Crítica: Eastwood expõe ônus do heroísmo em O Caso Richard Jewell

Longa do veterano diretor de Os Imperdoáveis (1992) acompanha drama de segurança acusado de participar de atentado nas Olimpíadas de 1996

atualizado 28/12/2019 14:15

Warner Bros./Divulgação

O filme O Caso Richard Jewell funciona como mais um capítulo de uma obsessão permanente de Clint Eastwood: repassar fatos, personagens (principalmente gente comum) e capítulos da história dos Estados Unidos por meio de seu olhar ao mesmo tempo clínico e melancólico.

Só na (já passada) década de 2010, o veterano narrou as angústias do primeiro diretor do FBI (J. Edgar), ascensão e queda do grupo vocal The Four Seasons (Jersey Boys: Em Busca da Música), os nervos em brasa de um soldado (Sniper Americano) e um piloto evitando uma tragédia (Sully: O Herói do Rio Hudson).

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Nos projetos mais recentes, colocou os personagens reais nos papéis deles próprios em 15h17: Trem para Paris (2017) e voltou a atuar após seis anos no papel de um horticultor a serviço do narcotráfico em A Mula (2018).

Richard Jewell se conecta sutilmente com todos esses filmes, sobretudo Sully e 15h17. Expõe, examina e problematiza a cultura de construir heróis para depois demoli-los sem qualquer cerimônia. Na era da guerra ao terror, basta uma capa de jornal equivocada (ou no mínimo apressada) para um ídolo se tornar um traidor.

O personagem-título (Paul Walter Hauser) é um sujeito qualquer. Adulto, solteirão, solitário, vivendo com a mãe, Bobi (Kathy Bates, indicada ao Globo de Ouro pelo papel), ele zanza de emprego em emprego. Mas o sonho é voltar a ser policial, profissão dos sonhos.

Em 1996, Jewell trabalha como segurança nas Olimpíadas de Atlanta. Numa das noites de shows no Centennial Park, o parque olímpico, ele percebe jovens beberrões fazendo algazarra perto de uma torre de som e iluminação. Espanta os bagunceiros e, atento, percebe uma mochila suspeita largada num banco.

Não parece ser nada. Apenas pertence particular esquecido por alguém. Mas o esquadrão de bombas é convocado e o medo de Jewell se confirma: uma bomba. Ele evacua os presentes antes de o artefato explodir, matando uma pessoa e ferindo outras 111.

Naturalmente, as investigações do FBI, comandadas por Tom Shaw (Jon Hamm), envolviam uma varredura na vida de Jewell, tratado de início como principal suspeito do atentado. Na visão dos agentes, ele se “encaixaria no perfil” do autor do crime. A jornalista Kathy Scruggs (Olivia Wilde), ávida por um furo, acaba estampando a apuração prévia das autoridades na capa do principal diário de Atlanta.

Não deu outra. O “julgamento” da imprensa logo colocou Jewell no foco do FBI, arrastando o simples segurança e sua mãe para o olho do furacão. O segurança chama para sua defesa o advogado imobiliário Watson Bryant (Sam Rockwell), com quem teve uma boa relação de trabalho no passado.

Nessa narrativa de pessoas comuns – o inocente falsamente acusado, o advogado abnegado e a mãe em sofrimento – contra autoridades beligerantes, Eastwood parece questionar: por que sempre é mais cômodo provocar pequenas tragédias colaterais em vez de aceitar a falta de respostas fáceis para o horror do terrorismo? O Caso Richard Jewell é um retrato direto e seco do quão contraditório, falho e passageiro pode ser o conceito de heroísmo.

O roteiro de Billy Ray (Capitão Phillips, O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio) não se rende a generalizações, como apontar o dedo para a mídia. Vale lembrar, por exemplo, que Eastwood celebrou o bom jornalismo no subestimado Crime Verdadeiro (1999).

Com a economia visual e sentimental de sempre, o cineasta fixa a trama em atuações potentes ao dramatizar o delicado tecido que separa vida privada e pública, imprensa e justiça. Em tempos de fake news mundo afora, um filme noventista irresistivelmente atual.

Avaliação: Ótimo

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