DF: aumenta número de motoristas multados sem cadeirinha para crianças

No primeiro semestre de 2019, 2.056 condutores foram autuados. Crescimento de casos coincide com proposta de Bolsonaro para fim da exigência

Andre Borges/Esp. MetrópolesAndre Borges/Esp. Metrópoles

atualizado 23/07/2019 21:35

Aumentou o número de motoristas flagrados nas ruas do Distrito Federal sem a cadeirinha para o transporte de bebês e crianças. Segundo o Departamento de Trânsito (Detran-DF), de janeiro a junho, 2.056 condutores foram multados. No mesmo período de 2018, foram 1.584 situações similares. O crescimento do descaso com a segurança dos filhos coincide com a possibilidade da extinção da multa. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) apresentou ao Congresso Nacional um projeto de lei para substituir a penalidade por uma advertência.

Do ponto de vista estatístico, os agentes de fiscalização do DF multaram 11 motoristas por dia. Na comparação entre os semestres, o número total de pessoas pegas sem o item de segurança teve um aumento de 472 casos. Percentualmente, foi um crescimento de 29%. Entre janeiro e junho de 2017, houve 2.063 autuações.

Na tarde desta terça-feira (23/07/2019), o Metrópoles flagrou o transporte de crianças sem a cadeira infantil no Distrito Federal (foto em destaque). De acordo com o artigo 168 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a infração é gravíssima. O condutor perde 7 pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e recebe multa de R$ 293,47. Agentes de trânsito podem reter o veículo até que a irregularidade seja sanada.

O item é obrigatório para o transporte dos pequenos entre 0 e 10 anos. No entanto, o projeto do Palácio do Planalto pode aliviar a barra dos motoristas com uma simples advertência por escrito. A perda de pontos na carteira seria mantida.

Polêmica

A proposta de Bolsonaro enfrenta críticas, inclusive de aliados. A deputada federal Christiane Yared (PL-PR) condenou publicamente o projeto. “Eu não sei o valor de uma cadeirinha, mas sei o valor de um terreno no cemitério. Eu sei quanto custa um caixão, eu paguei o caixão do meu filho. Eu sei quanto custam choro, flores”, disparou. Em 2009, a parlamentar perdeu um filho de 9 anos em um acidente de trânsito.

Por outro lado, a presidente regional do PSL no DF, a deputada federal Bia Kicis, defende o projeto. Ela não vê relação entre o aumento dos motoristas multados e a possibilidade de extinção da multa. “Sinceramente, não conheço um pai, mãe, avô e avó deixando de usar a cadeirinha em razão da não cobrança. As pessoas comentam que, graças a Deus, vão tirar a mão gananciosa do Estado de seus bolsos e pescoços. Vamos mudar essa relação de confiança”, argumentou.

Na campanha de 2018, Jair Bolsonaro prometeu acabar com a “indústria da multa” no Brasil. Nesse contexto, conforme explica Bia Kicis, a proposta tem condições de ser aprovada no segundo semestre deste ano.

Afrouxamento

Do ponto de vista do especialista em trânsito da Universidade Brasília (UnB) Paulo César Marques, se o texto for aprovado no Congresso, os motoristas deixarão de andar com a cadeira infantil. “A multa não é só arrecadação. É uma penalidade. Reduzir isso é a sinalização de afrouxamento da fiscalização. O problema não é a multa, é o não uso”, alertou.

Estatisticamente, Paulo César considera que os números divulgados pelo Detran-DF são alarmantes, mas não configuram um crescimento real. Segundo ele, o aumento do registro de uma infração não significa mais cometimento da falta. O professor explica que o órgão pode ter melhorado a estratégia de fiscalização. “Mas olhando apenas os números destes anos, vemos números muito altos. Isso é preocupante”, pontuou.

Polêmicas à parte, pesquisas comprovam a importância da cadeirinha para a proteção das crianças. De acordo com estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), o item reduz em 70% a chance de morte de bebês em acidentes. No caso de crianças, o risco de óbito é minimizado entre 54% e 80%, conforme a idade.

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