Filme brasileiro premiado em Veneza propõe olhar sexy sobre a deficiência
Dirigido por Márcio Picoli e Victor Di Marco, London expõe o drama de um jovem com deficiência, entre o medo do diagnóstico e a magia sexual

No início de setembro, o filme brasileiro London venceu o Prêmio Leão Queer no 83º Festival de Veneza, na Itália. A trama acompanha um jovem com deficiência dividido entre descobrir o próprio diagnóstico ou permanecer sem saber sobre sua condição. O longa vai além da questão médica ao apresentar o protagonista como dominador sexual e explorar a violência a que pessoas com deficiência podem ser submetidas em ambientes de saúde.
A história de London, personagem vivido por Victor Di Marco, foi criada pelo ator e por Márcio Picoli. Na trama, o jovem trabalha como dominador em uma casa de fetiches, onde encontra espaço de liberdade e expressão. Em contraste, o ambiente médico é apresentado como um lugar de controle e violência, invertendo a expectativa de que consultas e tratamentos sejam necessariamente espaços de acolhimento.
É nas sombras da noite que ele escapa dos olhares capacitistas das ruas e se sente vivo. Já no ambiente médico, entre consultas e exames, surgem os traumas e o medo.
“Quando se pensa em sexo, parece sempre algo sujo, algo violento. Em London, a gente quis mudar, a gente quis botar violência e o perigo na medicina, nesse olhar perigoso do médico para cima do London, de não respeitar”, explica Márcio.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles EntretenimentoSem pudor, as cenas mostram London atendendo clientes submissos e tiram a deficiência do centro das atenções. Victor explica que a intenção do filme não é falar sobre a deficiência, mas mostrá-la como uma forma própria de experienciar e retrarar o mundo à volta.
“A gente está colocando a deficiência enquanto uma linguagem, enquanto uma estética. A gente está propondo que a deficiência e a acessibilidade sejam vistas como um jeito sexy de viver, como uma inteligência, como uma nova forma de fazer cinema”, disse.

Em Veneza, o longa venceu a categoria Melhor Filme com Temas LGBT e Cultura Queer. A conquista ocorre às vésperas do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado nesta segunda-feira (21/9). Ao aproximar sexualidade e acessibilidade, a produção coloca vivências dissidentes em foco sem limitar essas experiências.
Diagnóstico e violência médica
Ao longo do filme, o jovem é impelido a fazer exames para fechar um diagnóstico sobre a deficiência. Com o laudo em mãos, decide não abrir o envelope, que acaba escondido no congelador. Ainda assim, a persuasão médica vai além.
Depois de passar mal em uma via pública, ele é submetido a um novo exame. Sem conseguir imobilizar o próprio corpo, condição própria da deficiência, o jovem é sedado sem consentimento para a finalização do exame.

Apesar da dramaticidade da cena, Di Marco explica que a violência médica é uma constante na vida de PcDs. “Eu acho que não existe uma pessoa que não tenha passado por uma violência médica”, opina.
A aceitação do diagnóstico também vem carregada de um peso que envolve desde a possibilidade de influenciar no tratamento da irmã mais nova até o medo de ser resumido apenas à uma condição física.
O ator enxerga na recusa do personagem uma forma de rebeldia contra a condução médica que diminuiu a vida dessas pessoas à própria deficiência.
“Os corpos com eficiência para medicina eles servem só se tiverem algum tipo de cura”, declara. “A medicina tem uma lógica de buscar autonomia para esses corpos, de tentar deixá-los ‘o menos deficientes possível’. Então, quanto mais funcionais dentro do que a sociedade acha normal a gente puder enquadrar, a gente vai fazer. Se isso não funcionar, é totalmente desconsiderado.”
A produção do filme também foi impactada pelas enchentes na capital gaúcha em 2024, que paralisaram as gravações. Ao final, a dupla de roteiristas resume a saga de London como um “abraço ao desconhecido”.
Esse desconhecido pode ser um novo diagnóstico, um fetiche, a retomada após a catástrofe natural ou até uma mudança para Londres, decisão que o protagonista precisa tomar ao final do filme.











