na rua Alameda Lorena, em São Paulo, ao embrião da atual Livraria Cultura, principal rede da América Latina. A crise pós-guerra mundial exigia a participação da esposa de Kurt no orçamento familiar.

A matriarca, então, comprou 10 obras e começou a alugá-las. “Os livros eram escritos em alemão, e eram alugados à comunidade de refugiados e fugitivos da perseguição do regime nazista, assim como nossa família”, relembra Herz. Lidar com a censura dos anos de chumbo brasileiros também não foi nada fácil para o empresário. “Não fui preso, mas fui interrogado várias vezes pela ditadura militar, apenas porque eu vendia O Capital, de Karl Max”, revela.

De acordo com o autor, nenhum detalhe da trajetória até a ascensão foi omitido da autobiografia. “Nós passamos por tragédias dentro da livraria. Como a morte de um estudante que foi atacado por um jovem doente mental. Está tudo registrado”.

Contudo, alegrias e experiências inesquecíveis aconteceram com mais frequência. Entre elas, conhecer o pai de Anne Frank durante os anos em que viveu na Suíça; ou ter Vinícius de Moraes autografando o livro Falso Mendigo, em 1978.

Bruno Pimentel/Especial para o Metrópoles

Pedro Herz garante que momentos ruins da livraria não foram omitidos do livro

 

Mercado literário
Para o empresário, nada tem desafiado mais o mercado literário do que a falha na formação de novos leitores. “A tecnologia não afugenta ninguém. Ela só dá alternativa para o leitor”, acredita. “O Brasil vai muito mal na escola. A cada ano, tira piores notas. O país não cresce e isso se faz sentir no meio do aprendizado, dos livros. Não se lê, e quem lê não entende”, completa.

Há entre os proprietários das pequenas livrarias de bairro a queixa de que as grandes redes são as responsáveis pelo desaparecimento desse tipo de negócio familiar. Mas Herz não se incomoda com as queixas. “É algo natural do mundo democrático. Não se trata de uma característica exclusiva do mercado literário”, pontua.

“Imagina você, o que a quitanda acha do supermercado? É a mesma coisa. O pequeno empório sempre se sentirá prejudicado, e com razão. Afinal, o maior tem mais poder. Esse comportamento é normal, mas há de superá-lo. O menor não está condenado a essa posição. Ele tem de se esforçar para crescer e ser grande”, conclui.