Crítica: “Redemoinho” desenrola trama crua, direta, densa e realista

O longa, produzido pelo cineasta veterano Cacá Diegues, é uma obra especial no cinema nacional contemporâneo

atualizado

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Redemoinho , o filme
1 de 1 Redemoinho , o filme - Foto: Divulgação

Considerada a princesinha da Zona da Mata Mineira, a pequena Cataguases (MG), a mais de 300 km de Belo Horizonte, serve de cenário para o filme de estreia de José Luiz Villamarim, diretor de séries de sucessos da Globo como “Justiça” e “Nada Será Como Antes”.

É na cidade, cortada pela ferrovia do trem e movida pelo parque industrial, que se desenrola a trama crua, direta, densa e realista do impactante “Redemoinho”.

Vencedora do Prêmio Especial do Júri Oficial do ano passado do Festival do Rio, o filme, baseado no segundo volume de “Inferno Provisório”, de Luiz Ruffato, passa-se no espaço de um dia e conta a história de dois amigos que se reencontram na véspera de Natal, depois de anos sem se ver. Gravitam na órbita desse encontro passageiro, personagens secundários, mas determinantes na história, vividos pelas atrizes Dira Paes e Cássia Kis Magro.

Luzimar (Irandhir Santos), é o operário de uma fábrica de tecelagem que, ao cruzar a cidade depois do expediente, com sua bicicleta Caloi vermelha clássica, esbarra com Gildo (Júlio Andrade), há anos vivendo em São Paulo. O primeiro fincou raízes na região, viu o lugar crescer ao seu redor. O segundo buscou novos horizontes, deixando para trás amigos de infância, família e a poeira da saudade .

“Não tem como esquecer esse barulho, não”, comenta contemplativo Luzimar, referindo-se ao som do trem percorrendo os trilhos.

E o comentário desperta um dos elementos narrativos emblemáticos da fita: a veia sensorial, no qual o som da chuva e da bola quicando nos paralelepípedos, do rio correndo o curso, do trem de carga chacoalhando na ferrovia, das barulhentas máquinas na produção operária, têm significado na vida dos personagens.

Diálogos incisivos
O outro elemento narrativo importante em “Redemoinho” é construído em cima de diálogos incisivos e habilmente camuflados. Potencializado pelas elipses do roteiro (escrito pelo pernambucano George Mauro). Aos poucos, sob tensa camada de climas, somos convidados a entrar na vida e no cotidiano desses personagens de classe média baixa.

Logo, o espectador é engolido por um turbilhão de tensões e conflitos do “ontem e do hoje” que culmina nas lembranças de um trágico acontecimento local. A volta de fantasmas e de demônios de um tempo que não volta mais.

“Ele carrega a loucura de todo mundo nas costas”, reflete com certa consciência pesada o personagem de Irandhir Santos, assim como Júlio Andrade, a força motriz na engrenagem narrativa de “Redemoinho”.

No cinema, assim como na literatura, o “passado” é um signo poderoso e aqui surge com forte carga dramática numa espécie de metáfora social e psicológica na vida das personagens.

Com fotografia intensa de Walter Carvalho, “Redemoinho”, produzido pelo cineasta veterano Cacá Diegues, é uma obra especial no cinema nacional contemporâneo. Um tipo de trabalho a ser visto e apreciado com delicadeza de espírito.

Confira os horários de exibição.

Avaliação: Ótimo

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