Vigilante que baleou rapaz no BRT: “Fiquei assustado com o vandalismo”

Em entrevista ao Metrópoles, Admilson Xavier Silva contou que grupo de 30 pessoas chegou quebrando tudo na estação: "Atirei para dispersar"

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 06/03/2019 17:38

O jovem de 18 anos que levou um tiro no rosto, nessa terça-feira (5/3), na estação do BRT na QR 119 de Santa Maria, ficou com a bala alojada na mandíbula e passou por cirurgia. O tiro que acertou Jhordan Maxwell Alves foi disparado por um vigilante, após vândalos quebrarem as vidraças do terminal. A princípio, segundo a empresa Aval, que presta serviços para o GDF, o segurança não vai ser afastado do trabalho.

A ocorrência foi registrada na 20ª DP (Gama), que tem Central de Flagrantes, mas foi transferida para a 33ª DP (Santa Maria). “As apurações iniciais apontam para legítima defesa”, disse o delegado plantonista da 20ª DP Jacsan Vasconcelos, na manhã desta quarta-feira (6). Jhordan estaria no meio da turma de vândalos, que usou um martelinho, possivelmente furtado de um ônibus, para quebrar o vidro da sala de cofre da estação.

Em entrevista ao Metrópoles, o vigilante Admilson Xavier Silva explicou que, por volta das 20h, um grupo com aproximadamente 30 pessoas desceu do ônibus, que já havia sido depredado, e passou a quebrar o que viam pela frente na estação do BRT. Só havia Admilson de segurança no local.

“Três funcionárias que trabalham na bilheteria ficaram assustadas. Pela quantidade de gente, cheguei a pensar que poderiam invadir a área do cofre. Vi que carregavam barras de ferro, pedras e garrafas”, disse. O vigilante contou que pediu para que eles parassem, mas o grupo não cessou os ataques.

Em seguida, o vigilante entrou em uma sala que considerava segura. “Atirei uma única vez para tentar dispersar. Fiquei assustado com o vandalismo e a destruição. Não tinha a intenção de balear ninguém”, ressaltou. Admilson conta que, depois do disparo, o grupo passou a ameaçá-lo e tentou entrar na sala. A situação só foi controlada após a chegada da Polícia Militar.

Ainda de acordo com o vigilante, que tem 18 anos de profissão, os atos de vandalismo no BRT começaram na sexta (1º) e é comum ter esse tipo de ocorrência no Carnaval. “Nos primeiros dias, vimos que quebraram os ônibus e alguns objetos do BRT, como lixeiras e janelas. Mas ontem [terça], o grupo estava muito alcoolizado e a quantidade de pessoas nos assustou”, completou.

Testemunha
O estudante Lucas Magalhães da Silva, 21, estava no momento em que Jhordan foi baleado. Ele nega que o amigo tenha quebrado o vidro da sala de cofre da estação. Contou ainda que havia cerca de 20 pessoas perto na hora da confusão.

“A gente estava voltando do Carnaval [no bloco Não pega ninguém, no Setor Comercial Sul]. Alguns meninos deram uma martelada no vidro. O Jhordan não fez isso. Ele apenas chegou perto e foi nessa hora que o segurança veio. O segurança foi muito imprudente”, destacou. Lucas é amigo e vizinho da vítima. Os dois estudam juntos. Segundo Lucas, Jhordan é tranquilo e nunca se envolveu em confusão antes.

Um adolescente de 16 anos, amigo da vítima, acredita que o vigilante tinha consciência de que não disparava para dispersar e não atirou “às cegas”. “Algumas pessoas o provocaram. Ele ficou nervoso e atirou, depois saiu correndo”, destacou. Ele afirma ainda que o quebra-quebra ocorreu depois que o rapaz foi acertado com um tiro na boca.

A estação do BRT ficou com vários vidros quebrados, inclusive o da sala do cofre, que foi tampado com um papelão. O banheiro para portadores de necessidades especiais chegou a ter a maçaneta arrancada.

Vigia acuado
O sargento Wagnewton Lopes atuou na ocorrência. Segundo ele, a Polícia Militar foi acionada pelo serviço 190. Conforme explicação do denunciante, o local seria palco de uma troca de tiros entre criminosos e vigilantes. Ao chegarem à estação, a PM encontrou o jovem ferido e cerca de 30 curiosos ao redor dele. Testemunhas relataram que o vigilante havia sido o responsável pelo disparo.

“O vigia estava acuado na sala onde fica o cofre do BRT. Nós apreendemos a arma dele, que estava com quatro munições intactas e uma deflagrada, recolhemos três testemunhas e levamos para a delegacia. Todos prestaram depoimentos e foram liberados”, contou o militar ao Metrópoles.

De acordo com a PM, Jhordan acabou de completar 18 anos e não tem passagens pela polícia. O rapaz recebeu os primeiros socorros pelo Corpo de Bombeiros e, em seguida, foi levado ao Hospital Regional de Santa Maria. O rapaz foi transferido para o Hospital de Base na madrugada desta quarta (6), onde passou por cirurgia. A Secretaria de Saúde não informou seu estado de saúde, alegando impedimentos legais.

Estação depredada
A estação do BRT funcionou normalmente nesta quarta-feira (6). A aposentada Maria José Rodrigues Guedes, 66, vendia doces no local pela manhã. “Ainda bem que fui embora mais cedo ontem [terça]. Minha amiga ficou e relatou confusão e violência”, conta.

Já o também aposentado Geraldo Elísio, 55, atribui o ocorrido ao comportamento das pessoas no Carnaval. “Foi algo horrível. Aqui o policiamento é bom, mas, sempre que tem alguma festa, acontece tumulto. As pessoas ficam cheias de bebida e drogas”, destacou.

A arma utilizada para o disparo, um revólver calibre .38, foi apreendida, bem como um martelinho quebra-vidros. Testemunhas confirmaram que a vítima fazia parte de um grupo de pessoas que saiam das comemorações do Carnaval e iniciaram um tumulto com depredação no local.

Segundo Gilberto Gomes, supervisor da Aval, a empresa vai acompanhar o desenrolar das investigações. “Ele [o vigilante] agiu em legítima defesa. Se o delegado tivesse entendido de forma diferente, teria ficado preso”, destacou. O Sindicato dos Vigilantes informa que colocou sua equipe jurídica à disposição de Admilson.

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