DF tem quatro vezes mais acidentes do que a média nacional, aponta CNT

Segundo a entidade, foram 333 ocorrências com vítimas a cada 100km de rodovia em 2018. A BR-020 é a que tem mais registros na capital

Andre Borges/Esp. MetrópolesAndre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 19/09/2019 12:15

O Distrito Federal registrou, em 2018, 867 acidentes nas rodovias federais que cortam a capital. Do total de ocorrências, 690 tiveram vítimas e 44 delas perderam a vida. Os dados são do Painel da Confederação Nacional de Transporte (CNT) de Acidentes Rodoviários, divulgado nesta quinta-feira (19/09/2019).

Em média, ocorreram 333 acidentes com vítimas a cada 100km de rodovia. O número é quatro vezes maior do que o registrado nacionalmente. Em nível nacional, a média é de 82 ocorrências.

Na capital, segundo a CNT, a rodovia mais perigosa é a BR-020, com 232 registros de acidente no ano passado. No trecho, 15 pessoas perderam a vida. A estrada começa em Brasília e liga a capital a Sobradinho e Planaltina. Passa ainda por Goiás, Bahia e Piauí até chegar ao Ceará.

Rogério Ferreira, 26 anos, faz parte da estatística. “Bati na traseira de outro carro. Pelo menos não foi grave”, disse o técnico, que trabalha no comércio de um posto de combustível às margens da rodovia. Ele atribui os resultados da CNT ao movimento na região e à falta de sinalização.

Ferreira conta que perdeu um amigo por causa do trânsito. Há dois anos, a vítima faleceu tentando atravessar a Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), próximo ao Parque Água Mineral. “Ele não costumava fazer isso. Foi só uma vez”, conta.

Os atropelamentos aparecem em segundo lugar no ranking das causas mais frequentes de ocorrências. Foram 13 casos em 2019. Só perdem para as colisões, que resultaram em 19 fatalidades.

Confira os números:

Travessia perigosa

Raissa dos Santos, 18, e Larissa Borges, 20, atravessam diariamente a BR-020, em frente à entrada de Sobradinho. “Eu tenho medo de atravessar, mas nós somos obrigadas. Deveria ter uma passarela aqui”, conta a estudante.

“Tem dia que ficamos minutos esperando”, conta Raissa. A saída dos ônibus da parada é uma das situações mais complicadas. “Mal a gente chega do outro lado, o motorista arranca”, contam as estudantes.

A prática é comum. A reportagem flagrou outros dois homens atravessando a BR pela pista. Questionados, eles alegaram pressa e disseram não ter o costume de cruzar a pista a pé. “É tranquilo”, disse um deles sobre o perigo de sofrer um acidente. Eles preferiram não se identificar.

Casos comuns

No Distrito Federal, os carros são os campeões de registros, contabilizando 83,3% dos casos. Motos (45,2%) e caminhões (8,0%) aparecem em seguida. Motoristas acima de 45 anos e homens lideram as estatísticas de vítimas.

O custo anual estimado das ocorrências em rodovias federais no Distrito Federal chegou a R$ 112,30 milhões em 2018. Do total, R$ 33,4 milhões foram para casos com mortes; R$ 73,7 milhões com vítimas; e R$ 5,1 milhões quando não houve vítimas.

Estradas e soluções

Na apresentação do material, na manhã desta quinta-feira (19/09/2019), Bruno Batista, diretor executivo da CNT, afirmou que as condições classificadas de extremo risco foram percebidas pela confederação, com 25% de crescimento nos últimos anos. Buracos de grandes proporções são os fatores de risco mais notados. “Esse é um grande facilitador de acidentes. Muito se atribui os acidentes à falta de atenção do condutor, mas problemas de infraestrutura precisam ser solucionados”, afirma.

“Mesmo a malha sendo muito utilizada, não conseguimos perceber um crescimento qualitativo e duradouro sobre o estado das rodovias. Ainda temos estradas com baixo nível de qualidade”, aponta Batista.

Há outro dado destacado por Bruno Batista: as pistas simples de mão dupla, que são a maioria no país e impactam diretamente nas causas dos acidentes. Analisando casos com caminhoneiros, a CNT aponta que o risco de morrer em rodovia simples é 2,5 vezes maior quando comparado a trechos de pista dupla.

“É preciso fazer investimento imediato nos pontos mais críticos, mesmo com baixos recursos disponíveis”, aponta Batista. O presidente da CNT, Vander Costa, aponta a concessão de rodovias e a cobrança de pedágios como uma possível solução para a falta de orçamento. Especificamente sobre o número elevado de acidentes no DF, Bruno Batista afirma que isso ocorre porque grande parte das rodovias que cortam a capital são federais. Assim, os motoristas costumam trafegar em velocidades mais altas, contribuindo também com o aumento de ocorrências.

Por todo o país

No Brasil, em 2018, foram registrados aproximadamente 69 mil ocorrências. Desse total, 54 mil tiveram vítimas. E 5,2 mil pessoas perderam a vida em rodovias brasileiras. A cada 100 acidentes com vítimas, 10 pessoas morreram — uma média de 14 óbitos por dia.

A CNT considerou ainda o período entre 2007 e 2018, quando foram contabilizados 1,7 milhão de casos registrados pela confederação – 44% deles com vítimas. Nesses 12 anos, cerca de 88 mil motoristas e passageiros perderam a vida. No mesmo período, o Distrito Federal teve 14,6 mil acidentes e registrou a morte de 620 pessoas. A média é de 51 fatalidades por ano.

Trechos perigosos

A rodovia que mais mata no Brasil é a BR-116, que liga o Ceará ao Rio Grande do Sul. Só em 2018, foram 649 vidas perdidas. No percurso, estão trechos famosos como a Régis Bittencourt — ente as cidades de Curitiba e São Paulo; e a Presidente Dutra, que faz a ligação entre São Paulo e Rio de Janeiro.

O maior registro de ocorrências em rodovia é na BR-101, entre o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul, passando por 12 estados pelo litoral do país. A CNT contabilizou 8.896 vítimas. A Rodovia Rio-Santos e a Rio-Vitória são alguns dos trechos conhecidos na BR-101.

Assim como no DF, carros foram os veículos mais envolvidos em acidentes no país, com 64,6% do total. Em seguida, aparecem motos (44,4%) e caminhões (23,4%). As colisões são o tipo de ocorrência mais frequentes: em 2018, foram 32 mil, o que representa 60% do total registrado no ano.

Entre os motoristas que mais morrem nas rodovias brasileiras, 34,7% são pessoas acima de 45 anos e 81% são homens. A CNT estima também que o custo anual dos acidentes ocorridos em rodovias federais no Brasil chegou a R$ 9,73 bilhões em 2018.

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